anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades

Quarenta e Nove Frestas

O cheiro importa. O frasco de perfume não. Os olhos importam, a maquiagem não. O sabor da boca revolve todo o mundo, as palavras bonitas boiam. Importa deixar-se tocar pela vida e tocá-la. Despi-la e despir-se. Importa que nos perdoemos quando perdemos de foco o que importa. Importa que aumentemos quando encontramos o que importa. Importa seguir.


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Quanto tempo mais estamos dispostos a perder? Em quantos frascos nos aprisionaremos até aprender de liberdades? Quantas vitrines construiremos? Quantas apoteoses ensaiaremos? Quanta luz demandaremos até aprender com as sombras? De quanta roupa necessitamos? Quanto brilho, blush? Quando fará sentido a finitude que nos diviniza?

Quando mais nos valerá a visão que o objeto avistado? Que faremos com as cores, ao acordar para a profundidade? Que serão dos pré-conceitos, uma vez abertos os olhos? Quem nos dividirá entre raças, quando a íris, desacostumada, der as costas à pequenez?

Será mesmo a Morte que nos empurra à ação? Ou será a língua que deseja? Terá mais força a ideia de nossa viagem última que os prazeres guardados numa papila? Gustativa? Quantos deuses e demônios nascem de uma língua? Quantas bocas construíram o templo de Salomão? Que tanta precisão nascerá de nossas confusões? Em que nomes nos apoiaremos? È sufficiente la parola?

Como serenar-nos? Terá a vida alguma chance contra nossa esperteza e rapidez? Será possível a vida fora de nossos narizes? Tivesse deus dito ama os animais no lugar do alimenta-te deles... que espécie seríamos? Quem, devidamente matriculado numa escola, aprende a auscultar suas vias? Quem, devidamente iniciado em nossos rasos saberes, saberá de si?

Vestidos de quê poderemos nos apresentar à vida? Onde encontrá-la? Lá fora, aqui mesmo? Quantas razões ela já nos apresentou para despir-nos das razões? Com que nomes a encontramos? De que forma a tratamos? Poderemos ser mais que as violências com que a apresentamos? Quanto estaríamos dispostos a pagar para abolir as finanças, os créditos e cobranças? Com quantos lençóis cobrimos nossos medos? É que o amor anda me despindo.

Aonde vamos? O que faremos quando nos perdermos? Com que mão nos reconduziremos ao caminho? Que tão macia ou tão pesada anda nossa mão? Nossas palavras nos levantam perdoando, ou fedem a doutrina? Como anda nossa coragem de pedir ajuda? Com quantas disritmias aprendemos, coração?

Como serão as cores daquilo que mais importa? Como identificar seus cheiros? Nos deixarão os caprichos percebê-lo em meio às rotas que traçamos? Nos deixará o orgulho chamar por ele? Nos deixaremos aperceber-nos, como Fernandinho Pessoa, quem, por trás dos olhos via-se vendo?

O que é que mais nos importa?

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Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades .
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