Dayane Okipney

Leonina com ascendente em peixes, formada em Artes visuais e especialista em Arteterapia Junguiana! Tem uma tatuagem com a frase de Godard e um mundo de opiniões sobre tudo!

Um mergulho em A menina Submersa

Você seria quem é hoje se não houvesse fantasmas que atravessaram seu caminho? O que você faz do que fizeram de você?
Esses questionamentos e muitos outros passam pela mente de quem lê A menina Submersa, de Caitlín R. Kiernan. Além de inúmeras referências literárias, musicais e fatos acontecidos ao redor do mundo, A menina submersa também traz várias reflexões sobre quem somos e o que poderíamos ser se alguns acontecimentos específicos não tivessem nos transformado pelo resto de nossas vidas.


Dificilmente dou chances para um autor contemporâneo me capturar. Tenho ainda aquela pretensiosa idéia de que existe “boa e má literatura” e que a da atualidade não tem muito a primeira opção. Contudo, fui capturada pelo canto da sereia de Amenina Submersa e isso quase não é uma metáfora.

O livro conta a história de India Morgan Phelps, ou Imp, como prefere ser chamada.

Imp é uma jovem artista plástica de 24 anos que mora sozinha e trabalha em uma loja para artigos artísticos. Ela tem uma namorada, Abalyn, que se tornou isso meio que por acaso. Sua mãe suicidou-se em um sanatório devido à sua loucura, loucura esta, que Imp herdou. Ela sofre de esquizofrenia desorganizada, mais tarde diagnosticada como esquizofrenia paranoide.

O que mais me capturou na história foi algo sutil, mas nunca antes pensado por mim. No início do livro, Imp diz que vai começar a escrever uma história sobre fantasmas. Logo espero algum conto fantástico de terror, mas o que ela diz sobre fantasmas fez com que eu repensasse uma série de coisas ao longo da história mundial e ao longo, é claro, da minha própria história.

Fantasmas para Imp não são almas penadas de pessoas que já morreram. Para ela, podem ser pequenas coisas que passam por você e te marcam tanto que nunca mais te abandonam, podendo te perseguir dia e noite, pelo resto de sua vida.

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Foi o que aconteceu com ela ainda criança ao ver em um museu uma pintura chamada A menina submersa. A pintura mostra uma garota nua dentro de um rio, no meio da noite, com água até os joelhos. A tela teve um poder tão grande sobre a mente de Imp que foi a partir daí que começaram suas alucinações. Até que em uma noite tudo se torna real e ela encontra nua, na beira da estrada, Eva Canning, uma mulher que transforma-se numa obsessão em sua vida .

No caso de Imp, esse acontecimento e mais alguns fizeram com que sua doença se manifestasse de maneira enlouquecedora. Será que se ela nunca tivesse visto esse quadro, sofreria dessas alucinações? Se sim, será que seriam as mesmas?

Imp fala também que fantasmas podem se espalhar e tomar a vida de outras pessoas. Um exemplo usado no livro é O rio dos suicidas. Um escritor escreve um livro sobre um rio no Japão, onde pessoas costumavam se suicidar. Após ter escrito esse livro, muitas pessoas que o leram foram até o rio citado para cometer suicídio. Inúmeros fatos sobre esses “fantasmas que se espalham” são relatados ao longo da história. Charles Manson diz ter se inspirado na música “Helter Skelter” dos Beatles para cometer seus assassinatos. Outro exemplo foi o filme Matrix ter sido fonte de inspiração para os adolescentes que cometeram o Massacre de Columbine, em Columbine High School.

De maneira alguma digo que filmes, músicas, jogos ou qualquer manifestação sejam as responsáveis pela influência que possam causar na mente de algumas pessoas. Um ou outro alguém que por conta de alguma patologia se deixe levar à ponto de perde-se em si mesmo por influências externas não deve ser tido como regra, mas como exceção. Também não digo que estes fantasmas irão determinar nosso destino: eles podem até nos perseguir, mas a escolha com o que faremos com eles é nossa. Como disse Sartre “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.”, frase/fantasma que recebi da minha psicóloga anos atrás e que sempre vem me “assombrar” quando preciso. O que me questiono é se seríamos quem somos não fosse aquele dia, aquele momento, aquela música ou aquele filme. Pensaríamos no amor como pensamos, se na hora do nosso primeiro beijo não tivesse tocado aquela música? Tomaríamos a decisão que tomamos se não tivéssemos ouvido aquele conselho aleatório de uma senhora para uma amiga na fila do banco? Nossa vida seria diferente, se não tivéssemos lido aquele livro, ou namorado aquela pessoa? Pensando sobre isso, tomo para mim a responsabilidade do que falo e como cada palavra extraída de minha boca pode se tornar um fantasma na vida de alguém.

A escritora Caitlín R. Kiernan traz inúmeras referências ao longo da história que fazem você ficar cada vez mais submerso na mente de Imp. Nelas, estão presentes bandas como Radiohead e This Motal Coil, simbologia sobre o arquétipo das sereias, histórias reais sobre fatos ocorridos nos Estados Unidos, literatura, como Moby Dick e mais vários relatos das personagens que acompanham Imp em sua trajetória e que acabam, direta ou indiretamente, criando mais fantasmas em sua jornada.

Uma dica antes de ler A menina submersa é fazer uma pesquisa sobre Esquizofrenia e entender o porquê da mente de Imp funcionar como funciona, além de ajudar a desmistificar preconceitos com relação a doença.

O livro me trouxe inúmeras reflexões, tanto do campo da saúde mental quanto sobre como encaramos e lidamos com esses acontecimentos da vida que nos atravessam de maneira tão enfática. Recomendo a leitura à pessoas que querem se conhecer melhor e que não tem medo de andar lado a lado com todos os seus fantasmas!


Dayane Okipney

Leonina com ascendente em peixes, formada em Artes visuais e especialista em Arteterapia Junguiana! Tem uma tatuagem com a frase de Godard e um mundo de opiniões sobre tudo!.
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