anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Poeta e autor de músicas, é piloto marítimo nas horas de descanso. Gosta de tudo o que cheira a liberalidades. Astrólogo e treinamento.

DE QUE NECESSITAMOS PARA VIVER COM AUTONOMIA?

Não é fácil fazer valer nossa individualidade, ainda mais quando a colocamos a serviço de objetivos comuns. Mas, honestamente, tampouco há nada mais gratificante que somar forças, talentos e ideais, na construção de um legado comum. Todos #porLatinoAmerica!


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De que necessitamos para viver com Autonomia? Faço esta mesma pergunta quantas vezes e a tantas pessoas quanto posso, com declaradas intenções de chamar atenção para o tema, e encontrar parceirxs de ideais, com quem compartilhar sentimentos e tocar ações neste sentido.

Apesar da diversidade das respostas que recebo, engana-se quem presume que as pessoas não estão preparadas para experimentar a autonomia. Os que repetem este bordão evidenciam, antes de tudo, a preguiça mental com que são treinados pelos meios de manipulação de massa – usemos os termos adequados. Bem ao contrário, a autonomia é tema bem presente na vida de muitos, e talvez nunca tenhamos tido tantas facilidades – literalmente ao alcance das mãos – para a realização de projetos de natureza libertadora, como nestes tempos.

No último 29 de junho, a BBC noticiou o feito dos moradores de Barra Mansa, no interior de São Paulo: planejaram e construíram eles mesmos uma ponte entre Nova Esperança a São Luiz, passando por cima, não só do riozinho que divide os dois bairros, mas de ‘enormes problemas de dinheiro, ineficiência e certamente de corrupção’, como afirma Geraldo Lissardy, autor da reportagem. Por iniciativa das senhoras Manoelina dos Santos e Juracy da Conceição, 72 e 65 anos respectivamente, os vizinhos conseguiram juntar a soma de que necessitavam, e o custo total da obra foi 54 vezes menor que o calculado pela prefeitura do município. Mais: tudo pronto em apenas um mês. Que tão especiais serão estas velhinhas? Serão portadoras de alguma habilidade mágica que lhes tenha garantido tal feito?

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Se há ‘uma teoria revolucionária, um sujeito revolucionário e uma situação revolucionária’, teremos uma transformação revolucionária da sociedade, é o que nos diz Ivo Tonet, no seu texto Sobre o Socialismo. Mas não se trata disso. Não se trata de erigir um sistema que supostamente responda por nossas obrigações. Nossos sonhos são de nossa responsabilidade. A representatividade, tal como a conhecemos, exige um preço muito alto, para a pouca eficiência que nos entrega. Melhor que adaptemos o conto: se há necessidades comuns, se há pessoas com vontade, e uma organização mínima comunitária, podemos operar com autonomia. Desses elementos necessitamos. Além de exercícios que estimulem o comprometimento e a criatividade.

Os que preferem a paralisia da indignação às dificuldades do movimento insistirão que se pode pouco contra forças tão poderosas, e mecanismos tão perversos. Será? Que se gastem mil e quinhentos dólares para realizar uma obra no lugar dos oitenta e um mil iniciais calculados por uma máfia pública... é pouco? O que dizer de ações como a do Ocupe Estelita, e sua resistente oposição ao consórcio das gigantes imobiliárias do Recife? Conseguiram a anulação dos quatrocentos e cinquenta milhões de dólares envolvidos no leilão fraudulento. Pouco? Deem uma olhada nas sendas abertas pelo Fora do Eixo: sem demandarem um centavo de origem pública, os jovens aí metidos desenvolvem festivais por cidades de todo o Brasil. Entre seus logros, de quando eram ainda principiantes em Cuiabá, constam a sistematização do escambo entre os músicos e bandas envolvidos, e uma economia solidária que tinha inclusive sua própria moeda. Organização, crianças! Coragem! Motivação e conhecimento a serviço de um legado.

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E aqui, atenção! Não é possível construir pontes, defender-nos da exploração comercial e financeira, organizar festivais ou agir criativamente, sem conhecer nossos talentos, nossas capacidades e aptidões, sem estabelecer uma rede confiável de pessoas dedicadas. Fica bem claro por que a regra para os sistemas educacionais, mesmo nos países abastados, é a promoção do automatismo e não da autonomia. Nas palavras do professor Darcy Ribeiro, ‘a crise da Educação no Brasil não é uma crise, é um projeto’. No linguajar popular, confiamos às raposas os cuidados com o galinheiro, e delas esperamos empatia. Ninguém, nenhum governo nos quer autossuficientes. Quem pagaria pelas regalias do alto clero? Quem poderá imputar o controle estatal sobre pessoas livres de fato? Há quem se engane com a declaração de direitos do homem propagandeada como direito universal. Ou quem se emocione com uma linha qualquer de carta magna, celebrando todo o poder que emana do povo. Quanta falta de coragem.

Caso emblemático, o surgimento e a rápida popularização do sistema Uber, arauto do que se há batizado de tecnologia disruptiva, para evitar a carga linguística da palavra revolucionário. Detentores de uma empresa que funciona sem as tradicionais possibilidades de controle por parte do Estado, os criadores e usuários do sistema podem reagir rapidamente, caso as taxas e impostos governamentais sejam abusivos. Os taxistas não gozam desta vantagem, seu contrato é de outra natureza. Imaginem o que aconteceria ao Uber, se o governo de São Paulo, por exemplo, criasse carga tributária suficiente para equiparar os preços aos cobrados por taxistas? Há tecnologia suficiente para burlar os abusos, há usuários prontos a mudar de aplicativo em busca de valores mais baixos, e todo abuso de poder traria efeitos contrários ao objetivo do próprio Estado: recolher mais impostos. Conhecimento aplicado sempre será fonte de poder. Os taxistas não têm a última palavra sobre seu negócio. Dependem diretamente do poder público para tirar sua pilha de licenças, e as rebaixas de impostos que façam valer a pena seu investimento.

Estamos assistindo ao forte avanço da ultradireita mundo afora, e todo o retrocesso que isto representa principia, justamente, na eliminação dos exercícios de autonomia. Isto explica, entre outras coisas, o empenho de grandes empresas de comunicação em limitar o acesso de dados da internet fixa para aumentar a exploração do mercado; os bloqueios ensaiados por políticos para a censura da imprensa; sem falar da perseguição a jornalistas, pelo mero cumprimento do seu trabalho de denúncias. Com que juizos ou desculpas continuaremos a nos esquivar de nossas responsabilidades? Que ações podemos começar, agora mesmo, em defesa de nossa soberania pessoal? Continuaremos como espectadores dos desmandes desses profissionais do cinismo?

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Não é fácil fazer valer nossa individualidade, ainda mais quando a colocamos a serviço de objetivos comuns. Mas, honestamente, tampouco há nada mais gratificante. Somemos nossas forças, talentos, ideias e ideais #porLatinoAmerica*, minhas amigas e amigos. Pra lá das diferenças e crenças, necessitamos reinaugurar espaços que amparem indivíduo e comunidade antes que seja tarde demais.

#porLatinoAmerica identifica as ações de um coletivo empenhado na mudança de comportamento e mentalidade, por entender que, sem isso, até as obrigações legais que buscam reparar a dívida histórica com as minorias podem se tornar inócuas. Segue-nos pelo MediosLentos, Twitter e Facebook.


Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Poeta e autor de músicas, é piloto marítimo nas horas de descanso. Gosta de tudo o que cheira a liberalidades. Astrólogo e treinamento..
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