André Camargo

Dois filhos, um livro e nenhuma árvore

O QUE FAZ VOCÊ SE SENTIR [email protected]?

Se você vive desconectado/a de si mesmo/a, torna-se refém do olhar do outro. Está sempre querendo agradar, mas sacrifica sua verdade. Leia o que o psicanalista inglês Donald Winnicott fala a respeito do Falso Self e da vida criativa.


olhos.jpg

. . . .

É muito difícil fazer sua cabeça e seu coração trabalharem juntos. No meu caso, eles não são nem amigos.

Woody Allen

. . . .

A gente vai para a escola e aprende que não deve cometer erros. Não podemos fracassar. O problema é que não é assim que a vida funciona. Além de ser impossível erradicar erros e fracassos, a aprendizagem que importa vem da coragem de experimentar e aprender com o que não dá certo.

Dentre os grandes psicanalistas da história, sinto mais afinidade com um cara chamado Donald Winnicott. Para ele, o fundamento da saúde emocional, seja das crianças, seja dos adultos, é viver criativamente. E a criatividade só existe onde o erro pode ser acolhido.

Para Winnicott, sentir-se vivo, vibrante e real, a vida que vale a pena ser vivida, depende da possibilidade de criarmos o mundo que habitamos. Ele chama a isso ‘criatividade primária’, para diferenciá-la da criatividade dos artistas.

donald-winnicott.jpg

O impulso de criar o mundo em que vivemos não se restringe aos artistas criativos; é um movimento vital. Presente em todo bebê humano, a criatividade primária se desdobra organicamente da parte mais verdadeira de nós. Caso o bebê seja recebido no mundo por ambientes (e relações humanas) hostis ou indiferentes, em contrapartida, seus mecanismos de defesa se organizam em uma espécie de armadura – o Falso Self – cujo resultado é a perda de contato com a própria Verdade.

O Falso Self é como um repertório de máscaras que usamos para agradar aos outros. Por desconectarmo-nos de nossa ‘verdadeira face’, a parte viva que pulsa em cada um de nós, experimentamos sentimentos de vazio, artificialidade, apatia e falta de sentido. A pessoa não chega a viver, propriamente, no sentido de colocar em devir seu potencial humano; apenas sobrevive bem adaptada ao mundo social, mas em estado interno de perplexidade.

A aridez emocional vai se tornando cada vez mais comum. Em uma cultura do individualismo, do consumismo e da competição, as instituições sociais, como a escola, a igreja e o trabalho, reforçam a perda de contato com o impulso criativo pela doutrina da submissão. Somos treinados desde cedo a calar nossa Voz diante de autoridades externas.

de boa.jpg

O resultado é uma longa fila de seres humanos competentes, eficientes e capazes de alcançar seus objetivos ‘mundanos’, que todavia carecem de vitalidade e sentido. Perderam-se de si.

Viver criativamente é viver sem disfarces, em contato íntimo com os próprios sentimentos e necessidades, quaisquer que sejam eles. Depende de habitarmos um mundo que, por meio de nossos gestos criativos, reflete de volta a nós o que verdadeiramente somos: a um tempo autores e protagonistas da própria criação.

____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________

Se gostou do texto, dá um joínha ali embaixo pra eu saber. ;)


André Camargo

Dois filhos, um livro e nenhuma árvore.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //André Camargo