André Camargo

Dois filhos, um livro e nenhuma árvore

COMO NÃO VIRAR UM ZUMBI

Em The Walking Dead, os seres humanos começam a se transformar em mortos-vivos. Parece o mundo de hoje. Você vai ver no texto como usar Zygmunt Bauman para entender essa metáfora, e que referências me ajudam a manter o rumo na Terra Devastada dos dias de hoje. Como (sobre)viver em meio a experiências e relacionamentos em que predomina o elemento Água?


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A maior parte das pessoas leva vidas de calmo desespero.

— Henry David Thoureau

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Rick toma um tiro e acaba internado entre a vida e a morte. Ele é assistente de xerife em uma cidade pequena do interior dos Estados Unidos. Quando acorda espontaneamente do coma, alguns meses depois, encontra um mundo de mortos-vivos, reduzido a ruínas. Transtornado, não faz ideia do que aconteceu, mas segue em frente, à cavalo, numa busca desesperada pela mulher e o filho.

E isso é só o começo. A coisa toda piora muito.

Pelo título e pelas primeiras linhas, você poderia achar que este é algum guia de sobrevivência para o universo de The Walking Dead. Não é.

Ou talvez seja. Depende de como você encara os filmes: em sentido literal ou como metáforas.

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Nossa cultura depende de escritores, diretores, atores e outros artistas para sonhar. Podemos ver séries americanas — e outras formas populares de narrativa — como sonhos que emanam do inconsciente coletivo. Os filmes veiculam, em nível simbólico, as angústias, ansiedades e esperanças próprias aos nossos tempos. São uma trilha simbólica segura para compreender, em profundidade, a época em que acontecem.

A imagem arquetípica acionada em The Walking Dead é a Terra Devastada. Toda a série é um mergulho nesse arquétipo. Mais que um sonho, trata-se, portanto, de um pesadelo coletivo.

A Jornada do Herói de Rick e do grupo sempre cambiante de sobreviventes é a busca desesperada por uma cura (ou mesmo algum sentido) que restabeleça o equilíbrio, tanto para o mundo, quanto para suas almas destroçadas pela calamidade.

No decorrer da história, a gente percebe que sobreviver para além dos limites da civilização, na barbárie distópica, torna os vivos cada vez mais parecidos com os mortos. Priva-os daquilo mesmo que lhes proporciona uma vida humana.

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Como metáfora, interpreto que a série americana sugere sermos nós próprios os cadáveres que perambulam. É o que resta quando, progressivamente, perdemos as qualidades que nos fazem humanos e sobrevivemos em estado de dispersão e em condição de desamparo. Optamos pela anestesia, pela morte em vida, porque viver torna-se traumático.

Tem um autor que, na minha opinião, traduz com precisão a experiência de Terra Devastada dos dias de hoje: o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

De acordo com o Velho Sábio, vivemos Tempos Líquidos. Como a corrente de água descendo um rio, tudo muda o tempo todo — não há refúgio, não há parada.

  • nosso tempo se esvai em meio a objetos e relações virtuais, incapazes de nos fazer sentir vivos, inteiros e reais
  • a proximidade humana nos assusta, então evitamos a intimidade
  • temos dificuldade de nos engajar — seja com pessoas e causas, seja com projetos que preencham nossas vidas de sentido e significado
  • Rejeitamos compromissos porque não queremos renunciar a nenhuma possibilidade de gozo que porventura se apresente

Nas palavras dele:

"No mundo líquido moderno, de fato, a solidez das coisas, tanto quanto a solidez das relações humanas, vem sendo interpretada como uma ameaça: qualquer juramento de fidelidade, compromissos a longo prazo, prenunciam um futuro sobrecarregado de vínculos que limitam a liberdade de movimento e reduzem a capacidade de agarrar no vôo as novas e ainda desconhecidas oportunidades. A perspectiva de assumir uma coisa pelo resto da vida é absolutamente repugnante e assustadora. E dado que inclusive as coisas mais desejadas envelhecem rapidamente, não é de espantar se elas logo perdem o brilho e se transformam, em pouco tempo, de distintivo de honra em marca de vergonha."

Nossa humanidade sofre em silêncio sob o brilho metálico ofuscante de um mundo tecnológico altamente desenvolvido. Trocamos o que nos faz sentir verdadeiramente humanos por uma modalidade de gozo que condiciona a vida interior a um funcionamento maquínico, em ambientes predominantemente virtuais.

Paradoxalmente, habitamos uma Sociedade em Rede, altamente conectada, ao passo que vivemos solitários e desconectados de nós mesmos — da nossa corporeidade, do que toca nossa alma, de nossas paixões autênticas e questões existenciais profundas. Eis a tragédia dos dias de hoje: passamos pela vida hipnotizados pela tecnologia e pelo consumo, sem mal arranhar a superfície da existência.

Daí a experiência de desenraizamento, de vivermos desalojados de nós mesmos. Em um mundo líquido, podemos sentir que nossa presença humana escorre e se esvai pelo tempo sem deixar marcas. “Como lágrimas na chuva”, segundo uma antiga profecia.

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Em linguagem alternativa, a qualidade da experiência subjetiva no mundo atual é dominada pelo elemento Água, que representa a liquidez.

Quando comecei a enxergar as coisas dessa maneira, me dei conta de que, a fim de buscar o equilíbrio e preservar o humano em mim, preciso de Terra. Como uma planta levada pela correnteza, estou convencido de que, se desejamos salvar a humanidade, precisamos abrir espaço na vida para experiências de enraizamento.

Ao despertar do coma em um mundo de zumbis vorazes, em The Walking Dead, Rick parte rumo a Atlanta, à cavalo, em busca da mulher e do filho. Trata-se de uma referência aos filmes de faroeste, mas também, em outro nível, de uma metáfora.

Quando o atual estágio da civilização entra em colapso, tendemos a buscar refúgio em uma etapa anterior. Além de um meio de transporte típico de outros tempos, do ponto de vista simbólico, o cavalo representa um retorno ao corpo e aos instintos, isto é, à dimensão animal em nós. O homem a cavalo sugere, portanto, uma reintegração.

Penso que estes são caminhos de enraizamento: se neste mundo líquido de hiperestimulações, o intelecto super desenvolveu-se de maneira independente, sem lastro — uma vez que o corpo permanece a maior parte do tempo anestesiado sobre cadeiras e diante de telinhas, podemos buscar experiências que nos ajudem a ancorar a mente no corpo, o intelecto nos instintos. Reintegrar nosso passado ancestral e reanimar o corpo dormente são condições necessárias para nos sentirmos vivos e inteiros.

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Quando capturado pelo mundo da tecnologia e do consumo, com frequência me sinto um morto-vivo.

Você também se sente assim, às vezes?

Em contrapartida, venho perdendo interesse por leituras árduas que me impressionavam poucos anos atrás, aventuras intelectuais sofisticadas como livros de Foucault, Lacan ou Adorno, e ganhando interesse em experiências e conteúdos mais simples, que falam ao coração.

Tenho dado valor a um cara chamado Joseph Campbell, que abre as portas para o universo esquecido dos mitos, símbolos e arquétipos. De sua obra, aprecio sobretudo A Jornada do Herói, um código simbólico que ajuda a compreender o processo de transformação humana na perspectiva de um conhecimento atemporal.

Também me encantam tradições de sabedoria ancestrais, como o Budismo, a Paideia (o caminho de formação dos gregos antigos) e visões de mundo nativas dos povos da Terra, pré-cristãos. Povos que foram - e ainda estão sendo - quase completamente dizimados pelo que chamamos de civilização.

É assim que tento permanecer humano em meio à subjetividade líquida: procuro ampliar o contato com experiências em que predomina o elemento Terra, capazes de proporcionar densidade e contornos humanos à vida interior em tempos de muito brilho e agitação, e, ao mesmo tempo, de muito vazio e falta de sentido.

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André Camargo

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