arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

NOS TEMPOS DA FACULDADE DE DIREITO

Mensagens referentes ao nosso convite de formatura que o meu querido amigo Artur tinha me encomendado para escrever em nome da turma e como eu me lembro que ele tinha me solicitado "Escreva algo simples, sincero e bonito, Thiago.". Bem, eu tentei!


nós.jpg Acima: a melhor turma de todos os tempos. O Artur é o primeiro da esquerda para direita! Como dizia o Renato Russo "É tão estranho, os bons morrem jovens!/ Assim parece ser quando me lembro de você/ que acabou indo embora/ cedo demais..."

DEDICATÓRIA

A DEUS

Deus, a luz primordial, que concedeu a Humanidade o misterioso dom da vida, da sabedoria e do amor, agradecemos pelo que havia antes de nascermos, o que existe agora e o que continuará existindo após nossa partida, esse planeta providencial e, a saber, único no Universo que o Senhor elegeu como nossa casa e onde compartilhamos de sua gloriosa generosidade. Agradecemos por nossa família e amigos e pela possibilidade preciosa que tivemos de cursar uma faculdade num país onde, infelizmente, poucos podem se orgulhar dessa grande conquista. O Senhor é nossa fonte de força e felicidade. Obrigado.

AOS PAIS

Aqueles que nos conceberam no fogo sagrado e puro do amor e nos amaram antes de nascermos, que nos sentiram crescer no ventre de nossa mãe, que celebraram com grande júbilo o nosso nascimento, que nos velaram durante a infância, toleraram na adolescência e nos guardam até hoje, embora adultos. Agradecemos o nobre sacrifício com o qual nos criaram, o afeto que nos nutriram, a paciência e os valores éticos com os quais nos educaram e constituem a base de nosso caráter. Tudo que somos devemos aos senhores, aos seus sonhos e esperanças, ao amor incondicional e imortal que recebemos e refletimos.

AOS MESTRES

Segundo o escritor Charles Kiefer “aprender e ensinar são uma coisa só”. Assim, por esse “processo dialético de ensino-aprendizagem” agradecemos a todos os nossos professores. Suas lições inspiradoras de Direito e Justiça contribuíram de forma fundamental para nossa formação jurídica e cidadã. Somos mais conscientes, responsáveis e solidários do que éramos antes de conhecê-los e admirá-los. Todo professor um dia foi um aluno e entende as dificuldades cognitivas do início, o desafio da evolução e o prazer do retorno do investimento no árduo e essencial estudo. O conhecimento é o segredo do sucesso.

AOS COLEGAS

Nossa turma é especial, heterogênea e humilde. Distinguimos-nos pela nossa união, formamos uma família legal e lendária. Inesquecível, esses 5 anos que compartilhamos experiências e emoções espetaculares e nos tornamos melhores como um todo. Seja na sala de aula, nas visitas aos presídios, nas viagens a Brasília, nas palestras do San Diego, nos estágios, no Núcleo de Práticas Jurídicas, nos Fóruns, nos Júris simulados, nas festas, nas conversas...Tudo valeu a pena. Que nossa carreira profissional seja tão brilhante quanto foi nossa trajetória acadêmica. Foi uma honra estudar ao lado de vocês.

MENSAGEM DA COMISSÃO

De repente, não mais que de repente, formamos a comissão, dividimos as tarefas entre os membros e trabalhamos duro na busca da excelência. Apesar das diferentes personalidades e opiniões chegamos sempre democraticamente a um consenso sobre a Formatura conforme legisla a Constituição. Foi intenso! Agradecemos aos que contribuíram para essa realização, além da confiança depositada em nós pelos colegas como representantes da turma. Esperamos ter surpreendido. Sentiremos saudades de tudo no futuro, mas como diria Drummond:

Boa sorte, doutores!

Acima: nossa colação de grau. A partir dos 17 minutos o último dos Moicanos (patrocinado pela Nike) declama seu poema em honra de seu amigo Artur Henrique, falecido prematuramente aos 22 anos. Shakespeare me disse uma vez: “Thiago, é preciso sair como se chega, quando for a hora.”. Eu para o bardo inglês: "Você tem certeza, Shakespeare, que era a hora?" A vida humana é finita, dura e imprevisível. Assim, o pouco e incerto tempo que temos deve ser sabiamente dedicado ao amor. Assim, amemos, queridos! Seja como for, foram anos incríveis. Valeu a pena! Cuidem-se, cachorros loucos! Inté!

Abaixo: poema que compus em homenagem ao saudoso amigo Artur Henrique

DO DR. ARTUR DORMINDO NA CABANA

A Artur Henrique Pacheco

Após o funeral, nos olhos de sua mãe havia uma tristeza infinita./ Como eu quisera ser Deus para mudar tudo do nada. Reiniciar sua luz limpa./ Sobre sua morte, eu disse a minha alma: “Isso é impossível.” Mas nada é impossível./ Então, vem comigo, vamos imaginar como seria sua vida se tivesse sido./

Primeiro, este momento não existiria e você teria sido o orador da turma./ Segundo, você provavelmente teria saído carregado de nosso baile de formatura./ Depois, venceria na vida, pouco a pouco, tornar-se-ia um grande advogado./ Casar-se-ia com uma boa mulher e teria filhos encapetados. Tu serias feliz, Artur./

Quem era o mais alto, moço, debochado, cândido e gentil de nossa turma triunfal?/ Quem me forçou a tirar a “boina brega” para a foto de formatura? Quem mais o faria?/ Quem era só alegria e curtia como louco os seriados americanos e a noite de Ipatinga?/ Quem venceu o Júri e realizou o sonho suado de passar na OAB antes de morrer?/ Quem transmitia informações ilícitas na hora da prova para os colegas folgados?/ Quem amava sua família acima de tudo e para ela sempre retornava nos feriados?/

Inexistir. A doce aurora da juventude fulminada por uma fatalidade. Ó, eclipse trágico./ O dançarino caiu convulso. O insonhável aconteceu. Neva em Minas. Neve cinza.../ Cotidiano carmesim. Direito é luta, luta pela justiça, luta pela liberdade, luta pela vida./ Contudo, nos perdemos essa luta. Que grande injustiça! Doloroso dilúvio de lágrimas.

Então, a morte de olhos escuros dá significado a vida de sorriso sedutor?/ Não há mais medo nem confusão mental nem dor. Não haverá sequelas, rei Artur./ Só o segredo silencioso e a saudade selvagem do que voltou para Deus aos 22 anos./ Obrigado por tudo, meu amigo. Nós te amamos e nunca te esqueceremos. Inté, pupão./

“No fundo de tudo quanto é delicado, encontra-se assim qualquer coisa de trágico. A terra esforça-se por fazer nascer a flor mais humilde...” Oscar Wilde

"Quando penso em alguém, só penso em você. E aí, então, estamos bem."


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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