anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Poeta e autor de músicas, é piloto marítimo nas horas de descanso. Gosta de tudo o que cheira a liberalidades. Astrólogo e treinamento.

Vielas Democráticas

Noutro dia, em meio aos ruídos das torcidas pró e contra impeachment para a presidente Dilma, uma amiga pegou carona numa sentença de Ruy Barbosa, para responder à parcela dos manifestantes que vê, na insatisfação com as políticas do governo, boa seara para reaquecer as mofadas cinzas intervencionistas, que tanto nos caracterizam. Mas até que ponto nossas defesas à democracia nos ajudam a formar democracia?


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A pior democracia – rezou, um dia, o alabado Ruy Barbosa – é preferível à pior das ditaduras. O meu primeiro pensamento, ao ler tal assertiva no muro virtual da rede social de uma amiga, foi assino embaixo, entretanto meus sentidos, meu corpo, sinalizavam que algo ali estava errado. À exceção da pequena parcela – ou não seria tão pequena assim? – de imediatistas e intervencionistas que defendem a direção política do Brasil sob a batuta militar, a afirmação do federalista é bem fácil de ser aceita. Contudo, por não conseguir identificar a nota dissonante daquele refrão, mesmo tão curto, entrei no fluxo de comentários suscitados com um breve há controvérsia, já que, numa ditadura, pelo menos sabemos onde estamos pisando, enquanto a ideia de democracia pode nos enganar. Obtive réplica ainda mais curta: mesmo assim, [a pior democracia] é melhor.

Esforcei-me em nova tentativa, detendo-me um pouco mais sobre as letrinhas, vasculhando outras perspectivas. Talvez não fosse o conteúdo enunciado em si, ou algo mais que sugeria... Ao fim, me dei conta de que se tratava de algo menos. Noutras palavras, no contexto em que o dito fora invocado, me pareceu mais limitador que liberador.

Ao colocarmos a democracia acima do bem e do mal, parecemos vesti-la com a conhecida e odiosa capa da imunidade parlamentar, requinte do nosso oligárquico sistema jurídico para proteger o seu prelado. Como fazer valer o designativo do povo e para o povo, se não avaliarmos o que estamos fazendo, ou deixando que façam por nós, e – ainda mais importante! – como está sendo feito? De que nos servirá uma forma de governo tão sacralizada e intocável? Vale aqui recordar uma pertinente denúncia do queridíssimo José Saramago, quanto a quem detém o poder de fato mesmo nas, supostas, melhores democracias.

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Outra pergunta me fez um pouco mais clara outra inquietude: quanto há entre uma melhor ditadura e uma pior democracia? São estes os únicos polos possíveis? Ou ainda: quanto perdemos, ao restringir nosso pensamento ao duo democracia/ditadura? Por que temos sempre que andar com a criatividade cerceada, nossos poderes espremidos entre vielas deste tipo? Quais as consequência de colocar pior democracia como referência?

Bem se vê que Ruy Barbosa não tinha que pensar nessas coisas ao emitir um pensamento; mas nós temos que fazê-lo, ou estaremos sempre repetindo padrões. Antepondo um pensamento limitado frente a outro de mesma natureza o que teremos? Onde caberiam, nessa desforra trôpega contra as vontades de ditaduras, as discussões sobre municipalismo, desobrigatoriedade do voto, todos os questionamentos sobre representatividade e delegação mesma de poderes? Se não trazemos à baila os objetivos menos nobres do Estado, seu controle social e suas tendências oligárquicas, seus aparatos de coerção, como poderemos nos mover frente aos problemas das melhores democracias? Aos que gostam de perguntas ainda mais radicais: o que é uma melhor democracia? Ou ainda: será possível dizer governo do povo, quando identificamos povo justamente os que não participam das decisões políticas? Não será oligarquia o nome verdadeiro da ilusória democracia?

Como é que, em tempos tão ricos e propícios às ressignificações, em meio a demandas e movimentos sociais tão fortes, ainda nos conformamos com tais reducionismos?


Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Poeta e autor de músicas, é piloto marítimo nas horas de descanso. Gosta de tudo o que cheira a liberalidades. Astrólogo e treinamento..
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