André Camargo

Dois filhos, um livro e nenhuma árvore

A Jornada de Lucy (Conclusão)

Você já recebeu um Chamado que o/a impelisse na direção de um mundo novo e desconhecido? Veja aqui a conclusão do texto sobre o filme 'Lucy' e descubra o que Neo, Nietzsche e Jesus Cristo têm a ver com isso.


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Na primeira parte deste texto, que você pode ler AQUI, comento o filme Lucy na perspectiva da Jornada do Herói. A protagonista é arrastada para uma armadilha por um personagem pilantra, que a algema a uma maleta executiva de conteúdo misterioso. Essa maleta, depois ficará claro ao longo do filme, carrega o Elixir que leva Lucy a uma primeira experiência de Morte para o passado e Renascimento em nova condição.

Ao perceber suas capacidades mentais progressivamente desbloqueadas, procurando dar sentido às sensibilidades que a inundam, a heroína busca a ajuda de um Mentor. O personagem interpretado por Morgan Freeman atua na dimensão ética: muito embora seja o autor das teorias mais corretas acerca da expansão do uso do cérebro, ele próprio não consegue acessar de modo direto as experiências de Lucy. Não consegue compreendê-las, na prática.

Note o paradoxo: ela é bem mais poderosa que ele, entretanto precisa dele - um ser humano normal (repare em seu nome: Prof. Norman), que usa menos de 10% de sua capacidade cerebral, para descobrir o que fazer com tamanho poder. Aí há uma sugestão interessante: inteligência não é tudo; mais importante é saber como aplicá-la.

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O que ele afinal sugere manifesta a essência do arquétipo do Mentor. Ele sugere que ela se dedique à mesma atividade que ele próprio desempenha em suas conferências. Trata-se da mesma atividade que desempenhavam as células primordiais, desde a origem mais remota da vida (lembra da imagem de abertura do filme?): tendo cumprido as próprias Jornadas, transmitem às gerações seguintes a essência do que aprenderam.

O Herói é também aquele que volta para contar. Compartilhar a sabedoria adquirida na estrada, ao longo das várias jornadas que percorremos na vida, é o que marca a passagem da condição de Herói para a condição de Mentor - a pessoa que oferece àqueles que estão dando os primeiros passos na tradição dos heróis, o seu Legado.

A relação entre Lucy e o Prof. Norman veicula uma das mais contundentes questões existenciais universais, presentes em todo ser humano, seja de que tempo, lugar ou civilização: “O que devo fazer com aquilo que me foi dado - meus talentos, minhas inclinações - minha vida?”.

Em outro sentido, a relação Herói-Mentor, neste filme, coloca em evidência dois pontos fundamentais para a jornada pessoal de cada um de nós:

1. A diferença entre Conhecimento Intelectual, Conhecimento Iniciático (aprender com a experiência) e Sabedoria (a dimensão Ética e Ontológica)

2. O sentido da Jornada como a expressão máxima (100%) de nossos potenciais, não para benefício próprio, mas como contribuição pessoal para o conjunto da humanidade. O sentido último da Jornada é o Legado que inspira outras pessoas a abandonar a zona de conforto e seguir aquilo que faz seus corações vibrarem.

De fato, o que nos insere na Humanidade é que emergimos como indivíduos em meio ao Legado deixado por nossos ancestrais, humanos e não-humanos, ao passo que deixamos como herança nosso próprio Legado, o verdadeiro Elixir que emana como inteligência coletiva auto-organizativa do conjunto de nossas Jornadas. Esse é o ouro alquímico, o Santo Graal.

CORTA

Confesso que uma coisa me intrigou: quando Lucy atinge 100% de uso do cérebro, próxima ao ponto de culminância de sua transmutação (a Ressurreição), ela se expande na direção dos servidores e demais equipamentos do laboratório na forma de uma gosma escura como piche, de aparência repulsiva. Por que essa escolha criativa?

Levando em consideração que a substância remete sensorialmente a qualidades sombrias, especulo que esteja associada às circunstâncias em que ela adquire capacidades sobre-humanas: não como resultado de uma longa e árdua busca espiritual, por exemplo, mas de modo trágico e quase acidental, como vítima de uma violência inominável que a arremessa em uma Jornada de Vingança e Redenção.

CORTA

Diziam os gregos antigos que o ser humano encontra-se a meio-caminho entre os animais e os deuses. Em versão remix, Nietzsche afirma, pela boca de Zaratustra, que “o Homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-Homem; uma corda sobre o abismo”.

Na mitologia de Luc Besson, a heroína Lucy é como uma versão feminina de Jesus Cristo - ou de Neo, no mesmo sentido, e portanto encarna o arquétipo do Herói por excelência: aquele que é oferecido em sacrifício para a salvação de todos nós.

O significante 'Lucy', no filme, é a corda que conecta a primeira à última mulher e dá forma à Jornada de cada um de nós, e de nossa espécie, por sobre o abismo; com ela, pelo poder da ficção, realizamos a travessia que nos redime não apenas da animalidade, mas também da ilusão do tempo, da individualidade e da morte.


André Camargo

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