André Camargo

Dois filhos, um livro e nenhuma árvore

A Jornada de Lucy (1ª Parte)

Já recebeu um Chamado, na sua vida, que o/a impelisse na direção de um mundo novo e desconhecido? Veja aqui como os padrões narrativos atemporais de A Jornada do Herói - arquétipos, símbolos e situações míticas - são usados para dar vida a filmes como 'Lucy', de Jean-Luc Besson.


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Outro dia assisti ao filme mais recente do Jean-Luc Besson, diretor que admiro e acompanho desde os anos 80. Gostei demais do trio Subway, Nikita e Imensidão Azul, mas sobretudo de O Profissional. Já O Quinto Elemento não me empolgou tanto. E, por algum motivo misterioso, ainda não tive vontade de assistir a Joana D’Arc.

CORTA

Você já ouviu falar da Jornada do Herói - ou Monomito? São elementos míticos - símbolos e arquétipos - derivados de tradições ancestrais e associados ao processo de transformação humana. Foram sistematizados por um cara muito interessante, o Joseph Campbell, e depois repaginados de modo didático por um profissional de Hollywood, Christopher Vogler. Desde então, a Jornada passou a ser utilizada como uma das principais referências de estrutura narrativa na cultura pop, especialmente na construção de roteiros e histórias de ficção.

CORTA

Descobri que o exercício de aplicar esse código simbólico aos filmes pode ser instigante. Vejamos.

Fantasiosa e problemática, do ponto de vista científico - afinal, não é verdade que usamos menos de 10% do nosso cérebro - mesmo assim achei a premissa do filme Lucy sensacional: “E se um ser humano fosse capaz de usar 100% de sua capacidade cerebral? O que aconteceria com essa pessoa?” Acho que é a primeira coisa que nos vem à mente quando ouvimos falar que usamos apenas um volume relativamente pequeno de nosso cérebro. Ao me dar conta, no cinema, da ousadia de abraçar uma premissa tão ingênua, mas fervilhante, confesso que fiquei maravilhado - que gostosa a liberdade de deixar-se criar uma história a partir disso! Afinal, dar asas à imaginação é uma das grandes vantagens da ficção.

De cara, a montagem usa um recurso narrativo que me agrada: o Mundo Conhecido da protagonista, que permite à platéia entender quem é aquela pessoa, é pressuposto. A escolha narrativa de ir apresentando um personagem ao longo da história - e não como uma espécie de introdução à aventura - nos permite mergulhar logo de saída no coração dos acontecimentos. A gente aprende mais sobre a pessoa que Lucy costumava ser em meio à ação no Mundo Desconhecido, isto é, conforme se desenrola sua jornada de transformação. O melhor exemplo dessa estratégia de exposição gradual da personagem é a conversa - tocante - com a mãe pelo telefone, que acontece quando ela está no hospital.

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O Chamado que coloca a história em movimento é formulado logo nas cenas iniciais, no mesmo momento que chamamos de Entrada em Cena do herói (da heroína, neste caso). Se você assistiu ao filme, vai se lembrar de que um cara com quem ela está ficando há pouco tempo insiste loucamente para que ela entregue, no seu lugar, uma maleta trancada que não podem abrir, e cujo conteúdo ele alega desconhecer, a um hóspede misterioso de um hotel de luxo em Taiwan. O hotel - The Regent - é uma referência ao arquétipo da Caverna Oculta, o lugar onde se esconde o Regente do Mundo Subterrâneo. A resistência de Lucy é inútil; ela é tragada pela jornada que deverá viver ao ser algemada à mala. Note que, com essa imagem, os criadores do filme produzem uma metáfora: a heroína está presa ao próprio destino.

Apresentando uma série de perguntas antes que Lucy pudesse entrar, o recepcionista do hotel ao interfone manifesta o arquétipo do Guardião de Limiar. Na mesma sequência, o assassinato de Richard, seu affair, simboliza a morte da vida comum de Lucy, deixada para trás em definitivo enquanto ela avança rumo ao Desconhecido. A Travessia de Limiar, encenada por meio de uma viagem de elevador e da passagem pelo corredor do hotel até a suíte do vilão, é traumática, conduzida por seguranças de aspecto implacável em meio a corpos, assassinatos e sangue. Como uma recém-nascida, ao emergir de supetão na realidade do crime organizado, Lucy, em pânico, apenas balbucia palavras em língua incompreensível para seus carrascos. Tenta o espanhol, também, de modo desesperado e quase patético. Reduzida à condição de desamparo e impotência de um bebê, diante da brutalidade das circunstâncias, não pode sequer usar a fala para implorar pela vida.

É nessa caverna escura que conhecemos o personagem que manifesta o arquétipo da Sombra, Sr. Jang. Ele é apresentado com uma pegada psicopata que me lembrou o vilão de O Profissional, interpretado por Gary Oldman. Mister Jang parece ser um líder poderoso do tráfico internacional, que manda esconder pacotes de uma nova droga dentro do corpo das mulas, por meio de cirurgia, para que sejam transportadas até a Europa. Sinistro.

Vivemos uma primeira situação de Morte e Renascimento quando Lucy é agredida com um chute no abdomen por um capanga menor e um desses pacotes se rompe no interior de seu corpo. De acordo com a mitologia do filme, a poderosa substância é produzida espontaneamente pelo corpo da mãe durante a gestação de um novo ser humano. Mais uma metáfora, para indicar ao espectador(a) que o Novo está prestes a nascer. A imagem do Novo está intimamente associada ao arquétipo do Herói; pense, por exemplo, no protagonista de Matrix: Neo.

Eis, do meu ponto de vista, a ideia central dessa história: assim como a pré-histórica Lucy (que aparece na abertura do filme) é considerada a primeira mulher, a personagem interpretada por Scarlett Johansson é o símbolo do nascimento de uma nova condição, um ‘salto quântico’ na evolução da espécie. A primeira mulher de uma nova humanidade.

Também me ocorreu uma interpretação alternativa: ela seria na verdade a última mulher, o encerramento de um ciclo; a primeira Lucy nos emancipa da condição animal de indiferenciação com o meio, enquanto esta, ao transcender o tempo e, portanto, a ilusão de individualidade, transcende também a própria condição humana.

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Na conclusão deste texto, que será publicada em breve, sigo usando o filme 'Lucy' para examinar a relação entre Herói e Mentor, o sentido último da Jornada do Herói, o Legado e o que Nietzsche tem a ver com isso.

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