anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades

2016-2017 – VAMOS JUNTOS?

Sejamos honestos: por mais que nosso coração altruísta e esperançoso tenha desejado um feliz e caloroso natal para todos, a vida demanda muitos outros esforços para 'que tudo se realize no ano que vai nascer'. Acostumados à nossa ineficiência, ao nosso descompromisso, aos níveis de corrupção que assistimos e praticamos a diário, mais das vezes pensamos que desejar ao outro um sincero feliz natal é o único que podemos fazer. Sem acreditar no poder de nossas ações, nos deixamos embarcar num jogo perigoso. De que necessitamos para trocar esse faz de conta, por um enfrentamento digno de nossos talentos em 2017? Como andam nossas perspectivas? Reafirmam nossos medos ou nos preparam para o combate? Negam nossos abismos ou trabalham para construir pontes que nos ajudem a começar uma jornada que valha a pena? Mais importante: o que poderá nos indicar – em termos práticos – um princípio forte o suficiente, para que construamos um ano 'novo' de fato?


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O clima de fim de ano consegue amolecer os corações mesmo dos mais durões. Todos ficamos mais propensos a perdoar, prestar apoio, doar mais de nós, espiritual ou materialmente. Afinal... É natal! Não é a toa que o comércio bate os recordes que todos conhecemos, mesmo em meio a grandes crises. Aproveitar-se de nossa boa vontade é o que muitos fazem de melhor, infelizmente.

Não é de se estranhar, portanto, a antipatia com que são recebidos os discursos no sentido oposto, concordam? Mas é preciso que revisemos nossas posturas, afirmar todo amor de que somos capazes – nessa e noutras épocas do ano – mas dele conseguir separar um pouco do oba-oba, das superficialidades, das incoerências associadas a ele.

Lembro que meus primeiros versos contrários aos sonetos natalinos faziam referência ao apelo comercial, velho conhecido nosso das semanas dezembrais. Comparado ao sentido cristão, por exemplo, o ruído comercial é vergonhoso, ao trocar o convite à renovação espiritual pela compra de roupa-sapato-e-decoração. Encerrar os ideais de partilha na formalidade da troca de presentes. É deprimente. Tomemos alguma distância da selva consumista que criamos, para ver a que ponto podem chegar nossa alienação, nosso descompromisso pessoal e coletivo. E antes que as plumas de alguns religiosos mais vaidosos queiram se armar, permitam-me aqui uma pergunta bem direta: como podem tantos seguidores do deus-menino, que nasceu entre animais porque os pais, refugiados, não dispunham sequer de um teto para trazê-lo ao mundo, cooptar com tamanho disparate? Quebrar estes círculos é responsabilidade de todos nós!

Se, de um lado, a vida parece nos desafiar o tempo inteiro a abandonar os velhos hábitos para abrir novos caminhos, realizar novas Jornadas, aprender novas posturas; do outro, nossos pontos de vista nos querem engessar ao já conhecido e à sua suposta segurança. As crises são o ponto claro dessas duas forças nos dividindo. O resultado é que os obstáculos com que nos defrontamos reluzem maiores; as paredes nos parecem mais altas; as distâncias, mais amplas do que realmente são. Terminamos por desistir antes mesmo de qualquer mudança.

Das mais violentas às mais sutis, todos percebemos quando uma crise se aproxima, quando nossas construções, objetivas ou subjetivas, começam a apresentar falhas, quando os sentidos começam a trocar de cor. E sempre que, no lugar do hiato, da confusão, do vazio chegante, escolhemos nos agarrar ao velho entendimento, como se assim pudéssemos impedir que o chão viesse a ruir sob nossos pés, perdemos energia e tempo preciosos para nossas possibilidades de recuperação. E isso é mais comum do que gostamos de assumir, não? Negamos o presente para esconder o medo, para poder avançar sob suposta calma. Somos assim, é o que dizemos. E de fato somos. Mas quem disse que não somos também tantos outros assins? Pessimistas de plantão – vou encabeçando a fila! – temos que admitir: o que gostamos de chamar de a mais pura realidade é sua parte visível, a parte da realidade que conseguimos ou escolhemos ver. Quem pode garantir que, para cada crise nossa, não poderemos encontrar, dispor de ou criar ideias, arranjos, vontades que nos ajudem a seguir de forma mais corajosa nossa Jornada?

Como nossas firmeza e fortaleza dependem diretamente de nossas crenças, cada vez que estas forem abaladas – e não me refiro apenas às crenças religiosas – nos tornamos mais vulneráveis, susceptíveis ao desânimo. Confundir-se, chorar, ficar com raiva são consequências compreensíveis para quem acabou de ser expulso de certo paraíso, não acham? Por que negar essas sensações ao nosso corpo e coração? Acolhê-las com honestidade pode ser um bom começo para nossa recuperação, já que nos ajudará a mapear a real situação em que estamos. Como me sinto internamente? Que pressões sinto externamente? De que exatamente disponho agora, depois da queda? Da clareza de nossas fragilidades e deficiências, de nossas fortalezas, talentos e excepcionalidades, dependerão os próximos passos: são elas que nos prepararão para as ações propriamente ditas, dando-nos pistas sobre as direções iniciais a tomar.

A descrição que ora compartilho com vocês é a de um processo, não de uma receita de bolo, ou pré-moldado qualquer. Processo não linear, dinâmico... sistêmico! Rico em tantos matizes e forças quantos formos descobrindo, criando, desenvolvendo dentro de nós.

Com um novo ciclo batendo à nossa porta – e estamos a apenas algumas horas da esperada virada – pergunto-me o que poderá nos indicar, em termos práticos, um início de Jornada promissora, de base firme o suficiente para que construamos algo novo, à altura de nossos sonhos e talentos? Uma resposta possível, embora de tom bem geral, vem de Paul Watzlawick, citando o que ele chama de imperativo ético, de Heinz von Foerster: Atua sempre de forma que se criem novas possibilidades. Sentença poderosa que, de per se, renderá mil outros diálogos.

A resposta de tom pessoal – a tua resposta – qual será? Não penso que alguém possa encontra-la por ti, mas no Caminho há tantas pessoas com as quais podemos contar... Conta comigo de antemão. Te convido a fazer parte dessa corrente de mudanças, de mutantes! Há tanta ciência disponível para consultarmos, métodos para serem experimentados, tantos meios, de tão distintas naturezas. As respostas de tom pessoal – as tuas respostas – podem desabrochar simplesmente, ou serem construídas. E em todo caso, terá a tua cara, a tua força, teu pulso, teu jeitão. Ou não será tua. Quem escolhemos ser, afinal, agentes ou espectadores de nossa história?

Quanto de tua coragem colocas à disposição dos teus sonhos para 2017? Quanto do teu talento podes entregar à nossa grande Comunidade? Com que podes contribuir para melhorar nossa humanidade em 2017? Que podemos esperar de nós em 2017?

Vamos juntos?

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Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades .
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