arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

ENTREVISTA PÓSTUMA COM RENATO RUSSO NA ILHA DE LOST - PARTE I

Uma entrevista com Renato Russo na ilha de Lost abordando temas que vão desde política, visão de vida, sexo, drogas, AIDS e até, claro, Rock'n'roll, tudo temperado pela sua inteligência genial, sua sensibilidade extrema e seu humor impecável


Acima: documentário "Renato Russo: por toda a minha vida."

Renato Russo nasceu em 1960 e subiu as escadas para o paraíso em 1996, aos 36 anos no apogeu de sua música Pós Punk Rock e Italiana. Assim, para celebrar com glamour hollywoodiano o legado intelectual do imortal líder da maior banda de rock de todos os tempos, a supra-sagrada Legião Urbana, o papai se encontrou com o rebelde Trovador Solitário na louca Ilha de Lost (onde aparentemente tudo pode acontecer) para uma incrível entrevista póstuma exclusiva. Renato respondeu as minhas perguntas com sua inteligência genial, sua sensibilidade extrema e seu humor impecável. Não deixei nada passar e perguntei desde política, visão existencial, sexo, drogas, AIDS e até, claro, Rock'n'roll. Qualquer semelhança entre suas respostas e seus manuscritos pessoais revelados no livro Renato Russo de A a Z é mera coincidência, salvo provem o contrário, inequívoco. Decidi fatiar a entrevista, que se revelou uma verdadeira visão geral da vida, em duas partes. Eis a primeira. Sirvam-se, legionários!

"Eu sou o Renato Russo. Eu escrevo as letras, eu canto. Nasci no dia 27 de março, eu tenho 26 anos. Sou Áries e ascendente em Peixes. Eu trabalhava com jornalismo, rádio, era professor de Inglês também e... comecei a trabalhar com 17 anos e tudo, mas só que de repente tocar rock era uma coisa que eu gostava mais de fazer. E como deu certo eu continuo fazendo isso até hoje." Renato Russo

1. Thiago Castilho: Em primeiro lugar eu gostaria de dizer muito obrigado pela sua obra excepcional, profunda, versátil e medicinal. Eu tive uma adolescência selvagem a partir dos 13 anos e alguns pontos biográficos semelhantes aos seus, exceto pelo homossexualismo e as drogas, claro, mas digamos que curti a minha epifisiólise particular, por assim dizer. Hecce Homo: eu era assim, um menino melancólico que lia Dostoievski, angustiado, introspectivo e paradoxalmente romântico. Sua música foi minha terapia psicanalítica alternativa ao lado da poesia de Drummond e Pessoa. Vocês três formam minha santíssima trindade poética pessoal. Bem, vamos lá. Renato Russo por Renato Russo?

Renato Russo: Teve a idéia de formar Aborto Elétrico, que JAERA. Acabou, fim, adeus, good-bye. Continuou escrevendo e cantando músicas para quem quisesse ouvir. Sabe de cor mais de 42 músicas dos Beatles (o que não é um grande feito) e é fã incondicional dos Vigaristas de Istambul (a banda mais honesta a aparecer e, depois, desaparecer). Escreve uma peça de teatro. Não gosta de dentista, filas de espera, música de elevador, nem de gente falsa e/ou sem criatividade. Gosta muito de cinema e está atualmente preocupado com boatos de que a Terceira Guerra pode começar antes que ele cumpra sua promessa de ir a Mogi das Cruzes para se encontrar com seres extraterrestres. Como todo ser humano, é falso em casos de emergência, e todos sabem que não é nem um pouco criativo. Ninguém sabe, mas foi ele quem matou Sid Vicious em 1432 a.C.

an.jpg "Eu amo quem eu quiser." Renato Russo

2. Thiago Castilho: O jornalista Arthur Dapieve disse que tanto ao falar de política quanto ao falar de amor, uma única linha norteava sua poética: a busca da ética perdida. Como você visualiza essa ética perdida hoje em dia?

Renato Russo: Eu acho que existe um grande confronto entre a ética e a estética. A ética, em algum momento, foi substituída pela estética. Isto é mais uma forma de controle. Eu me baseio numa ética normativa, que diz o que é certo ou errado fazer. É bom deixar claro que isso passa por uma avaliação interior, e não por uma imposição. Afinal, já se matou muita gente com essa justificativa. Assim, um engenheiro de obras sabe que não se deve poluir a Baía de Guanabara, ou o governo sabe que não podem haver pessoas passando fome. Acho que o básico, para essa avaliação, é a Declaração dos Direitos Humanos. E isso teria que partir do núcleo da sociedade, que é a família. É uma questão de educação! Porque não adianta ficar xingando o Sarney [ex-presidente José Sarney]. Na verdade, os culpados pela situação do país somos nós! Por exemplo: como a nova geração vai ter respeito pela mais velha, se essa a ataca e está cheia de preconceitos?

3. Thiago Castilho: Sua primeira banda de rock possuía um nome insólito, “Aborto Elétrico”, que foi a semente da Legião Urbana. Você pode nos revelar, por favor, qual é a origem desse nome exuberante?

Renato Russo: O nome Aborto Elétrico é justamente porque eles inventaram, em 68, os cassetetes elétricos que davam choque. Numa dessas batidas, uma menina que estava grávida, nada a ver com a história, levou uma tal daquelas cacetadas e perdeu a criança! Coisa de mau gosto! Então, Aborto Elétrico era o que representava a música da gente.

4. Thiago Castilho: Todo adolescente é um mochileiro das galáxias, por assim dizer, e no íntimo se sente um alienígena, certo? Como era o Renato adolescente?

Renato Russo: Na adolescência, você quer ser aceito. Foi uma época muito complicada para mim. Eu sabia que era sedutor e, como todo mundo, também aprendi os códigos sociais para não me machucar.

5. Thiago Castilho: Para mim com a Legião Urbana você reinventou o rock nacional, introduzindo poesia pensante e crítica político-social em seu corpo. No entanto você tinha uma postura pessoal I Don't Care (Eu não ligo), certo?

Renato Russo: Eu tinha uma postura tão contra tudo e contra todos que, se você me falasse "Não come isso que é veneno", eu chegava e comia mesmo. Eu sou ariano, eu aprendo dando cabeçadas. A minha serenidade, e até a minha própria insegurança, são um dom, porque eu sofri tanto! A questão é que eu não tinha que tomar droga coisa nenhuma, tinha que tomar na cabeça. "Sai desse canto, Renato, pára com tadinho de mim". Tadinho de mim? Foda-se! A vida é difícil mesmo. "Ah, eu sou poeta, artista..." Foda-se! Não vou ficar incomodando os meus amigos. Eu tinha uma postura rebelde, completamente idiota. Eu achava assim: "Ah, eu estou destruindo meu próprio corpo e ninguém tem nada com isso".

Morrer.jpg

6. Thiago Castilho: Você nunca ocultou de ninguém sua relação problemática com as drogas. Como é o cotidiano de um depende químico?

Renato Russo: A doença [dependência química] te domina de tal maneira que você pensa que é daquele jeito, mas, na verdade, não é. É como uma depressão. Você não consegue sair daquilo, vai usando isso, aquilo, e de repente o mundo vai se fechando. Você fica agressivo sem perceber. Tudo é cinza. Você não consegue ver nada de positivo. E a vida não é nem boa, nem ruim: a vida é o que a gente faz da vida. Mas, é claro, se você vive entupindo seu corpo com toxinas... No começo, é até interessante. É o que a gente chama de lua-de-mel. Depois, é fatal. Quem é dependente químico, se não parar, morre. E, se não morrer de overdose, suicídio ou câncer no fígado, morre em acidente de carro ou coisa assim. Quem não tem esse problema acha que é frescura. Quem tem é geralmente gente muito sensível, é tudo uma gente maravilhosa que entra no buraco e não sai. Todos os poetas e escritores são alcoólatras, eles têm uma coisa a mais. Mas a verdade é que a droga não traz nada de bom para ninguém, eu é que achava que precisava de droga.

7. Thiago Castilho: Em Romeu e Julieta o refrão de um dos personagens secundários na tragédia idílica de Shakespeare é “Eu sou apenas um belo pedaço de carne.” Recentemente o norte-americano Scott Westerfeld lançou um livro chamado “Feios” em que num futuro não muito distante todos os adolescentes esperam ansiosos o aniversário de 16 anos, pois então serão submetidos a uma cirurgia plástica obrigatória que corrigirá todas as suas imperfeições físicas, transformando-os em perfeitos. O conflito se instala quando nem todos concordam com a mudança. Atualmente a moda vigente preconiza o “Capital Erótico.”. Seja como for, a beleza é um ponto de vista e há quem valorize mais o conteúdo do que a forma. Você teve problemas com a sua aparência?

Renato Russo: Eu sempre tive trauma de ser feio. Eu achava que tinha direito a ter um ponto de vista, e as pessoas riam da minha cara. E agora é: "Viu, Renato, você estava certo". Eu não sou nenhum Paulo Ricardo, nenhum James Taylor, mas eu dou lá minhas reboladinhas, e as meninas gritam"Lindo! Lindo!". Eu era magrelo, branquinho, com espinhas, e, de repente, consegui ter uma banda de rock. Por que não? O pessoal me via: "Mas ele é que é o Renato Russo?". "É, mas as letras dele são bacanas".

8. Thiago Castilho: Segundo Sartre "O inferno são os outros.". Sabemos que onde existem dois seres humanos coabitando existe conflito. Como era a convivência na Legião Urbana?

Renato Russo: Conviver com uma banda é superlegal. Para mim, é uma das coisas mais importantes da vida. Acho que trabalho é uma coisa muito importante. Eu tive sorte de encontrar não só o Dado e o Bonfá, mas uma equipe que acredita no que a gente faz. Eu acho o Bonfá o mais inteligente da banda, mas ele é mais caseiro. Então, fica parecendo que eu sou o mais inteligente, o mais culto. O Dado é o mais sensível. No fim das contas, cada um de nós é uma pessoa, mas, pelo fato de a gente ter trabalhado tanto tempo juntos, cada um de nós é uma parte da Legião Urbana. Nós temos muitas coisas em comum. E isso é impressionante, porque somos três pessoas completamente diferentes. Como eles são mais jovens do que eu — isso não é uma coisa que parte de mim —, às vezes eu sinto que eles se ressentem de ser essa coisa de Renato Russo, Renato Russo, Renato Russo. O vocalista aparece mais, mas, às vezes, as pessoas têm a impressão de que eu faço tudo. E eu não faço tudo, não. Têm músicas inteiras que o Dado me entrega a fita pronta, eu só coloco a letra. E as pessoas não vêem isso. Eles também não gostam muito de fazer entrevista.

9. Thiago Castilho: Qual é o perfil do público da Legião Urbana, Renato?

Renato Russo: Nosso público tem um perfil que eu acho muito bonito. São pessoas que não são racistas, não são fascistas, que buscam uma determinada ética frente ao mundo complicado que têm. Fico feliz de tentar trabalhar com o que acredito, e o que acredito passar na música. Não existe confusão.

Renato russoecazuza.jpg Acima: "a sombra e a escuridão", no melhor sentido, ou seja, os dois leões da música brasileira, na minha humilde opinião

10. Thiago Castilho: Imagino que tenha sido psicologicamente excruciante ou superpunk para você descobrir que era soro positivo naquela época. Você poderia, por favor, descrever como foi essa experiência?

Renato Russo: A Aids coloca toda e qualquer ação humana sob outro prisma. A Aids acabou com a segurança. As angústias voltaram a ser básicas. E pessoais. Pratico sexo seguro desde 1986. E acho que a doença está mais ligada a um tipo de vida desregrada. Já perdi amigos. É uma coisa brutal, terrível. Mas espero que agora, passados dez anos, a situação melhore. Esta garotada que está aí é bem mais informada.

11. Thiago Castilho: Defina o que foram os anos 90.

Renato Russo: Não queremos ser diferentes, e, sim, que todo mundo tenha o direito de ser como é. Eu não preciso me sentir mal porque não sou igual ao garoto que está no anúncio do iogurte. É você ser sexy, charmoso, com uma certa plasticidade corpórea. Cria-se uma geração de clones. Estes são os anos 90.

12. Thiago Castilho: Drummond escreveu “O homem atrás do bigode/ é sério, simples e forte/ quase não conversa/ tem poucos, raros amigos.” Conceitue amizade.

Renato Russo: Amizade é quando você encontra uma pessoa que olha na mesma direção que você, compartilha a vida contigo e te respeita como você é. Uma pessoa com a qual você não precisa ter segredos e que goste até dos teus defeitos. Basicamente, é aquela pessoa com quem você quer compartilhar os bons momentos e os maus, também. Alguns amigos meus são os mesmos do passado e outros, não. Eu não tenho muitos, mas tenho bons amigos. Se eu contar, realmente, não devem passar de cinco. Mas têm outros.

13. Thiago Castilho: Qual é a sua conexão com o Cazuza?

Renato Russo: Eu tenho uma superligação com o Cazuza, a gente nasceu na mesma cidade, somos do mesmo signo e quase da mesma idade (Cazuza era um ano mais velho) e temos o mesmo trabalho — somos letristas e cantamos — e nós dois somos loucos. Eu não apareço tanto, mas sou muito parecido com o Cazuza. Acho que o Cazuza é superlegal. Ele viveu intensamente! Eu não tenho coragem de fazer isso. Ele levou a vida dele para além dos limites.

Acima: Metal contra as nuvens, canção recheada de metáforas e ironias políticas, uma crítica contundente dos tempos de falência, corrupção e caos da reabertura democrática do Brasil. Décadas depois podemos nos perguntar: o que mudou?

“E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas para contar.” Legião Urbana, Metal Contra as Nuvens

Continua...

Para ler também: Parte II


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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