arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor. E “tornar-me senhor de mim mesmo” é o meu grande objetivo em busca de uma vida que vale a pena ser vivida.

A UM ELEFANTE, COM AMOR

Este artigo encerra um micro-ensaio sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade, sua vida e sua obra extraordinária que influenciaram e continuam influenciando gerações após gerações de poetas e escritores brasileiros. Além disso, o artigo expõe o olhar apaixonado do autor por esse escritor sublime e imortal.


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O grande poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade é uma referência intelectual, artística e humanista da cultura nacional e da língua portuguesa. Seu código poético confessional complexo e labiríntico é fascinante e sereniza ao invés de retorcer. “Míope, cardíaco e melancólico”, eis como o poeta costumava se auto-retratar. Sua escrita encantadora nos transmite a virtude e a volúpia da expressão do pensamento pela palavra. Sua obra é composta pelos principais temas humanos: o indivíduo, a família, o amor, a solidão, a liberdade, o tempo, a política, a poesia e a morte. O coração-constituição desse poeta excepcional destinava-se a realidade rochosa, mas riquíssima.

Drummond nasceu em Itabira em 1902, formou-se em farmácia em 1925, contudo nunca exerceu a profissão, segundo ele “Para o bem dos inocentes”. Ainda em 1925 casou-se com Dolores Dutra de Morais com quem compartilhou uma companhia perpétua e teve uma filha superamada Maria Julieta. Para ganhar a vida e sustentar a família, a principio, trabalhou como professor de Geografia e logo depois como redator de jornais. Em 1930 mudou-se para o Rio de Janeiro onde assumiu um cargo no gabinete do então ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema. Nesse mesmo ano publicou seu primeiro livro: Alguma poesia, seguido por mais de 40 livros escritos e publicados entre prosa e poesia, influenciou e continua influenciando gerações após gerações de poetas e escritores brasileiros, além de ter sido consagrado com inúmeros prêmios e homenagens durante a vida, destacando-se o premio da União Brasileira de Escritores por Lição de coisas. Faleceu em 17 de agosto de1987 deixando milhões de órfãos das letras.

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Dono de uma “inteligência diabólica” conforme Mário de Andrade e de uma ironia divina, assim era Drummond, nosso célebre poeta aclamado por muitos críticos e leitores como o “poeta o mais forte” de nossa plêiade poética, embora numa entrevista concedida a revista Veja poucos anos antes de morrer, ao jornalista que lhe questionou “O senhor tem consciência da dimensão da sua obra?” Drummond disse, não se sabe se a sério ou ironicamente: “Minha obra corre o risco de parecer chata no futuro (...) Eu fui um homem qualquer.”. Todavia, Armando Freitas Filho julga seu legado “uma força da natureza” fundamental para todos aqueles que desejam conhecer o Brasil. Affonso Romano de Sant’ Anna o compreende como um guache no espaço-tempo fractal, tirânico e antropofágico, maior, menor e igual ao vasto mundo. Com sensibilidade feminina Adélia Prado define o fenômeno da poesia como um delicado milagre do qual o impossível “urso polar” é o bendito portador. Seu verso cantado a Machado de Assis poderia perfeitamente ter sido consagrado a si mesmo: “Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.”. Conclusão do Aleph: “o essencial é viver”. Poesia é vida no palimpsesto do tempo. Mas o mundo pode ser para o poeta em nosso tempo “um vácuo atormentado, um sistema de erros.”. E assim ele interpela “Valeu a pena?”

Brasileiro, pai de família pertencente à classe média, funcionário público, jornalista, escritor profissional, crítico literário, observa-dor universal de nossa precária condição... Se de tudo fica um pouco como afirmou no poema Resíduo, como não ficaria um pouco desse magno mestre em seus ultra-apaixonados leitores? Ficou um pouco dele na máquina do mundo, no Pico de Itabira, na Praia de Copacabana, na rosa do povo, no rancor de si mesmo da solitude, nas impurezas do branco, em Londres, “naquela lata de conserva jogada do outro lado da rua...” e “naquele casal que se beija do outro lado da cidade.”.

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Ficou muito de sua alguma poesia poderosa luz sólida consoladora em nossa terra aporética. Ele foi o fazendeiro do ar que cultivou seu sentimento do mundo no brejo das almas e deu uma lição de coisas a algumas sombras. Com elogio entusiástico, Ferreira Gullar depôs: “Só ele podia dizer aquilo, só ele podia sentir aquilo.”. O mito. Nu no frio. Sobre seu dom e sua paixão Drummond desabafou: “Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo”. O poema José é um símbolo dessa tentativa talvez inglória. Contudo, como esculpiu lindamente no poema Campo de flores: “Onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis.”

Já no magnífico poema A Mesa Carlos insinua que um membro de sua família se suicidou, mas como que perdoando-o declara: “Não ser feliz tudo explica.”. Arúspice da arte, desossava o arcano amanteigado e convulsivo nas dobras do destino “Amor é bicho instruído” e se divertia descrevendo com dolorosa perfeição uma de nossas maiores manias “Amar, depois de perder.”. Seus versos são imortais e irresistíveis. Para Drummond a maior contribuição da arte para a vida era “ensinar a viver”, embora não tivesse o dever de fazê-lo, e desbanalizar nosso cotidiano cinza, vermelho e irrespirável.

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Sua sabedoria é redentora. Sobre os homens, a morte e a vida escreveu no poema Os últimos dias: “E cada instante é diferente, e cada homem é diferente, e somos todos iguais. No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra o silêncio global, mas não seja logo. (...) Ah, podeis rir também, não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe, de outros virem depois, de todos sermos irmãos, no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão. (...) a vida é bastante, que o tempo é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.”. O tempo presente.

Em sua Antologia Poética no artigo de abertura intitulado Aos novos leitores ele narra sua experiência de crucificação pessoal consumada na aurora de sua carreira: “Fui muito criticado e ridicularizado quando jovem. (...) Achavam-me idiota ou palhaço; suportei os ataques porque ao mesmo tempo recebia o estímulo de meus companheiros de geração e de pessoas mais velhas, nas quais depositava confiança, pela capacidade intelectual e pela honestidade de julgamento que as distinguiam.”. No artigo supra confessa ter se ligado na mocidade ao movimento modernista brasileiro “que se afirmou em São Paulo, em 1922, e deu maior liberdade a criação poética.”. Entretanto, o bruxo de Minas não se julgava modernista, mas pós-modernista. E no poema O Elefante admite: “Ele não encontrou o de que carecia, o de que carecemos, eu e meu elefante, em que amo disfarçar-me. Exausto de pesquisa, caiu-lhe o vasto engenho como simples papel.”.

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No universo familiar não escapou ao clássico e complicado relacionamento masculino entre pai e filho. Um verso fantasmagórico abre o poema Rua da Madrugada “A chuva pingando desenterrou meu pai...”. Em A mesa revela: “Lá que brigamos, brigamos, opa! que não foi brinquedo, mas os caminhos do amor, só amor sabe trilhá-los. Tão ralo prazer te dei, nenhum, talvez. . . ou senão, esperança de prazer, é, pode ser que te desse a neutra satisfação de alguém sentir que seu filho, de tão inútil, seria sequer um sujeito ruim. Não sou um sujeito ruim. Descansa, se o suspeitavas, mas não sou lá essas coisas. Alguns afetos recortam o meu coração chateado. Se me chateio? demais. Esse é meu mal. Não herdei de ti essa balda.”. No entanto no poema Viagem na família finaliza intuindo um indulto silente semeado pela sombra shakespeariana do pai “Senti que me perdoava porem nada dizia/ As águas cobrem o bigode, a família, Itabira, tudo.”.

Entre sua infância idílica e sua idade madura, entre sua pedra anarquista e sua doce pornografia, entre sua personalidade tímida e seu “anseio de absoluto”, este gênio A. C. multifacetado da Literatura dedicou-se ao ofício diário e secreto da técnica, da leitura, da contemplação e da ação porque entendia que poesia era “negócio de grande responsabilidade”, capaz de salvar o homem de sua mediocridade e indiferença social. O poema Desaparecimento de Luiza Porto inspirado numa notícia de jornal é uma metáfora compassiva sobre o sofrimento daqueles que perdem alguém que amam sem nenhuma explicação, porém não perdem a doce esperança de que um dia eles retornem sem nenhuma explicação. Um versinho dele diz assim “E de sentir compreendemos.”.

Parindo palavras de efeitos especiais com gigantes ombros que suportavam o mundo, “Drummundo” nos ensinou que a vida, claro enigma sagrado e supremo, é uma ordem e que amar se aprende amando (até na falta de amor). Por isso devemos lê-lo sempre e refletir profundamente sobre seu elevado, sofisticado e diamantino testemunho da experiência humana na vida de nossas retinas tão fatigadas pelas pedras no meio do caminho. Assim sentenciou o poeta do mundo: “Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, / Mas a poesia (inexplicável) da vida.”. Sim, valeu a pena. Eis o epitáfio do elefante: “Amanhã recomeço.”.


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor. E “tornar-me senhor de mim mesmo” é o meu grande objetivo em busca de uma vida que vale a pena ser vivida..
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