Ângela broilo

Com palavras

Ângela Broilo

Ângela Broilo é escritora e cúmplice em todo movimento que faz valer a pena.

Dilma Roussef nocauteou a lei de Gerson.

As revoluções do século XXI atuam a nível de pensamento. Precisamos desejar a mudança para não opor resistência a ela. E, nesse ponto, Dilma Rousseff é vitoriosa. Dilma nasceu para a revolução. Pode ter saído com um olho roxo da última batalha, mas bateu a estratégia dos oponentes antes do segundo round.


2289036594_189fbb00b4_z.jpg A oposição planejou um impeachment legitimado pelo povo, como ocorreu em 1992 com o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Na época, os eleitores de Collor apoiaram de forma expressiva o movimento apartidário dos caras-pintadas liderado pela UNE e UBES. Neste ano, verifica-se o oposto. Os 54 milhões de eleitores sentiram-se golpeados junto com a presidenta. Uniram-se a eles artistas e intelectuais de todo o país e do exterior, anônimos militantes e não militantes e várias organizações sem vínculo com a política partidária. Nos anos 90, o desejo por honestidade não era tão claro quanto o repúdio à pessoa do ex-presidente. Enquanto em 1992, os movimentos sociais contra Collor pareciam legítimos pela aprovação unânime, em 2016 a população entrou em conflito no Brasil. Surpreendeu a todos a ausência de base jurídica para o impeachment. Além de inexistir ilicitude, o período de votação pela admissibilidade do processo revelou o crime de Dilma Rousseff: ser virtuosa em um meio corrompido pelo crime organizado.

Foi nesse momento que os desejos de Dilma tornaram-se desejáveis para os brasileiros: viver em um mundo onde honra e honestidade são norma, não exceção. Desconstruir a estratégia golpista foi apenas a defesa. Na reação, Dilma emponderou a autoestima e a identidade do corpo social. Antes vistos como bandeira dos ingênuos, valores como honra e honestidade passam a ser percebidos como qualidade dos fortes.

De fato, Dilma Rousseff foi golpeada por negar-se a negociar com os criminosos habituais. Esse tipo de negociação sempre foi norma exigida pelo código que rege a vida política nacional. O político brasileiro nasce sabendo que, além de negociar, terá de fechar os olhos para práticas ilegais. Chegamos a tal ponto, que essa regra costumeira se estabeleceu no corpo social, dobrando os artigos de direito e a percepção ética. Como consequência, concorrem e são eleitos o esperto, o canalha, o sujeito do jeitinho, os que têm jogo de cintura ou, no mínimo, estômago, para sobreviver nesse cenário. Poucas são as exceções.

O resultado é que, apesar da riqueza material do nosso território, o país é frágil e vulnerável. No poder, tornam-se banais os crimes contra a honra, o patrimônio e a administração pública. São representantes legais do povo políticos vulneráveis pela própria torpeza, propensos a chantagens e à corrupção passiva e ativa. Os que não se vendem parecem ser os únicos a não legar cargos políticos como bem hereditário.

Nesse palco, Dilma Rousseff fez algo que exigiria do país séculos de investimentos e trabalho árduo. Ela deu início a uma mudança revolucionária. Disse não e ampliou o conceito do brasileiro sobre a própria identidade. Perderam o ar de anti-heróis os nossos bandidos. Perderam a graça e o charme. De anti-heróis, passaram a antagonistas obsoletos, encarquilhados, enfraquecidos por seus vícios. Percebemos o jogo infantil de colocar as próprias faltas na conta do inimigo. Assistimos, perplexos, a ações desesperadas dos herdeiros da grande mídia. E foi nesse momento que Dilma brilhou. Ela usou a força da honra contra a brutalidade dos oponentes. Ninguém, nem mesmo a oposição ao partido dos trabalhadores, isentou-se de justificar os atos de seus deputados. Seriam risíveis, não fôssemos nós os enganados por eles.

Por sua vez, os ministros do STF foram a nocaute antes do crime organizado. Encoleirados por Gilmar Mendes, serviram-se de um capitão do mato curitibano. Com isso, através da aparente omissão, feriram o poder judiciário em seu valor máximo: a credibilidade indispensável ao exercício da magistratura. Juristas de todo o Brasil ergueram a voz acima da ordem dos advogados que autorizou a petição pelo impedimento de Dilma Rousseff.

A primeira presidenta do Brasil deve ser a mulher mais forte do mundo. Para enfrentá-la, a inteligência norte-americana teve de substituir a jornada do herói Moro por Bolsonaro, que trouxe memórias do período mais bárbaro da ditadura brasileira. O propósito de intimidar os pensadores da esquerda não teve êxito. Pelo contrário, abasteceu e motivou intelectuais e artistas sem ideologia partidária. Estes assumiram o vínculo com o povo, passaram do namoro inconsequente ao matrimônio.

Afastada pelo golpe de estado, Dilma continua invencível quanto à legitimidade de sua presidência. O conceito de impechment foi impedido e, virou golpe ao estado e a constituição que o assegura. Ela sai ferida da batalha, mas não em vão. Deixa um legado que precisamos cultivar na memória orgânica da sociedade. A mulher mais forte do mundo desconcertou e desconstruiu os estrategistas mais sofisticados do planeta. Imprescindível a defesa de José Eduardo Cardozo. O advogado que todo jovem sonha tornar-se apresentou uma defesa firme e tranquila: será sempre um golpe. Não se institucionalizou o impeachment e o texto de Cardozo já foi apensado aos autos da história do Brasil.

Estamos hoje conectados e melhor informados que nos anos 90. Também mais estudados. Por isso, foi a nocaute a admiração à primitiva lei de Gerson. Não somos devedores e sim credores de dívida externa e do FMI. Nossa reservas ultrapassam com folga o que devemos. A economia norte-americana está em crise. Só dívida interna das suas seguradoras de saúde está calculada em trilhões. Por isso, os Estados Unidos entram em guerra contra o mundo emergente. Dominar à força e saquear países desarmados é a política daqueles que criticam Hitler mas fizeram pior. Foram os únicos a lançarem duas bombas nucleares no planeta. O tipo de ataque que sofremos agora não seria possível se os mercenários do crime organizado não se aliassem à pequena elite abastada do país. Nas estratégias de domínio econômico do século XXI, o papel da classe média não se alterou. Ainda funciona como inocente útil e agente da violência, prejudicando, sem clareza, a si própria e o futuro dos seus descendentes. Desde 1985, o país trabalha por sua carta de alforria. Os BRICS, liderados por Dilma Rousseff, adiantariam essa jornada. Mas o momento do golpe paralisou o futuro. Estamos sendo conduzidos à força numa viagem ao passado. O futuro talvez não volte para nossa geração, nem para os sírios ou venezuelanos.

O grande capital prepara-se para abater valores básicos conquistados pelo trabalho duro das gerações que nos antecederam. Precisamos resistir por nós mesmos, por nossos filhos e netos. Correm risco de repressão os bons professores, os índios, as minorias, os intelectuais, os artistas, as identidades regionais, os livros de história do Brasil. São muitos os motivos da resistência. Também ameaçam de morte as escolas públicas, as estatais como a Petrobrás, os direitos básicos dos trabalhadores, a floresta amazônica, a indústria nacional, os médios e pequenos empresários, o português brasileiro. A pessoa física será a maior prejudicada, porque a utopia neoliberal exige dos humanos alto potencial para a insatisfação e a tristeza. Sobrevive de estímulos e golpes culturais. Sabemos que, quanto mais insatisfeitos e amedrontados, maior a necessidade pelo consumo. Quanto mais alegres, menor a busca por bens materiais e pelas chamadas experiências. Alegria e tristeza são contagiosas. A lembrar que também são afetos alterados por desejos e comportamentos. O mundo de Dilma Rousseff, o das esquerdas contemporâneas, cultiva valores como a solidariedade e a honestidade a priori. Imprescindível a este corpo social alimentar-se de afetos alegres e de amizade. Um cenário que se opõe frontalmente aos conflitos polarizados, à desigualdade social e econômica e à lei da força bruta.

Quem apoia a solidariedade, deve evitar a tristeza agora. Dilma Rousseff venceu antes. E resistirá por seu legado. Cabe a quem a apoia cultivá-lo e aplicar-se de forma inteligente na resistência ao golpe de estado.

Foto: Michael Roller


Ângela Broilo

Ângela Broilo é escritora e cúmplice em todo movimento que faz valer a pena. .
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