arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

EM BUSCA DA EXISTÊNCIA AUTÊNTICA

Uma crônica para pensarmos sobre qual é o nosso projeto de vida, como podemos edificar uma existência autêntica fazendo a experiência do autoconhecimento autêntico e alcançando assim o amor autêntico


"Eu deveria me matar ou tomar uma xícara de café?" Albert Camus

Querida, vamos tomar um café e conversar sobre a vida, o amor e o autoconhecimento?

Eu tenho esse Projeto de Vida: me tornar um homem bem-sucedido no mundo do direito, um pai de família exemplar e talvez um grande escritor. Qual é o seu Projeto de Vida, querida?

Eu penso que é preciso cuidar da nossa vida com muito amor, engenho e delicadeza. Talvez devamos nos perguntar para nos conhecer melhor: o que eu quero? Como conseguir? E, por que? Respondendo a essas perguntas temos a chance de construir uma existência autêntica. Segundo Bauman nossa modernidade líquida está fadada a falência porque não possui afetividade. Tudo é objetificado e descartável e assim fica impossível conceber algo autentico, profundo e perpétuo. Contudo, ele também tem esperança que esse tempo tenebroso termine e que o amor ressurja de uma maneira que possa preservar ao mesmo tempo sua liberdade e seu compromisso. Assim, podemos alcançar um amor autêntico que nos traga alegria, satisfação e inspiração. O amor que quero para nós dois. Afinal, ao contrário de Heidegger não penso que somos seres-para-a-morte, mas seres para-a-vida e seres-para-o-amor. E é preciso aprender a pensar por si só. Para os antigos gregos o ideal de uma vida virtuosa, vitoriosa e voluptuosa é a busca do bem, do conhecimento e do amor. Somente assim atingimos a existência autêntica com equilíbrio essencial. Nunca é tarde para recomeçar, amar e ser feliz. Contudo, Júpiter tem uma “tempestade eterna.”.

velhos.jpg "Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,/ Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,/Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,/ E amou as mágoas do teu rosto que mudava;" William Butler Yeats, Quando fores velha

Assim, penso que o grande desafio do ser humano em todos os tempos é ser “autêntico”. Porque ser autêntico significa criar seu próprio caminho, o que naturalmente pode nos intimidar a princípio por causa das dificuldades demoníacas e da responsabilidade que ser autêntico implica, mas ao mesmo tempo é a única forma de vivermos com liberdade e, por extensão, com felicidade vencendo a angústia atroz do vazio da vida inautêntica. Estranhar-se. Governar-se. Superar-se. É imperativo nos interrogarmos diante de tudo: isso é vida ou é morte? Isso é amor ou não é amor? Colocarmos em perspectiva os dois maiores valores que existem: vida e amor, em busca do autoconhecimento autêntico recortado de afetos, emoções e olhares mais demorados antes do nocaute do nada.

Penso que a vida só pode existir com excelência constituída pela ética, quando fazemos a coisa certa em todas as situações (lembrando que este é um conceito subjetivo, relativo e temporal) e o amor só pode existir com excelência licenciado pela liberdade, na capacidade que temos de pensar por nós mesmos e agir-escolher segundo nossos valores, referências e interesses. É diáfano, tanto a vida quanto o amor, tanto a ética quanto a liberdade só podem existir com excelência dentro do diálogo. Diálogo é democracia e democracia é pluralidade. O diálogo é o encontro com o outro, o mundo do outro, a visão do outro, o sentimento do outro, a possibilidade do outro. Diálogo é vida, amor, ética e liberdade. O outro é um eu exteriorizado observando a si de fora. (Prove seu poder e voe para Saturno.).

vida aa.jpg "O que é a vida? É a luz de um vaga-lume a noite; É o sopro de um búfalo no inverno; É a pequena sombra que corre pela grama e se perde com o pôr do sol." Provérbio Blackfoot

As pessoas hoje são infelizes porque são imaturas. Ou seja, se habituaram as coisas prontas, consumíveis e descartáveis (o slogan do mercado “Compre” “Exiba” “Troque”) e esquecem que tudo que vale a pena exige um esforço de construção contínuo. Se pensarmos bem, nossa dor, ansiedade e tristeza tem um papel fundamental nas nossas vidas que é o papel educador, de nos humanizar enquanto lutamos para transcendê-las e transformá-las em identidade e sabedoria de vida. Não sei até se em amor por nós mesmos e por toda a humanidade além, muito além das máscaras meigas do mundo. Um mundo que nos faz confundir miseravelmente felicidade com poder e não com autenticidade. Talvez por isso esteja enrodilhado na areia-movediça da melancolia, sem compaixão, sem justiça, sem poesia e sem magia. É preciso morrer para nascer de novo e libertar-se do fardo da felicidade. Segundo o brilhante filósofo Immanuel Kant o mais importante não é ser feliz, mas ser digno da felicidade, ou seja, ser autêntico, ético e empático. O resto é lucro. Ser livre é ser feliz? Não sei. Talvez não exista nem liberdade nem felicidade, mas apenas experiência e elevação. E névoas espessas e escarlates. E uma selvagem solidão suja sangrando na noite enluarada e terrivelmente tropical. Numa palavra: contradições.

Eu penso que a única maneira de conseguirmos ter uma existência autêntica é nos responsabilizarmos pela produção dessa existência autêntica. E para isso é preciso coragem, humildade e paciência. É preciso não aceitar o que o mercado, a mídia e o mundo tentam nos vender como nossas necessidades! E reinventar-se. O que você ama? Pelo o que gostaria de ser lembrado? Qual será seu legado, luta ou fuga? Extermínio ou solidariedade? É preciso pensar nisso. Siga seu sonho e pague o preço. Como dizia Contardo Calligari “Nunca se traia.”. Hostilize a hipocrisia, se torne o oposto daquilo que você despreza e não permita que o mal medre. Saia do facebook. Abra um livro, medite e mergulhe na sua vida interior. Nunca é tarde para fazer a experiência do pensamento. Confie no seu caráter, energia, dinâmica e renovação. Ouse sempre, ouse mais. E boa sorte, querida!

Montagem criada Bloggif "Todos os erros humanos são impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico." Franz Kafka

Querida, a existência é evanescente, invisivelmente evanescente, espinhosa e imprevisível. O mundo é injusto, impiedoso e indiferente. A maioria das pessoas só amam a si mesmas ou nem isso. Por isso o melhor conselho continua sendo nietzschiano “Seja duro!”. Defenda seus direitos, viva sua vida (lembre-se: você vai morrer! Aproveite aqui e agora!) e não se sinta culpada por isso. Sempre faça seu melhor e é tudo. E não tenha dúvidas, muitas vezes seu melhor será insuficiente para vencer a causa. Você perderá mais do que ganhará e serão derrotas dolorosas, mas se está viva e lendo isso agora: levante-se e lute. Perdoe-se por tudo e perdoe a todos. Lembre-se do grande argentino "Perdoar é esquecer.". Recomece do zero, passo a passo como um recém-nascido que engatinha e sorri. Apenas faça questão de ser sempre ética, digna e justa e não prejudicar ninguém. Guarda os mandamentos do Cristo “Amar ao próximo como a si mesmo.” Seja estoica, elegante, gentil e grata. E como dizia Drummond: "Amigo, não sabes que existe amanhã?"

Querida, estou escandalizado por experiências afetivas e emocionais inexoráveis e irresistíveis, o quasar do amor-paixão. (Quando não há o que fazer não há o que lamentar.) Mas aconteça o que acontecer, existe uma frase melhor do que “Eu não merecia isso.” É “Eu posso superar isso.” Como? Lendo, escrevendo e amando. Dedicando sua vida a compor sua obra original, ou dedicando-se a sua carreira, a sua família, a sua desconstrução e reconstrução. Ou fazendo o que lhe apetecer e felicitar. Eu sempre busquei o que denominei de “Algo além”. Nem eu sei o que poderia ser isso. Mas seja o que for é algo além de mim. Isto é, algo além da ficção esquizofrênica do meu “eu” que procurei esculpir com reflexão e invenção cultivando o pensamento e louvando a linguagem até gozar o silencio, o sonho e a serenidade. Mas, será que eu consegui? Ou sua escuridão espiritual primitiva permanece me assombrando? Eu penso que Algo além talvez possa ser o “Nós!”. Um “Nós” autêntico. Olha, começou a chover suavemente! Amo essa música. Mais café, doce querida, a mamusca acabou de passar? E experimente essas madeleines com aroma de limão. Que delícia!!!

“Dizem que o que importa não é o que acontece, mas como você reage. Se você ainda não aprendeu que só pode contar consigo mesmo, então continue sofrendo e foda-se sem amor! Ou seja um guerreiro, lute e vença!” Cisne Negro

"Nada mais vai me ferir/ É que eu já me acostumei/ Com a estrada errada que eu segui/ E com a minha própria lei/ Tenho o que ficou/ E tenho sorte até demais/ Como eu sei que tens também." Legião Urbana, Andreia Doria

Abaixo: um poema autêntico e extraordinário do psicanalista Jorge Forbes sobre nossos novos tempos mais femininos, humanos e amáveis. Espero que ele esteja certo, apesar da irônica e inesquecível frase de Shakespeare:

shakespeare13.jpg

Não é? Por isso, cuidado, segundo Freud “O que reprimimos em nós se transforma em neurose.”. O que é devastador. Assim, fica a dica para as crianças adoecidas: “Não se reprima. Exprima-se! Seja livre como a luz.”. Um beijo do papai "docemente dominador".

A GLOBALIZAÇÃO É UMA MULHER

Ontem, a ordem unida; hoje, as muitas possibilidades./ Ontem, a luta por ser melhor; hoje, por ser singular./ Ontem, o falar grosso; hoje, o falar carinhoso./ Ontem, a razão dos números; hoje, a do afeto./ Ontem, o poder do pai; hoje, o da família./ Ontem, o amor disciplinado; hoje, o amor responsável./ Ontem, o treinamento; hoje, a experiência./ Ontem, o futuro previsível; hoje, o futuro inventado./ Ontem, a rebeldia; hoje, a diferença./ Ontem, o como chegar; hoje, o como escolher./ Ontem, o necessário; hoje, o desejável./ Ontem, o importante; hoje, o entusiasmo./ Ontem, a universalização masculina; hoje, a globalização feminina.

"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." João 8:32

Drummond disse no poema A mesa: “Não ser feliz tudo explica.”. Mas não é não ser feliz que tudo explica. Quando você não souber porque certas coisas acontecem, aconteceram e continuarão acontecendo quem tudo explica é Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas:

“SUPORTA-SE COM PACIÊNCIA A CÓLICA DO PRÓXIMO.”

Como dizia minha querida e amada Clarice Lispector: “Escrever também é abençoar uma vida que não foi abençoada.” E como dizia um dos meus poetas favoritos T.S.Eliot “Ousarei perturbar o universo?” Mas a minha sentença favorita é a do genial Samuel Beckett que disse que estava cansado demais para ser gentil: “Eu sou um homem tão bom, no fundo, um homem tão bom, como é que ninguém nunca percebeu isso?”

Quem sabe o que virá por ai?

Para ler também: Os sete pilares do palácio do amor


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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