arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

MOSAICO DA MORTE

Um poema sobre tudo e sobre nada


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DECALQUE DOS DONS

I - AR E ÁGUA

A Jorge Luis Borges

“Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Deu-me a um só tempo os livros e a noite.” Jorge Luiz Borges, Poema dos dons, referindo-se ironicamente ao fato de amar a leitura e ter paulatinamente ficado cego, nas últimas décadas de sua vida sua mulher lia para ele todos os dias

“_Deve perdoar meus amigos. Eles não tiveram os privilégios que você teve. _E que privilégios seriam estes? _Ter que lutar pelo o que você quer.”. Do filme Sylvia, diálogo entre a mãe de Sylvia Plath e o poeta Ted Hughes, que se sentiu deslocado entre os ricaços. Foi ele que disse “Se você não tem aquela confissão secreta, talvez não tenha um poema.”.

“Eu escrevo pela mesma razão que respiro – se não o fizesse, morreria.” Isaac Asimov

Graças quero dar ao divino labirinto dos efeitos e das causas

Pelo singular e plural bardo argentino que esculpiu o primeiro poema dos dons, leu todo o livro da vida e da literatura e mergulhou na morte como Homero,

Por essa cama de hospital, a luz, o solo e o sangue que sinto confluindo em mim, e por minha mãe dormindo docemente no quarto contíguo e meu quarto escuro (“O chiqueiro” segundo ela) que eu amo porque onde toco piano e reverberam o Pai, o Filho e o Espírito Santo, as três forças da alma segundo Agostinho,

Por Elizabeth Taylor, Anais Nin e Lolita e pelas faces e formas femininas que fascinam, deleitam e tiranizam os pobres homens,

Pela maçã no escuro de Clarisse Lispector e a rajada da rocha de fogo no interior da flor d’água,

Pelo deus Hermes que transmitiu a linguagem aos homens e os pulsos de som dos genes da Torre de Babel, os espíritos de Yeats, a lembrança involuntária de Proust e o fluxo ininterrupto de consciência de Virginia Woolf,

Por Julian Patrick e seu arquipélago de estrelas eternas, enciclopédicas e espetaculares, e pelo Paraíso Perdido de Milton e nosso reencontro no purgatório, sem olhos, mas salvos da decapitação por nossa luz interior,

Pelo gênio autodidata de Shakespeare (“Aquilo que sou far-me-á sobreviver.”) e a “Perfeição que destrói.” de Kafka, que sentia a Terra como uma “Estalagem noturna”, e seu caçador Gracchus, a quem eu sempre me senti, nem vivo nem morto, navegando entre mares lúgubres sem direito a jogar âncora em algum porto protetor,

Pela Academia Brasileira de Letras e o Prêmio Nobel de Literatura,

Pela pureza, solidão e melancolia de morte da adolescência e a esperança, a doçura e a exuberância da juventude que não perdoa nem se arrepende e se evola invisivelmente entre aniversários sequer celebrados porque já não fazem festas surpresas para “O que não se mistura”, a ovelha negra da família,

Pela “teoria do pior” de Schopenhauer que preconiza que devemos pensar sempre o pior e imaginar nossas vidas caso perdêssemos tudo o que temos atualmente, e assim decidir se preferimos preservá-la, mudá-la ou desfazê-la, e pela coragem de amputar o membro podre que nos mataria, ou reciclar nossas vidas, atitudes e afetos, o que é sempre um parto,

Pelo sentimento de falta, de angústia e de insatisfação que forjaram os grandes gênios da civilização,

Pelo Jardim das Aflições de Olavo de Carvalho e Os Grandes Cemitérios Sob a Lua de Georges Bernanos,

Pela noite em Sidney, New York, Alasca, Buenos Aires e Vancouver, e a aurora boreal no Vale do Sol, que ao nascer incinera os outros astros como uma epifania matinal de Eros,

Pelo sabor do vinho escalando a alma e a brilhante e etérea pérola da noite num café sujo tatuado de músicos, beijos e “lindas mentirinhas”,

Por Beckett (“Estou cansado demais para ser gentil”) que se julgava em seu íntimo um homem tão bom e se questionava porque ninguém nunca percebeu isso, e por J.M. Coetzee, o “escritor da solidão” que denunciou devastadoramente a desonra nas irrespiráveis Áfricas,

Por Joyce que se exilou no deserto voluntariamente para escrever porque considerava o resto em redor uma massa só,

Por André Breton, seu humor negro e surrealismo,

Pela troca de olhares entre dois abismos,

Pelo “Cobrador” de Rubem Fonseca e o nosso Marques de Sade que nos mostrou “A vida como ela é”, (“Uma obsessão é uma obsessão e merece respeito”), e pelo lobo órfão caçador de antílopes que amava as touradas, Cuba e os choque-elétricos, embora ele negasse, oh, por que negar o amor?

Pelo “Confesso que vivi” de Neruda, “A musa e o minotauro” de Picasso e o “Faça você mesmo” dos Punks,

Pelos conceitos e princípios filosóficos noéticos (imanência, dialética, transcendência, catarse, devir, demiurgo, monismo...) e as espécies ameaçadas de extinção,

Pela Física Quântica, a teoria das cordas, a teoria do multiverso e a Partícula de Deus que encontrei por acaso antes de qualquer cientista contumaz dançando como uma bailarina russa no olhar errante de um bebezinho sapeca que mamava no seio de sua mãe apaixonada,

Pelo magnífico poeta Leopardi, o leopardo, e seu “Espetáculo da nulidade”, que corresponde a tudo e a todos, desesperadamente, exceto talvez o bálsamo da ilusão do infinito, e sua noia ubíqua como o ar,

Por Al Patino cego, cínico e louco em Perfume de Mulher, “Na dúvida, sexo.” e pelo bom humor,

Pelo ventinho atravessando a medula e arrepiando,

Pelo perdão que concede uma segunda chance,

Pela bailarina-anjo-de-areia e o coração dançarino e meus futuros filhos amamentando no seio de sua amável mãe,

Pelos direitos humanos, "a menina dos olhos de Deus" segundo Kant,

Por ti e por mim e por eles e pelos os que se foram e pelos os que virão... para sempre.

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A HERANÇA DA HISTÓRIA

II - TERRA E FOGO

“Você faz toda a diferença.” Ensaio sobre a cegueira

Graças quero dar ao divino labirinto dos efeitos e das causas

Pelas pinturas rupestres no complexo de cavernas do Santuário de Lascaux,

Pela original Epopeia de Gilgamesh e o Livro do Mortos,

Por Sócrates que preferiu beber a morte a si trair e por Heródoto, pai da História, que narrou às guerras grego-pérsicas,

Por Sidarta Guatama, “o desperto” e sua doutrina da impermanecia, sofrimento e não-eu,

Por Platão, embora tenha confundido tudo seccionando impossivelmente o mundo entre o real e o ideal, (talvez ele fosse o primeiro petista),

por Erastóstenes, observador assombroso que calculou a circunferência da terra há 2200 anos somente com seus olhos e seu cérebro, e o sonho solitário do insigne Kepler que revolucionou radicalmente toda a ciência,

Pelo psiquiatra quixotesco artista do sagrado amor imortal que tinha pés submarinos, mãos mágicas e asas invisíveis que fatiaram a História em antes e depois de sua paixão sem precedentes,

Pelos arcos pontiagudos da arquitetura gótica medieval e por Cavendish que isolou o hidrogênio e identificou a composição da água,

por Zumbi e o Quilombo dos Palmares que lutaram até a morte por seu sonho de liberdade e pelo escravo fugido de Morrison que preferiu matar os filhos a vê-los voltar para a fazenda onde eram animalizados,

pelo Discurso do Método de Descartes, e pela Revolução Francesa que guilhotinou reis, e seus ideais imortais de igualdade, liberdade e fraternidade,

Pelo Taj Mahal, sepulcro suntuoso do amor-paixão, pedra preciosa da perda e da dor dilacerante do luto, arquitetado para o réquiem da incomparável amada do príncipe mongol que morreu após dar a luz a um de seus filhos,

Pela obsessão de Tomas Edson e seu mantra do “Tente até conseguir” que nos renderam a extraordinária energia elétrica que os antigos não acenderam,

pelos irmãos Lumiére que inventaram a sétima arte fundindo todas as outras e formando uma representação completa e feérica da vida imagética, intensa e efêmera,

por um gênio brasileiro, Santos Dumont, o Homem que voou pela primeira vez, e seu 14-Bis, anterior a irmandade norte-americana,

Por Sartre e Simone de Beauvoir que gozaram o amor-livre e compuseram juntos e separados a filosofia da liberdade e a filosofia do feminino,

Pelo Ensaio Mental de Leonardo da Vinci, a Seleção Natural de Darwin, a Relatividade de Einstein, a Psicanálise de Freud (“Caráter é destino.”) e o pálido ponto azul de Carl Sagan, seu oceano cósmico, sua enciclopédia galáctica e a espinha dorsal da noite,

Por Churchill e pelos 156 mil soldados que desembarcaram ou saltaram de paraquedas na Normandia (o coração das trevas) para destruir as inumanas intenções imperialistas de Hitler, o Diabo com bigode de trocador da Univale,

por Hiroshima e Nagasaki que renasceram das cinzas radioativas depois do beijo da morte das ogivas nucleares,

pelas constituições do pós-guerra que representam a consciência do mundo e a garantia dos direitos individuais e sociais dos cidadãos em todos os países livres do Planeta Terra,

pelos civis, estudantes, jornalistas, políticos, juristas, intelectuais, escritores e artistas que combateram a Ditadura Militar e foram sequestrados, torturados e “desaparecidos” (“Se dez batalhões viessem à minha rua/ E 20 mil soldados batessem à minha porta/ Á sua procura/ Eu não diria nada / Porque lhe dei minha palavra” Legião Urbana),

pelos astronautas da Estação Espacial Internacional, sentinelas do espaço sideral incomensurável, indecifrável e inefável como um poeta recém-nascido de sua própria Morte que atirasse meteoros incandescentes pelos olhos e fizesse nevar onde neve não há, neve negra e ácida, nostalgia do nada,

pela Paideia, o Carpe Diem, o genoma humano, a Primavera Árabe, as Olimpíadas, o cibridismo, a futura Era Psicozóica e sua sublime Inteligência Universal,

por todas as vidas e culturas que se intersignificaram das cavernas ao computador e nossa geração google gasosa sem amanhã porque tudo é sempre agora em nossa Aldeia Global de índios interconectados pelo facebook, o whastsapp e a loucura líquida de nossa vida viciada, vida sem vida num zoológico de zumbis, e por mais amor, please!

Pela história da história que é história e nossa glória,

Pela chuva quando o coração é partido, sem soteriologia sentimental,

Pelo grande objetivo de uma vida bem-sucedida: tornar-se senhor de si mesmo,

E pelo escrito fascinante e final do Apocalipse:"E virá uma brisa do sul e trará a morte a todos."

E pelo velho bruxo do Cosme Velho que no seu leito de morte confessou: "A vida é boa.". Imagino que ele visualizasse diante de si não a morte, mas a sua "meiga Carolina.", onde estará a minha meiga Carolina, mestre Machado?

E por aquilo que sempre falta e eu não sei o que é, talvez amanhã, talvez menos, talvez treze nesse mosaico da morte.


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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