anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades

PRA LÁ DO PÃO-TV-E-CIRCO E TODO PARTIDARISMO

Não somos caminho nem chegada
Nem o trabalho nos define
Menos ainda um sobrenome
Nem as luzes ou o picadeiro
Nem vícios ou virtudes
Ou sim?

Será um faz de conta
Isso de ‘somos’?
Um delírio ou precipício
Um lago cruz ou ponta
De infinito
Quem sabe sonho ou castigo?
Ícaro talvez
Ou seu íntimo labirinto?


Porque Somos

Meu Oito-de-Março começou em 18 de fevereiro. Eu apoio a legalização do aborto, gritava bravamente a campanha veiculada pelo Twibbon, antecipando as celebrações do Dia Internacional de Luta das Mulheres, de forma coerente, ampla e verdadeira, sem as florezinhas e risos falsos que conformariam a hipocrisia geral da república, dezenove dias depois. Em jogo, nossa autonomia. Autonomia feminina e minha também. Machismo é um problema de homens, disse alguma vez o mago Saramago. Afinal, padecemos todos sob o mesmo julgo, do Estado, esse conjunto de instiuições políticas, legislativas, judiciais, militares, financeiras etc, por meio das quais se subtrai ao povo a gestão de seus prórpios assuntos, a direção de sua propria segurança, elucida-nos Errico Malatesta, em seu escrito A Anarquia. Legalizar o aborto é enfraquecer o controle social e NOS fortalecer, empoderar-NOS, mulheres e homens, garantir a soberania que temos sobre nossos próprios corpos. Não é tema religioso, nem psicológico, nem médico. Não aqui. Ninguém apoia o aborto, senão a faculdade de decisão que todos temos sobre nós mesmos.

Numa pertinente provocação, uma professora perguntou por que [ao invés de nos preocuparmos com isso] não lutar por uma educação a todas as mulheres, independente de classe social, para que sejam capazes de decidir, desde cedo, o que vão fazer do seu corpo? Nada mais coerente, aparentemente. Aparentemente, porque lutar por educação nos moldes que praticamos é fazer chover no molhado. Segundo as diretrizes que regem nosso sistema educacional, nossa educação é para todos, independentemente de gênero, cor-da-pele, e tem mesmo por objetivo reduzir a desigualdade social, a diferença de classes. Friso, contudo, o é e o independetemente porque sabemos que o sistema educacional não é para todos, seja histórica, politica ou economicamente, seja conceitural, filosófica ou existencialmente, muitíssimo menos independentemente, por razão bem simples: nós, sujeitos desse fenômeno, não privilegiamos a Autonomia. E sem ela, sobra-nos, abunda, a submissão. [Cacofonia proposital!] Se, em teoria, rechaçamos há muito as bases da Escolástica, nossa prática segue privilegiando a reprodução, a hierarquia, a continuação do conhecimento mastigado, curricular, apático, alienado de nossos desejos, gostos, necessidades.

Na situação em que nos encontramos, ninguém decide nada por si. As mulheres, ainda menos. Mesmo que todos os seus conhecimento, consciência e corpo lhe dissessem para interromper a gestação, mesmo que todos os exames e pesquisas científicas corroborassem com tal decisão, ela continuaria de mãos atadas. Mais ainda: será uma mulher formalmente não-educada incapaz de decidir sobre si mesma? Não será justamente nossa educação a responsável por garantir nossa submissão? Me recuso a pensar que os abismos que nos segregam socialmente, que escancaram nossa guerra de classes, de raças, de gêneros, se sustentem por mera ignorância. Bem ao contrário, são nossas escolhas que conformam nossos arredores. O feicebuque madrugou, no dia oito, uma postagem que sugeria comemorar a igualdade para as mulheres em todo o mundo... Oi? Comemorar que igualdade? É alguma piada de mau gosto? Comemoremos o quê, os níveis de violência, de homicídio, a discrepância entre os salários? Estas senhoras e senhores que administram esta rede social não têm responsabilidade com os problemas do seu tempo? Não teremos NÓS responsabilidades para com tudo isso?

Grazy - Feminismo Poético.png

Pergunto-me o que nos faz eufemizar a tais níveis a realidade percebida. Refugiamo-nos em desculpas, certamente, para poder sorvê-la de alguma forma. O Estado Oligárquico de Direito, aparato político-judicial estruturado por e para os grupos de hegemonia econômica, chamamos de Estado Democrático. Sobre tal base choca, sonhamos ter, um dia, um sistema educacional que promova nossa liberação, como fosse possível esperar do algoz, motivação para assinar nossa carta de alforria. Esperamos que a máquina alienadora promova nossa desalienação. Escolhemos digladiar entre nós mesmos, no lugar de incluir-nos em grupos nos quais caibamos todos.

As pessoas ainda não estão preparadas para tais mudanças, escutamos. E já não perco a oportunidade de perguntar: Quando estarão? Os princípios das ações políticas estão e sempre estiveram nas mãos dos líderes, responsáveis por trazer ao povo algo pra lá do pão-tv-e-circo com que querem-nos alimentar sempre. Precisamos nos reorganizar politicamente, promover novos tipos de liderança, reavaliar nossas crenças, condutas e estruturas. Comemorada deve ser a garra das mulheres e homens que quebram os ciclos que, há muito, promovem tamanha loucura. Celebrados devem ser os frutos de tão bonita luta, nossa fome e sede por relações mais justas, nosso poder de mobilização sem partidarismos.

Não há facilidades nesse caminho. Mas não há como evita-lo.

...talvez seja impossível tratar qualquer problema humano sem preconceito: a própria maneira de abordar as questões, as perspectivas adotadas pressupõem uma hierarquia de interesses: toda qualidade envolve valores. Não há descrição dita objetiva que não se erga sobre um fundo ético – é Simone de Beauvoir quem nos adverte, logo na introdução do seu O Segundo Sexo. Mas continua:

Todo sujeito coloca-se concretamente através de projetos como uma transcendência; só alcança sua liberdade pela sua constante superação em vista de outras liberdades; não há outra justificação da existência presente senão sua expansão para um futuro indefinidamente aberto.

Crime Sagrado.png

Quero terminar este texto, com o registro que recebi de uma amiga muito querida, Quebec Xavier. Movido pela provocação de um amigo chileno, Gonzalo Larenas, parceiro num projeto que presta ouvidos às vozes que retumbam nas ruas e aplicativos virtuais de nosso latino continente – carinhosa e temporariamente intitulado Vozes de Latino-América – pedi a algumas amigas que falassem um pouco sobre o papel da mulher na américa latina, e de como tal papel se projetaria para o futuro. Ela nos presenteia assim:

Qual o papel da mulher na américa latina? A pergunta não tem funcionalidade alguma. Procurar um papel para a mulher é desonrar sua representatividade, no sentido existencial. A arte tem um papel, a filosofia tem um papel, a psicologia tem um papel, a medicina tem um papel... a mulher, mulher não é algo a ser estudado, analisado, fundamentado, mulher não é artigo científico, somos filhas do carbono, assim como os homens, podemos segurar pergaminhos e espadas, podemos tirar a vida de nossos proprios filhos, crueldade não é privilégio masculino. A pergunta nos revela o grande problema, carregado há séculos por mãos resistentes que não nos soltam nem por nossos gritos de pavor: nos deram papéis. O papel de filha, o papel de mãe, o papel de esposa, o papel de amante, o papel de puta, o papel, o papel, o papel... e ai daquela que não exercer o seu com total afinco e perfeição. Não nos deem papéis. Somos uma máquina organica de complexidade. Enquanto mulher, eu me nego a responder qual o meu papel na américa latina, e no mundo, e na metafísica. E se há negação, não há perspectivas nem futuro!

*Ilustração de Capa de Tássia Costa


Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades .
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