anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades

A Música dos Astros - Signos

Há poucos dias, depois de despretensiosa conversa com um amigo, criei por brincadeira uma postagem associando o signo de Áries a um trecho da música 'Meu Amigo Pedro'. As pessoas foram tão receptivas, e algumas das reações tão curiosas, que terminei dando sequência às postagens, correndo a ordem do zodíaco. E ora compartilho um pouco da ideia com vocês.


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Que têm de arianos estes versos de Raulzito Seixas? O convite que nos fazem ao avanço, aos começos encarados de maneira simples, honesta e corajosa. A disposição às iniciativas. Isso não quer dizer que os sentidos dos versos se resumam a estes; nem que a música verse sobre o signo de Áries; ou que devamos interpretá-la sob seus auspícios deste signo; ou – menos ainda – que os versos nos sirvam para identificar um ariano ou ariana. Aliás, como veremos, é neste último sentido que a maioria de nós termina se equivocando com o que lê nas redes. Até porque tal engodo dá pano pra as mangas tanto para bons humoristas, quanto para sutis oportunistas. A ideia do nosso exercício foi captar, nos versos apresentados, algo dos convites trazidos por cada Signo. Mas o que queremos dizer com isso?

Acho pouco provável que Paulo Vanzoline estivesse interessado no signo de Touro, ao compor Volta por Cima, mas não sei de outros versos que descrevam, de forma tão acertada, o convite daquele signo: à persistência, às resiliência e territorialidade. Mas como ficará a associação que se faz entre nativos e nativas deste signo, e seus cuidados com o trato pessoal, por exemplo? E aqui começamos a mergulhar um pouco mais nesta interessante senda: a preocupação que alguns taurinos têm com sua imagem pessoal, com fragrâncias e afins, não deriva exatamente do signo, senão de sua relação com Vênus, e um montão de outros elementos. Em termos astrológicos, dizer de alguém taurino ou canceriano significa que o Sol estava fazendo ponte entre uma pessoa e a respectiva constelação, no instante do seu nascimento. Contudo, por mais fortes que sejam os efeitos decorrentes desse fato, nenhum de nós se resumem a eles. Sob uma perspectiva sistêmica, este é apenas um, entre conjuntos intricados de aspectos, evidenciados em nosso comportamento; e fração bem pequena, aliás, entre os múltiplos fatores observáveis num mapa astrológico. Quando nos referimos ao convite deste ou daquele signo, estamos falando das essências com que ele nos seduz, ou certos rumos para os quais ele nos chama a atenção. E todos nós recebemos todos eles simultaneamente. O que mudam são os arranjos com que eles nos fazem vibrar. Aqueles que recebem uma mãozinha de alguns planetas, terão matizes diferenciados. Quando o planeta é o Astro Rei – sim, o Sol é tratado como planeta, desde a perspectiva astrológica – o brilho simbólico ainda mais distinto. Isto faz de nós, por conceito, sagitarianos, librianos, escorpianos... mas não nos encerra em padrões, como popularmente se pensa. Lembremo-nos disso, sempre que enunciarmos os chavões do tipo nós, os aquarianos... ou os nascidos em Áries são assim... etc. Tudo o que somos, toda nossa multiplicidade não cabe em terminologias ou classificações.

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Talvez – e este é um talvez com muitas ressalvas, como veremos – isso explique um pouco da falta de identificação sentida por alguns leitores, ao terem visto alguns dos versos associados aos seus signos.

Para evidenciar os convites geminianos à conceptualização e à comunicação, lancei mão de uns versos da música Coisas & Coisas, de minha autoria. Para minha felicidade, uma de minhas amigas mais queridas deste signo teceu um belo comentário, puxando minhas orelhas, e nos parafraseou de uma forma mais sintonizada com sua verve: Será que não está claro que, se não for feito algo, isso não vai acontecer? Tenho o meu roteiro e vou seguir, espero que alguém, algum dia, entenda. Ou chegue perto de entender. Esse é um texto geminiano, sem dúvidas! Feito à base de perguntas, mencionando roteiro, entendimento... Mas traz uma breve sutileza: o seu apelo é saturnino. Ou seja: versa sobre os temas que Saturno nos inspira – concretização de metas, construção, empenho nas responsabilidades pessoais – não os de Gêmeos.

Outra ressalva, do já mencionado talvez: quem disse que quem vos escreve goza, ou algum dia gozará, dessas prerrogativas oraculares, a la infalibilidade papal? Ou, parafraseando os terapeutas, estaremos imunes aos efeitos de nossas próprias histórias, ao interpretar ou criar um contexto? Ainda não encontrei quem possa. Acredito que o conhecimento e manejo de certas técnicas nos habilitam a desbravar certas sendas d’Alma, e a Coragem nos anima a avançar nestes Caminhos, mas serão os resultados de nossas interpretações quem evidenciará nossa eficiência ou inaptidão. Gosto da provocação feita por uma médica, durante o filme O Nascimento do Parto, mais ou menos nestes termos: Vocês acham mesmo que a Medicina é uma ciência exata? Nossos procedimentos, quase sempre, derivam de tradições que nada têm de científicas. Não vêm, nem sobrevivem, de laboratório, mas da boa prática terapêutica. Argumentação mais ampla e detalhada, sobre a mal entendida relação entre Fundamentação e Práticas científicas, encontrarão os mais afoitos em El Sinsentido del Sentido, de Paul Watzlawick, terapeuta, doutor em Comunicação, e crítico da psiquiatria.

Para que não divaguemos demais, contudo, trago o apoio de outro comentário, deixado desta vez por uma virginiana a quem respeito um bocado. Debulhar o trigo. Recolher cada bago do trigo. Forjar no trigo o milagre do pão... até aí, tudo bem, ela escreveu. Mas o Se fartar de pão não lhe fez muito sentido interno. Cês não sabem como me gusta uma boa interlocução! Vamos lá:

Como se não bastassem as condicionantes de quem fala ou enuncia algo, o sentido dos enunciados é dado pela Escuta, não o contrário. É o que nos garante Rafael Echeverría, no primeiro volume do seu Actos de Lenguaje. A comunicação é dirigida pelo ato – nada passivo – de escutar. Tendo minha amiga acolhido o Se fartar de pão no sentido da alimentação, o sentido da abundância e plenitude em que me amparei não se fez muito presente. Ela tem toda razão ao mencionar a falta de sentido interno pra ela, porque, sendo bem honestos, teremos que assumir que todos os sentidos, de tudo o que enunciamos ou escutamos, passam por nossos filtros internos, pessoais. E, por essas e outras, são tão vulneráveis certos discursos acadêmicos – que se querem científicos – ao arrogarem para si uma objetividade de que ninguém dispõe. Bem como, em sentido contrário, mas num mesmo eixo abusivo, encontramos discursos de religiosos que querem fazer de um acontecimento particularíssimo, místico, algo universal, coletivo. E salve meu amigo Paul Watzlawick de novo, que tão bem coloca estes eventos sob a perspectiva do Construtivismo nu e cru.

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E o que mais sairá desta cartola, se a tudo o que foi dito adicionarmos nossos ruídos culturais? Eis o comentário bem humorado de outra amiga, ante os versos que escolhi para o seu signo, Capricórnio: Somos ateus, incrédulos... não sei desse negócio de Deus que você disse não... A música foi A Montanha, dos Carlos, Erasmo e Roberto. Claro que ela sabe de vários capricornianos crédulos, mas tem quem faça, a sério, associações deste tipo. Quem nunca ouviu que os piscianos são religiosos em sua maioria? Quem pode garantir isso? Há ateus espalhados pelo mundo inteiro, nascidos nas mais distintas datas, graças aos deuses e deusas! O convite de Capricórnio nos chama às perspectivas altaneiras da vida, daqueles que a percebem como se num alto duma montanha estivessem... mais perto de Deus, dizem alguns. Considerando o necessário distanciamento metodológico, dirão outros. São bem conhecidas as diferenças de perspectivas desenvolvidas por nós, a depender dos costumes praticados nos lugares em que nascemos, pelas pessoas com quem convivemos e nos desenvolvemos.

Finalmente, permitam-me mencionar um último complicador: Quem de nós não gosta de exibir características pessoais bem valoradas culturalmente? Ou quem de nós fica à vontade, ao descobrir em si tendências culturalmente inadequadas? Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero. Não tolero lero-lero, devo nada pra ninguém! É o que diz a postagem com os versos de Edu Lobo, sobre o signo de Leão, para verdadeiro frenesi de leitoras e leitores nascidos sob sua égide. Serão, entretanto, todos os leoninos inflamados do en-theos-iasmos a que nos convida este signo?

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Quiçá a esta altura, suas ideias estejam ainda mais confusas. Peço [falsas] desculpas para meus arroubos aquarianos. Vou na crista da onda com meu chapa Tom Zé: Eu tô te explicando pra te confundir; eu tô te confundindo pra te esclarecer! Se o texto servir para aguçar algumas curiosidades, já está valendo a pena. Espero que queiram contribuir com comentários, não só agora, como no próximo ciclo que virá, tendo os Planetas como protagonistas. Que me dizem?

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Bruno Albuquerque

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