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Amor, livros, arte... Algumas coisas são melhores em grandes doses!

Carolina Borba

Leitora desde que eu me conheço por gente, meu universo são os livros, as histórias que vivo sem sair do quarto, os personagens com personalidade tão diferentes que eu experimento, as vidas que eu, a cada página, pego emprestado!
Também brinco no blog Culta Insensatez.

Autorretrato

Como posso me definir se a cada dia já não sou a mesma?


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Nasci de uma mulher guerreira e sensível, e um pai de forte temperamento, com talento musical, politizado e gosto para literatura. Eu não poderia ser diferente, e quanto mais tentei, mais parecida com eles eu fiquei. Mas isso ainda diz pouco sobre qualquer coisa sobre mim. Aprendi que tudo o que eu sabia e afirmava a meu respeito há tempos mudou. Quando somos mais novos tendemos a definir o nosso eu de acordo com o que achamos que somos, ou com o que éramos no momento. Eu queria ser médica quando era criança, mas tenho o estômago fraco para ver cortes e machucados.

Mas quando somos crianças ainda definimos quem somos com base pouco sustentável, o que não acontece quando estamos na adolescência, quando imaginamos que tudo o que seremos quando adultos vai das descobertas de quando jovens.

Quando me apaixonei pela primeira vez jurava que não haveria nenhum sentimento mais forte do que aquele. Achava que seria para sempre, e que morreria caso não fosse correspondida. Também achei que fosse morrer na primeira decepção, e que não haveria nenhuma dor mais forte do que aquela. E esse ciclo se repetiu algumas vezes: paixão, dor, decepção.

Também imaginei que alguns amigos estariam para sempre ao meu lado, vivenciando coisas todos juntos como quando era naquela época. Era o fim do mundo não ir ver a banda que mais gostava, e que era de gosto suspeitável para falar a verdade. Sonhava em ser bem sucedida dentro de poucos anos, e criar uma ótima reputação sobre quem eu seria e o que eu fazia.

Alguns amigos permaneceram, é verdade, mas não nos vemos com a frequência que eu imaginava, e também não morro por causa disso. Hoje não me proponho relacionamentos onde eu tenha que mudar algo em mim mesma para agradar a pessoa, é mais fácil simplesmente dizer adeus, e eu sei que pode até machucar um pouco, mas não será a última vez. Joguei a maioria dos meus CDs fora (graças a Deus) e já não me importo mais se o programa da noite será sair ou ficar em casa.

A verdade é que me tornei muito mais parecida com tudo o que eu não queria, com poucas exceções, e estou bem assim.

Não me iludo com ideias de sucesso sem o esforço de uma vida inteira de trabalho, e ligo bem menos para a reputação e o que os outros pensam a meu respeito.

Tive as minhas fases de descoberta, as minhas aventuras. Passei pela época de entornar a garrafa de vinho, e depois pela época de nem mesmo conseguir tomar um gole porque me lembrava as inúmeras ressacas, até finalmente estar no momento de me empenhar mais em apreciar o sabor, sem pressa nenhuma, e de acordo com a minha vontade.

Eu sei que tudo o que me torna o que eu sou hoje é devido à tudo o que já passei, mas não tenho mais a pretensão de dizer com certa arrogância sobre atos que eu jamais cometeria, fiz muito do que abominava e quebrei muitas promessas.

Agora acompanho as risadas que os outros dão sobre meus tropeços. Não me arrumo para agradar a ninguém mais do que a mim mesma. Não leio um livro só porque será lançado no cinema. Não ouço as músicas que estão na moda. E não planejo tanto todos os meus passos, nem dou garantias de que amanhã as coisas continuarão as mesmas.

Hoje não sei me definir, mesmo porque corro o risco de mudar meu ponto de vista amanhã novamente, e isso é maravilhoso! A melhor descoberta é aquela que fazemos sobre nós mesmos, de tempos em tempos, e perceber que sempre somos uma nova pessoa a medida em que envelhecemos.


Carolina Borba

Leitora desde que eu me conheço por gente, meu universo são os livros, as histórias que vivo sem sair do quarto, os personagens com personalidade tão diferentes que eu experimento, as vidas que eu, a cada página, pego emprestado! Também brinco no blog Culta Insensatez..
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