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Amor, livros, arte... Algumas coisas são melhores em grandes doses!

Carolina Borba

Leitora desde que eu me conheço por gente, meu universo são os livros, as histórias que vivo sem sair do quarto, os personagens com personalidade tão diferentes que eu experimento, as vidas que eu, a cada página, pego emprestado!
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Geni e a sociedade boa de cuspir!

Quantas Genis são alvos da sociedade que não respeita suas escolhas fora do que é considerado padrão? Chico Buarque revela como isso funciona.


geni.png Quando Chico Buarque criou a música "Geni e o Zepelim" para o musical "Ópera do Malandro" na década de 70, o fez denunciando uma sociedade hipócrita com uma personalidade pseudo-moralista. A Geni do musical representava um travesti e na letra da música mostra, o tempo todo, uma pessoa criticada por uma sociedade guiada por seus conceitos morais.

Ainda que Geni representasse uma mulher, poderia, facilmente, ser reconhecida na atualidade dentro das facetas fúteis e conceitos preconceituosos de uma categoria de gente que impõe barreiras ao outro por este não se enquadrar no que é considerado aceitável para os demais.

A primeira estrofe da música já mostra uma mulher vista pelos outros como "fácil", o tipo promíscua: "De tudo que é nego torto /Do mangue e do cais do porto / Ela já foi namorada". Ora, Geni não parece ser, em sua apresentação, a "mulher feita para casar". Pouco seletiva, Geni não é exigente em suas escolhas.

Continuando na mesma estrofe, Chico nos apresenta uma mulher que não escolhe pretendentes de acordo com o status de "bom partido": "O seu corpo é dos errantes / Dos cegos, dos retirantes / É de quem não tem mais nada". Notem que ela parece ter uma predileção por aqueles que são, assim como ela, excluídos da sociedade.

E na construção da personagem, Geni seria aquela pessoa que não se guardou para se entregar para o homem da sua vida, iniciando uma vida sexual cedo, se tornando aquela garota "mal falada" do bairro, da cidade. Analisando o comportamento atual, Geni seria a bandeira das feministas em prol da igualdade e liberdade sexual. Numa sociedade machista, a menina não passa de uma garota feita apenas para a diversão dos homens, chocando a sociedade por contrariar, com seu comportamento, a classificação imposta às mulheres de "feitas para o lar". Afinal, Geni "Dá-se assim desde menina / Na garagem, na cantina / Atrás do tanque, no mato / É a rainha dos detentos / Das loucas, dos lazarentos / Dos moleques do internato".

Em outras palavras, essa garota não passa da diversão dos homens que a procura para saciar seus desejos imaginando virar-lhe as costas no dia seguinte. É aquela à qual as mulheres torcem o nariz e atravessam as ruas, aconselhando suas filhas a não andarem junto para não ficarem mau faladas; aconselhando seus filhos a não se apaixonarem por ela, que não é mulher para se levar para casa.

Mas ainda, de maneira totalmente irônica, Geni é apresentada como uma alma pura que não faz distinção de classes sociais, se solidarizando com aqueles que não tem atenção dos demais... "E também vai amiúde / Com os velhinhos sem saúde / E as viúvas sem porvir / Ela é um poço de bondade..." Mas talvez Geni não seja essa pobre coitada que se perdeu na vida. Talvez Geni apenas faça o que tem vontade sem se importar com o que as pessoas pensam sobre ela! Não houve compaixão à sua triste trajetória, se é que houve uma, ou respeito à sua escolha, caso seja de fato uma. Geni representa todos aqueles que são apontados e criticados, sofrendo o julgamento alheio, sem nenhuma tentativa de compreensão, sem o direito ao respeito por suas escolhas. Talvez por aturar essa situação, Chico Buarque tenha dito que Geni "é um poço de bondade"... E, claro, como ocorre na sociedade, pessoas boas merecem reconhecimento:

"...Ela é um poço de bondade / E é por isso que a cidade / Vive sempre a repetir / Joga pedra na Geni!/ Joga pedra na Geni! / Ela é feita pra apanhar! /Ela é boa de cuspir! /Ela dá pra qualquer um! / Maldita Geni!"

A música retrata, neste refrão, a tolerância que uma civilização pode ter diante do errado (a violência contra a Geni, neste caso)em nome do bem maior, para combater os maus elementos da sociedade que emporcalham a vida honrada das pessoas de bem. Ali é permitido um ato que, em outras circunstâncias, seria repudiado porque ele é contra alguém que não segue os mesmo princípios dos que a estão acusando. Mas um dia a sorte da cidade mudou. Na música, um zepelim gigante, munido com canhões, pairou no céu apontando para a cidade.

Vem a outra parte hipócrita da música: a cidade ficou apavorada, o zepelim ameaçava transformar todos em geleia. O motivo era o horror e a iniquidade presente naquelas pessoas. Poderia até parecer um ato de repúdio de alguém que não tolerava tamanha falsidade social, mas então o comandante do zepelim mudou de ideia ao ver Geni! Justo aquela moça que não servia para viver com aquelas pessoas foi a que encantou os olhos do comandante que propôs poupar a cidade em troca de uma noite de amor com ela!

Opa! Mas o comandante que, aparentemente, repudiava aquele tipo de atitude se corrompe e se vende para saciar seus desejos carnais? Pressiona uma moça a aceita-lo em troca da salvação de todos? Parece que a honra havia encontrado o seu preço!

Para uma maior surpresa, a cidade que atacava Geni por sua promiscuidade passa a implorar que ela o aceite. A promiscuidade tão apontada pelos outros seria justamente o preço a se pagar para que todos se salvassem. Todos passariam a dever suas vidas à isso! Deveria ser inaceitável, mas o conceito de certo e errado, do que é intolerável e do que deve ser seguido, para muitos, muda de acordo com o interesse, com o que cada um ganha e perde.

E Geni, aí sim, se sentiu um objeto sexual, ao que parece na música. Pois o que antes era sua livre escolha de a quem se entregar, passou a ser uma obrigação. Geni não gostava de pessoas com status social, Geni se sentia atraída pelos tipos com quem sempre ficara: "Acontece que a donzela /(E isso era segredo dela) / Também tinha seus caprichos / E ao deitar com homem tão nobre/ Tão cheirando a brilho e a cobre / Preferia amar com os bichos".

Claro que as pessoas não entenderam, pois têm o hábito de julgar ser o melhor para todos aquilo que as satisfaz. Fácil é atacar alguém de quem não se precisa, mas e quando a situação se inverte? O que faz um hipócrita?

"Ao ouvir tal heresia / A cidade em romaria / Foi beijar a sua mão / O prefeito de joelhos / O bispo de olhos vermelhos / E o banqueiro com um milhão / Vai com ele, vai, Geni! / Vai com ele, vai, Geni! / Você pode nos salvar / Você vai nos redimir / Você dá pra qualquer um/ Bendita Geni!"

E o que antes era apontado como pecado passa a ser bendito! Bendita Geni!

"Foram tantos os pedidos / Tão sinceros, tão sentidos / Que ela dominou seu asco / Nessa noite lancinante / Entregou-se a tal amante / Como quem dá-se ao carrasco".

E fez o sacrifício! Claro que ninguém mais sabe o quanto isso lhe custou, o quanto se esforçou. Após o perigo se afastar, Geni deveria ser acolhida por todos, respeitada com gratidão. Mas as pessoas tendem a esquecer a quem elas devem. Quando não se precisa mais, os defeitos voltam a ganhar maior destaque!

"Mas logo raiou o dia / E a cidade em cantoria / Não deixou ela dormir / Joga pedra na Geni! / Joga bosta na Geni! / Ela é feita pra apanhar! / Ela é boa de cuspir! / Ela dá pra qualquer um! /Maldita Geni!"

E não sei se Chico sabia, as Genis continuariam na mesma sociedade com o passar dos anos! Essa letra retrata com acidez e sensibilidade as relações distorcidas de uma sociedade que não vive em harmonia porque não se aceita. E continuará fazendo sentido, infelizmente, por muito tempo ainda.


Carolina Borba

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