arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

ANOS INCRÍVEIS - PARTE II

Essa segunda crônica para celebrar o mês das crianças corresponde a uma denúncia melancólica da situação de risco e desamparo a qual estão submetidas mais de 700 mil crianças brasileiras além das que sofrem em silêncio e de maneira invisível, no interior das famílias, todos os tipos de abusos, sevícias e opressões sem que ninguém saiba ou faça algo para mudar essa realidade trágica e inaceitável


Acima: cena final do filme Tempo de Matar. “O que nos faz querer a verdade, nossas mentes ou corações?”

O Princípio VI da Declaração Universal dos Direitos das Crianças corresponde ao direito ao amor e a compreensão por parte dos pais e da sociedade. Encontra-se escrito assim em um trecho seu: “A sociedade e as autoridades públicas terão a obrigação de cuidar especialmente do menor abandonado ou daqueles que careçam de meios adequados de subsistência.” Uma pergunta: qual é a diferença entre os nossos filhos e uma criança de rua? Resposta: a sorte. Mais nada. Aos olhos de Deus e da lei criança é criança. Lembram-se da sustentação oral final genial do advogado Jake no filme Tempo de Matar em que defende um homem negro acusado de executar os violadores brancos de sua filha de 10 anos, quando o racismo nos EUA era uma lei social tácita, por assim dizer? Em sua argumentação derradeira o advogado pede ao júri branco que feche os olhos e imagine a cena do estupro. Após descrevê-la com brilhantismo dramático finaliza dizendo “Agora imaginem que esta menina é branca.” Lágrimas de todos porque se colocaram pela imaginação empática no lugar sombrio da vítima vulnerável. Assim, quem poderia condenar o pai justiceiro nesse contexto ignóbil por ter feito justiça com as próprias mãos? Veredicto: o juri considerou o réu "inocente". E a justiça foi feita, na nossa humilde opinião.

No Brasil, segundo dados oficias da ONU existem mais de 700 mil crianças em situação de risco e desamparo (nas ruas e passando fome, vítimas de violências diárias e inomináveis) além das que sofrem em silêncio e de maneira invisível, no interior das famílias, todos os tipos de abusos, sevícias e opressões sem que ninguém saiba ou faça algo para mudar essa realidade trágica e inaceitável. Quando um político desvia dinheiro ele está assassinando crianças e idosos. É lixo humano radioativo da pior espécie. O político Carlos Lacerda declarou certa vez "A impunidade gera a audácia dos maus”. Ele tinha toda razão. Mas como instilar a tolerância zero à corrupção no cidadão acrítico? Eis um mantra moral que poderia orientar a humanidade: “Tudo que eu não posso fazer você também não pode.”. O que não deixa de ser um imperativo categórico kantiano do ponto de vista filosófico e uma boa ideia de isonomia conjugal. Se nós, cidadãos comuns, não podemos roubar um centavo de ninguém nem do Estado, os ladrões assassinos que infestam o congresso também não podem. Há quem seja a favor da pena de morte para políticos corruptos (como acontece em alguns casos na China). O que o Cisne Negro chama de "Higienização ética radical" com a seguinte legenda "Morte ao mal". Esses "extremos" argumentam que quando queimássemos o primeiro político flagrado em ato de corrupção o número desses vermes vis cairia pela metade. Após a primeira centena do atroz churrasco a porcentagem se reduziria a 10%. Então, só teríamos que vigiar e punir um número possível desses animais repulsivos e perigosos. E o mundo seria tão, tão melhor e o céu da vida seria tão, tão mais azul!

crianças absudas.jpg "Qualquer criança me desperta dois sentimentos: ternura pelo que ela é e respeito pelo que poderá vir a ser." Louis Pasteur

O irônico nessa história é que o Dia das Crianças em nosso problemático país foi proposto por um político, o deputado federal Galdino do Valle Filho na década de 1920. 12 de outubro, data aprovada pelos deputados da época e oficializada pelo presidente Artur Bernardes, por meio do decreto nº 4867, de 5 de novembro de 1924. Contudo a data incorporou-se a nossa tradição devido a uma jogada de publicidade da Fábrica de Brinquedos Estrela conjunta com a Johnson & Johnson para promover suas vendas. Não perderemos tempo comentando intenções e desdobramentos. Contudo é cientificamente comprovado que brinquedos e brincadeiras são tão importantes quanto afeto e educação para o desenvolvimento psicológico, social e motor das crianças. É imperativo que nada lhes falte, inclusive correções moderadas. Afinal, elas precisam ser educadas com amor, exemplos e limites para que não ajam anomalias graves em seu caráter como, por exemplo, o egoísmo extremo, apatia servil ou falta de sensibilidade com o sofrimento dos seus irmãos (Chega de Caim e Abel! Mais humanidade, por favor!). Tudo começa conosco. Como dizia Marx numa de suas célebres frases sapienciais: "Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras. O que importa é modificá-lo.". Ou como dizia Gandhi "Seja a mudança que espera ver no mundo.". O mundo é sórdido. Não sejamos assim. Afinal, de que lado estamos? Consideramos simplesmente impossível ser uma pessoa de bem, ética e íntegra e não se revoltar contra essa realidade dolorosa, desumana e indigna das crianças violentadas. Ouse mudar! Ouse amar a humanidade! Ouse adotar! Ouse fazer uma criança feliz! Ousemos amar, respeitar e cuidar de nossas crianças!

O que seria de nós sem a UNICEF, por exemplo, que promove diversas campanhas de recolhimento de fundos monetários para poder socorrer milhões de crianças de países subdesenvolvidos e vítimas da desnutrição, trabalho infantil, ausência de lar e AIDS? Quando crianças são alvos de comércio sexual, pedofilia, violência doméstica e social, indiferença política e familiar, mortalidade e trabalho infantil, preconceitos, abusos, escárnios, fome... Enfim, todo mal consagrado a uma criança é um ataque terrorista dirigido a toda humanidade, a todo o Direito, a toda democracia e ao próprio Deus - símbolo supremo do amor humano que nunca tivemos uns pelos outros? E ataques terroristas são abomináveis. Eles devem ser neutralizados e quando explodem punidos poderosamente. É preciso indignar-se contra os adultos abjetos. É preciso destruí-los legalmente e elaborar ações efetivas de prevenção, denúncia e sanção aos crimes contra crianças além do advento de políticas públicas permanentes que visem seu pleno desenvolvimento do maternal a vida adulta. Perder a infância sem tê-la é uma desgraça e não podemos permitir isso.

Cuidar das crianças é cuidar do futuro.

nina.jpg "Criança periférica, rejeitada / Teu mundo é o submundo." - Cora Coralina

Durante a Assembléia Geral das Nações Unidas, no dia 20 de Novembro de 1959, representantes de centenas de países aprovaram a Declaração dos Direitos da Criança. Ela foi adaptada da Declaração Universal dos Direitos Humanos, porém, voltada para as crianças.

1. Todas as crianças são iguais e têm os mesmo direitos, não importa sua cor, raça, sexo, religião, origem social ou nacionalidade.

2. Todas as crianças devem ser protegidas pela família, pela sociedade e pelo Estado, para que possam se desenvolver fisicamente e intelectualmente.

3. Todas as crianças têm direito a um nome e a uma nacionalidade.

4. Todas as crianças têm direito a alimentação e ao atendimento médico, antes e depois do seu nascimento. Esse direito também se aplica à sua mãe.

5. As crianças portadoras de dificuldades especiais, físicas ou mentais, têm o direito a educação e cuidados especiais.

6. Todas as crianças têm direito ao amor e à compreensão dos pais e da sociedade.

7. Todas as crianças têm direito à educação gratuita e ao lazer

8. Todas as crianças têm direito de ser socorridas em primeiro lugar em caso de acidentes ou catástrofes.

9. Todas as crianças devem ser protegidas contra o abandono e a exploração no trabalho.

10. Todas as crianças têm o direito de crescer em ambiente de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos.

Acima: um clip musical lindo e lacerante ao mesmo tempo. (Talvez os "extremos" tenham razão.). Tolerância zero contra a corrupção política brasileira. É muita maldade. Não podemos permitir isso. JUSTIÇA SEJA FEITA! "Eu quero justiça!" Nina, Avenida Brasil (Oi, oi, oi...).

PERGUNTAS A UM HOMEM BOM

Por Bertolt Brecht

Avança: ouvimos/ dizer que és um homem bom./ Não te deixas comprar, mas o raio/ que incendeia a casa, também não/ pode ser comprado./ Manténs a tua palavra./ Mas que palavra disseste?/ És honesto, dás a tua opinião./ Mas que opinião?/ És corajoso./ Mas contra quem?/ És sábio./ Mas para quem?/ Não tens em conta os teus interesses pessoais./ Que interesses consideras, então?/ És um bom amigo./ Mas serás também um bom amigo de gente boa?/ Agora escuta: sabemos/ que és nosso inimigo. Por isso/ vamos encostar-te ao paredão. Mas tendo em conta os teus méritos/ e boas qualidades/ vamos encostar-te a um bom paredão e matar-te/ com uma boa bala de uma boa espingarda e enterrar-te/ com uma boa pá na boa terra./

Bertolt Brecht (1898-1956) – Dramaturgo e poeta alemão

bre.jpg "Diga NÃO a qualquer forma de violência contra o ser humano; principalmente contra as crianças indefesas e contra a dignidade física e moral das mulheres." Aimara Schindler

Para ler também: Anos Incríveis - Parte I


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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