arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

ANOS INCRÍVEIS - PARTE I

Essa primeira crônica tem o objetivo de celebrar o mês das crianças, último refúgio da pureza humana. A infância corresponde a uma fase mágica da vida de todos nós. Crescemos e a criança que fomos desaparece fisicamente, mas nossa criança interior continua sendo uma referência de conduta e humanidade por toda a nossa existência.


Este vídeo é impressionante e imperdível. Resume tudo. Parabéns aos seus autores. Obrigado pela "regressão" no túnel do tempo.

A criança que eu fui

"De todos os presentes da natureza para a raça humana, o que é mais doce para o homem do que as crianças?" Enerst Hemingway

Fecho os olhos e evoco as lembranças de minha infância... Segundo minha amável mãe, minha primeira palavra foi justamente “Mãe”. Os anos faziam crescer e engordar.

Meu recorte crescendo na rua abaulada correndo de cachorro louco. A arte de subir na parede. O parque. O processo de fotossíntese das plantas. O maldito Meridiano de Greenwich. Meu amado avô paterno me ensinando a arte de abrir um abacate sem ferir o caroço interior. Duas colheres de açúcar dentro para o deleite divino. O campo de futebol de terra do Floresta, o Olimpo. Um dia de chuva deitei no campo e senti a Terra úmida muito antes do Drummond fazê-lo num poema dedicado a João Cabral de Melo Neto na década de 40, pois eu nunca tinha lido esse poema nem sabia que a poesia era o suprassumo da arte humana. Mas o campo, a guerra, os amigos, os inimigos, os gols, a glória e o catarro de chuva. Nenhuma preocupação com a assombrosa questão: o que você quer ser quando você crescer, além de astronauta, é claro? (Eu dizia que seria advogado por causa dos filmes que assistia na TV.)

crianca-sorrindo02.jpg “Se a gente quiser modificar alguma coisa, é pelas crianças que devemos começar. Devemos respeitar e educar nossas crianças para que o futuro das nações e do planeta seja digno.” Ayrton Senna

Andreza, talvez Deus sorrindo. Tinha 6 anos e a achava tão linda naquele tempo quanto hoje acho a baía de Sydney à noite com a ópera e a ponte de Sydney, embora vistos virtualmente. Ela exalava hálito de hortelã pela manhã. 5 anos depois, a inesquecível Michele, a primeira menina que sentou no meu colo e perguntou se estava gostoso. Não havia maldade sexual na minha mente naquele tempo, apenas o puro instinto masculino e eu respondi: "Tá, uai!". Michele cresceu quebrando corações por onde passava. O que é feito de ti, querida?

Meu domínio da arte de mijar na rua. A semiótica telepática do olhar do pai para a mãe. A coreografia das pipas caleidoscópicas. O fliperama. O medo de Satanás. As orações sinceras para Deus pedindo que o Cruzeiro ganhasse os jogos do Brasileirão. Os piolhos perversos e incontáveis. O terrível velório do avô. O fim da inocência e as lágrimas. As primas de São Paulo. A Keila fumava e ficou grávida aos 15 anos. Um escândalo na nossa família. Minha eterna bike azul de 18 marchas. A maneira como eu arriscava a vida voando desgovernadamente com ela entre os carros na avenida no horário de pico. O dia que quase atropelei uma mulher grávida. Sem comentários. As gelatinas de framboesa da titia maluquete. Minha mãe gritando: “Thiagooooooooooo, cadê você estrupício!!!???” E eu respondendo indignado: “Eu não sou estrupício, mãe!”.

“Tudo pode ser, se quiser será/ O sonho sempre vem pra quem sonhar/ Tudo pode ser, só basta acreditar/ Tudo que tiver de ser, será.” Xuxa, Lua de Cristal

O pique-pega, o pigue-esconde, o Pica-pau, o Pernalonga, o Chaves. O Tom e Jerry. O X-man. A turma da Mônica. Os Trapalhões. E acima de tudo, Os Cavaleiros do Zodíaco. A briga diária com os irmãos. Eu dizia que o caçula era adotado e ele batia a cabeça na parede com cólera. Vôlei na rua. A cachoeira. As cabanas improvisadas no quintal da avó. O André-cascão. O pé de carambolas. O pé de manga gigante. A escalada perigosa do pé de goiaba. Meu xadrez de madeira, eu era o melhor jogador de xadrez do mundo da minha rua. O bar da Maria. A deliciosa “perereca da Xuxa” (calma, crianças, é apenas o nome de um divino doce do meu tempo). A birosca na calçada. Minha turma: o Alan, o Robson, o Dedeu, o Luciano... O Kito que fazia as professoras chorarem e foi embora para os EUA. A professora Guta de olhos verdes que puxava o meu saco. O dia das crianças na escola. A hora do recreio no pátio. A birra. O egocentrismo é um traço marcante das crianças e dos adultos e precisamos aprender a superá-lo para crescermos como cidadãos conscientes.

Os dentes de leite caindo um por um. A criminosa vacina. O choro histérico. Nojentos legumes e verduras. As brincadeiras na rua. Os elementos indescobertos. A cerâmica amarela da minha antiga casa. O frontispício de Cristo na parede, tão triste, tão humano. A Eveline que era a menina mais inteligente da escola, de quem o Álvaro gostava e com quem eu competia. Álvaro, meu nêmesis mais forte, ele ganhou uma bolsa de estudos numa universidade americana. Uau!!! A Tamara. A Maruana. A Naira. O dia que meu pai disse que fazia tudo por mim e como eu estava pedindo há muito tempo uma surra por ser insubordinado com minha mãe ele iria gentilmente atender o meu pedido. Os gritos. O ódio. As festas juninas. A fogueira de São João. A cruz. A catequese. Eu cantava no coral da igreja e ficava com a Isabela. A mancha de óleo na camisa, na minha biografia futura cheia de altos e baixos. Tardes tão quentes. Chup-chup de uva e sonhos chuvosos.

Acima: With A Little Help From My Friends (Com uma pequena ajuda de meus amigos), canção do Beatles

O imperial pé de manga do meu avô. As festas de aniversários que as tias organizavam para a gente. Os presentes eram cuequinhas e bolas de futebol que rasgavam na primeira pelada. O povo era lascado e minha família não era muito original em nosso meio social. Entretanto alguns amigos meus viajavam para a praia do Espirito Santo nas férias escolares. Eu não gostava muito de praia e por isso viajava para a Rússia, para Inglaterra e para a série Vagalumes. Não havia internet, a TV era entediante e eu sabia que não teria nada para fazer no tempo livre, por isso abastecia a minha mochila com livros de literatura infanto-juvenil que eu pegava na biblioteca Olavo Bilac no último dia de aula. Era assim, qualquer coisa doce e pura, sem retorno. E foram anos incríveis.

Minha infância foi antes deu anoitecer de repente, de descobrir que o mundo é mau até a medula e um dia a gente fecha os olhos para sempre.

Eu na rede balouçando na varanda. Os coqueiros no fundo do quintal. O azul celeste infinito. Abro os olhos e sorrio.

A criança que fui permanece escondida no meu interior, brincando.


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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