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Amor, livros, arte... Algumas coisas são melhores em grandes doses!

Carolina Borba

Leitora desde que eu me conheço por gente, meu universo são os livros, as histórias que vivo sem sair do quarto, os personagens com personalidade tão diferentes que eu experimento, as vidas que eu, a cada página, pego emprestado!
Também brinco no blog Culta Insensatez.

A Mecânica do Coração

Dizem que o tempo cura tudo... Mas o que cura o tempo?


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Atenção: Pode haver spoiller!

Há alguns dias me rendi à Netflix, e não que isso seja um acontecimento isolado, mas arrisquei assistir a um desenho acreditando ser feito para crianças. Muitos dirão que eu cheguei atrasada, pois o filme em questão já possui muitos fãs, mas longe de querer apresentar algo inédito esse post vai para outros atrasados como eu, ou para aqueles que não se cansam de ler sobre o mesmo filme a qual se tornaram fãs.

Jack e a Mecânica do Coração é um filme produzido em 2013 pelos diretores Mathias Malzieu e Stéphane Berla na França, baseado no livro de Malzieu “A Mecânica do Coração” (cujo final difere muito do filme).

E apesar de ser um desenho, o filme me pareceu necessitar de certo amadurecimento para compreender todas as suas referências, típico daquelas obras feitas para encantar adultos.

A história se passa no séc. XIX em Edinburgh. Jack nasce em um dia extremamente frio, tão frio que seu pequenino coração não resistiria e acaba sendo substituído por um relógio. Jack poderia viver com seu coração-relógio desde que nunca tocasse seus ponteiros, controlasse sua raiva e não se apaixonasse.

A comparação do coração com o relógio é perfeita: os batimentos cadenciados que podem “parar” por alguns segundos ou acelerar de acordo com a situação que é tão bem representada no filme. Esse coração-relógio depende que suas engrenagens funcionem perfeitamente para que Jack possa sobreviver. Fácil entender a metáfora do autor: a raiva faz com que nos alteremos fisicamente. Não se trata apenas do mal emocional, fica a lição de que para um coração saudável é preciso que levemos uma vida tranquila, de paz interior, nada que nos desperte a cólera, o medo, a dúvida e todos os outros sentimentos difíceis de controlar.

Ainda mais fácil é entender o perigo do amor e como ele pode descompassar as batidas do coração. O amor que faz o peito acelerar e parar quase simultaneamente ante a dúvida da correspondência... O ciúme, a mágoa, a saudade que podem destruir simbolicamente os corações apaixonados e seriam a ruína para aquela relógio-coração tão frágil, tão dependente de engrenagens para se manter... Um coração que pode precisar de reparos caso algo atrapalhe o seu funcionamento.

E o primeiro beijo? A força do primeiro beijo que causa um misto de sensações. Sim, há o perigo das paixões que provocam maravilhas e turbulências ao mesmo tempo! Essas paixões que podem nos mudar eternamente, que nos matam simbolicamente: seja a inocência infantil de quem desperta para o amor, seja o conhecimento da dor que até então era desconhecida.

Mas apesar de todas as referências poéticas nos diálogos e músicas do filme o que intriga é a dúvida que paira durante todo o longa: valeria a pena morrer por amor? A vida valeria aquele único beijo apaixonado ou melhor passar a vida sem conhecer essa sensação? E não obstante ainda vale perguntar: o que eu faria se soubesse que poderia matar a pessoa que amo pelo simples fato de permanecer com ela?

Sim! Creio que eu no lugar de Jack estaria morta! Qual a graça em um coração que funciona perfeitamente cheio de engrenagens enferrujadas quando posso conhecer tantos ritmos diferentes... Ainda que fosse só uma vez...!


Carolina Borba

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