André Camargo

Dois filhos, um livro e nenhuma árvore

COMO ERA VOCÊ ANTES DE SEUS PAIS NASCEREM?

Quando a gente nasce? No espelho, no momento em que pela primeira vez acende a luz da consciência? Ou junto com o estouro que - dizem - produziu o Universo? Neste artigo tem a música mais tocada no mundo no mês em que eu nasci, abril de 1973. E um link para você descobrir a sua.


friday-night-dance-1973.jpg

Antes do homem há o mundo, e o mistério do mundo. Estamos dentro: no âmago do ser, no âmago do mistério - no âmago de tudo. Não, por certo, no centro do universo, pois nada indica que haja um centro (se ele é infinito, a ideia de um centro seria contraditória), mas nele, envolvidos por todos os lados pelo que ele é ou contém (...) porém incapazes de sair dele vivos, ou simplesmente de sair dele... Um cadáver é coisa do mundo. Uma ideia - uma vez que alguém a pense ou dela se lembre - também. (...) Pascal dizia de forma magnífica: "Quando considero a pequena duração de minha vida absorvida na eternidade precedente e seguinte, o pequeno espaço que ocupo ou mesmo que vejo, abismado na infinita imensidão dos espaços que ignoro e que me ignoram, assusto-me e me espanto de me ver aqui e não lá; pois não há razão por que aqui e não lá, por que agora e não então."

-André Comte-Sponville

_________________________________________________________________________________

Não sei como tudo isso começou.

Foi quando eu nasci? Quando meus pais se conheceram? Meus avós? Talvez na primeira vez em que me dei conta de mim. Acho que estava brincando com meus primos no quintal da frente da casa dos meus avós, no interior. Quantos anos eu tinha? Talvez 5 ou 6.

Lembro-me de que anoiteceu e não queria ir dormir de jeito nenhum. Aquilo me parecia um despropósito, parar o que estava fazendo, se fechar no quarto, apagar todas as luzes e dormir. Fui para a cama torcendo para que passasse logo, procurando me convencer de que, ao fechar os olhos, num instante ia acordar e continuar brincando com meus primos.

Aliás, é exatamente como meus filhos se comportam, hoje: não querem dormir.

Tem gente que se lembra de tudo, da infância inteira. Confesso: morro de inveja. Minha memória é toda picotada; consigo resgatar episódios isolados, com nitidez maior ou menor dependendo da situação, mas não sinto que minhas lembranças cheguem a compor uma narrativa contínua.

soninho.jpg

Acabei de completar 42 anos. Estamos vivendo uma relação intensa, a crise da meia-idade e eu. Tem uma fase da vida em que a ideia de que vai chegar a hora de parar de brincar e repousar se torna palpável. Isso faz você pensar.

No meu caso, dá vontade de recapitular.

Outro dia, fiquei curioso com relação ao ano em que nasci. 1973. O que estava acontecendo no mundo quando eu nasci? Qual foi o mundo que me recebeu?

Aí descobri a música mais ouvida ao redor do mundo em abril de 1973. Esta aqui:

(aperte PLAY)

É a história de um preso prestes a ganhar a liberdade. Ele escreve uma carta a sua antiga companheira para saber se será bem-vindo de volta. Em caso positivo, ela deverá amarrar uma fita amarela em torno de uma árvore que fica no caminho do ônibus que o trará de volta.

Caso ele não veja a fita amarela, entenderá que não é mais bem-vindo e portanto deverá permanecer no ônibus, esquecer a história deles e seguir adiante.

Com receio de não conseguir ver a fita no trajeto do ônibus, ele pede ao motorista para ficar atento. Em seguida, todos os passageiros do ônibus gritam de euforia: o velho carvalho estava coberto com 100 fitas amarelas!

___________________________________________________________________________

É uma história adorável. E a sonoridade parece traduzir bem o espírito da época, aquele início dos anos 70. Achei fascinante (e um pouco assustador) o quanto tudo isso fez sentido para mim, quer dizer, o fato de que uma música cujo tema é ser ou não bem-vindo foi a mais tocada no mundo justo no mês em que eu nasci.

É provável que meus pais tenham ouvido essa música comigo no colo, no carro, ou no quarto ao lado.

A verdade é que nós, humanos, somos seres complicados e, em vez de clichés românticos, tendemos a amargar desilusões. Por mais triste que possa parecer, poucos de nós, quando nascemos, somos de fato recebidos com fitas amarelas por nosso grande amor.

Depois, experimentamos o desabrochar da vida interior em meio a adultos cheios de questões, em um mundo de hiperestimulações. Aí a maior parte de nós passa o resto da vida tentando se recuperar da infância.

O modo como nossos pais se relacionam, como é vivida nossa gestação e, afinal, como somos recebidos pelo mundo humano constituem o terreno onde ganha contornos o Propósito que confere sentido e vitalidade a nossa existência. A ferida que precisamos curar.

Quando vivemos com sentido, sofremos uma jornada de transformação que nos conduz de volta à Origem e ao encontro da própria Verdade - o Elixir que cura a Terra Devastada.

propósito.jpg

___________________________________________________________________________________________

Se você ficou curioso/a para descobrir qual a música mais tocada no mês/ano em que você nasceu, pode consultar aqui na Wikipedia ___________________________________________________________________________________________

Visite meu site: ajornada.me ____________________________________________________________________________


André Camargo

Dois filhos, um livro e nenhuma árvore.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //André Camargo