antônia no divã

Confissões e devaneios em forma de blog.

Antônia no Divã

Questionadora fervorosa das regras da vida. Viajante viciada em processo de recuperação. Entusiasta da escrita. Uma garota no divã figurado e literal. Autora do blog antonianodiva.com.br

O espelho quebrado

Sabe aquela coisa de “não gosto da fulana, não sei porque, o nosso santo não se bate”. Às vezes “o nosso santo não se bate”, é simplesmente porque o santo é parecido. Ou porque gostaríamos que fosse.


Eu tenho 10 anos de terapia das costas. E graças a esta escolha, eu tenho cancha para desviar de algumas armadilhas do convívio social. Sempre que me pego com raiva de alguém, eu tento assentar a minha raiva antes de qualquer atitude. Eu tento entendê-la. E sempre que alguém me ofende, eu tento dar contexto a ofensa. Me pego pensando diversas vezes, qual momento a pessoa esta passando. Se a crítica é justa, ou porque aquele alguém precisou depositar em mim suas próprias frustrações. Isso me ajuda a não descartar as pessoas que discordam de mim. Ajuda-me a dialogar. Ou mesmo a escolher as minhas batalhas.

Como por exemplo, dia destes, chegou ao conhecimento que eu colecionava alguns pré-conceitos por parte de alguém que eu gosto. O que mais me chamou atenção na crítica, entretanto, não era do quanto eu discordava. Não. Mas era como a pessoa que me criticava, perpetuava justamente o comportamento pelo qual me condenava. Ao longo da minha terapia eu aprendi, que esse tipo de comportamento é bem comum. É um mecanismo de defesa que cultivamos sempre que não damos conta de assumir aquilo que não gostamos na gente mesmo. Ou que desejamos do outro.

Sabe aquela coisa de “não gosto da fulana, não sei porque, o nosso santo não se bate”. Às vezes “o nosso santo não se bate”, é simplesmente porque o santo é parecido. Ou porque gostaríamos que fosse. A gente tem tendência a negar o que não gosta, ou aquilo que critica, mas profundamente, que deseja. Na psicologia é o que chamam de “projeção”. Eu projeto em outros, aqueles pensamentos inaceitáveis ou indesejados que eu tenho ao meu respeito.

Então quando eu olho pra Ciclana e tenho ranço sem motivo aparente, eu tendo a buscar características similares que não gosto em mim, ou coisas que a Ciclana tem que eu gostaria. E quando alguém faz o mesmo comigo, me critica de forma que, na minha concepção, não se aplica, eu percebo que a análise tem mais a ver com a pessoa, do que comigo. E assim, fica mais fácil de escolher se entro ou não na discussão. Porque eu posso mudar um milhão de coisas ao meu respeito, mas não posso colar os cacos do espelho quebrado de ninguém.

No caso do exemplo que comentei logo no início, quando eu ouvi que “eu não me banco”, mas sei que tenho os boletos todos em dia com o suor do meu esforço, eu entendo que o “se bancar” é o desejo primordial de quem me criticou. Se eu ouço que eu sou bon-vivant, que vivo batendo as asas por aí, e nisso eu tenho tranquilidade com as minhas responsabilidades, eu aprendo que quem critica, gostaria de bater as próprias asas. Isso me dá empatia, mais que asco.

E assim eu entendo que não existe problema a ser resolvido da minha parte. Nem crítica a ser tomada. Eu já olhei pro meu espelho, e vi o reflexo do que reconheço. Do que desejo. Do que eu luto. Pronto. Não preciso ir ajustar a percepção alheia de ninguém. Essa pessoa já decidiu que é mais fácil me criticar, do que mudar a própria história. E o autoconhecimento é bom por isso. Ele ajuda você definir o que pode ser aceito como uma crítica construtiva, e o que é caco do espelho quebrado do outros. Fácil é apontar o dedo. Difícil é colar o espelho.

Uma vida de azar para quem nunca o fizer.

Fim da sessão. Antônia no Divã

"O que Pedro pensa de Paulo diz mais sobre Pedro do que Paulo."

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Antônia no Divã

Questionadora fervorosa das regras da vida. Viajante viciada em processo de recuperação. Entusiasta da escrita. Uma garota no divã figurado e literal. Autora do blog antonianodiva.com.br.
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