arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor. E “tornar-me senhor de mim mesmo” é o meu grande objetivo em busca de uma vida que vale a pena ser vivida.

MENTES PERIGOSAS - O PSICOPATA MORA AO LADO

Vamos mergulhar agora no universo, na vida e na mente assustadora, intrigante e desafiadora de um psicopata fazendo a interseção entre Psicologia e Direito e analisando o ponto de vista dessas duas ciências em face da Psicopatia.


hannibal_lecter.jpg “Hello, Clarisse!”

O PASSAGEIRO SOMBRIO

“_O que você sente? _ Eu não sinto nada.” Dexter

Em seu esclarecedor livro Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado, a psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva reflete em seu primeiro capítulo sobre o valor fundamental da Consciência, a seu ver, o sexto sentido humano e o mais sofisticado e evoluído deles. Ana Beatriz enfatiza a idéia de a consciência ser a criadora do significado de nossa existência e explica a diferença entre estar consciente e ser consciente. Ela informa que estar consciente é fazer uso da razão ou da capacidade de raciocinar e de processar os fatos que vivenciamos. Já ser consciente refere-se à nossa maneira de existir no mundo, ao modo como conduzimos nossas vidas e nos conectamos com nossos semelhantes e, precipuamente, ser consciente é ser capaz de amar. A consciência é a responsável pela nossa razão e sensibilidade, ela nos motiva a viver com dignidade e respeito, a ter compaixão pelos dramas alheios, a nos sacrificar em situações extremas para ajudar os outros, a nos indignar diante de um preconceito, violência ou injustiça, a degradar o menos possível o sagrado meio ambiente ou simplesmente nos compele a apreciar a beleza de uma obra-de-arte. Em suma, a consciência está imersa nos nossos grandes e pequenos gestos cotidianos e somente ela é capaz de mudar o mundo para melhor.

O psicopata não tem consciência, eis a questão. É um passageiro sombrio na vida, por assim dizer, é um parasita e um predador. É incrível, mas esses vermes pseudo-humanos não possuem senso de responsabilidade ética, nunca sentiram ou sentirão qualquer espécie de inquietude mental, sentimento de culpa ou remorso por magoar, enganar e em última instância aniquilar a vida de outrem. Em sua obra supracitada, Ana Beatriz dá a César o que é de César, a Deus o que é de Deus, e ao Diabo o que é do Diabo ao afirmar categoricamente que embora estas criaturas do mal sejam detentoras da mesma racionalidade que nos define como espécie, não podem ser consideradas seres humanos como nós, dotados de compaixão e amor. Entretanto são mestres das máscaras, lobos disfarçados de ovelhas, atores da vida real, hábeis em camuflar seus instintos maquiavélicos e perpassarem insuspeitos por quase toda parte. Eles estão infiltrados entre nós, na nossa sociedade, no nosso governo, na nossa mídia, no nosso trabalho, no nosso bairro, na nossa família, ao nosso lado, quer queiramos ou não, e é imprescindível que aprendamos a detectá-los e a nos proteger desses homens e mulheres ocos e incuráveis.

Vamos mergulhar agora no universo, na vida e na mente assustadora, intrigante e desafiadora de um psicopata fazendo a interseção entre Psicologia e Direito e analisando o ponto de vista dessas duas ciências em face da Psicopatia. É um mergulho profundo na escuridão da alma humana. Um lugar em que o amor inexiste e a compaixão é um conceito entendido intelectualmente, reproduzido artificialmente, mas jamais sentido em verdade. Ao mesmo tempo procuramos responder as perguntas mais freqüentes do público leigo acerca do assunto. Psicopatas: Quem são? O que podem fazer? Como funciona o cérebro deles? Como reconhecê-los no seio social, no campo afetivo e no mundo profissional? Como sobreviver a eles? Como o Sistema Judiciário lida com esses facínoras? A ciência médica pode curá-los ou não?

psicopa.jpg Acima: capa do magistral e pedagógico livro Mentes Perigosas - o psicopata mora ao lado

UMA BREVE HISTÓRIA DO MAL

“Nós, os psicopatas, somos seus filhos, seus maridos. Estamos em todo lugar. E haverá mais de suas crianças mortas amanhã.” Ted Bundy

Primeiramente, é necessário fazer uma distinção entre o psicótico e o psicopata. O psicótico é o doente mental, o esquizofrênico, o louco. Apesar da palavra psicopata literalmente significar doença da mente (do grego, psyche = mente; e pathos = doença), o psicopata não padece de nenhum sofrimento ou desorientação psíquica. Ele possui uma disfunção comportamental, têm um déficit emocional, contudo sua parte cognitiva é perfeita. Os psicopatas são pessoas sem sentimentos e sem consideração, por assim dizer, e incapazes de seguir voluntariamente regras sociais. Esses seres corrosivos sabem o que fazem, quando fazem e com quem fazem. Por isso podem e devem ser punidos pela Lei por seus atos sórdidos. Os psicopatas recebem outros nomes, tais como: sociopatas, personalidades anti-sociais, personalidades psicopáticas, personalidades dissociais, entre outros. Muitos estudiosos preferem diferenciá-los, com explicações que não configuram um consenso científico. Para Ana Beatriz: “Os psicopatas em geral são indivíduos frios, calculistas, inescrupulosos, dissimulados, mentirosos, sedutores e que visam apenas o próprio benefício. Eles são incapazes de estabelecer vínculos afetivos ou de se colocar no lugar do outro. São desprovidos de culpa ou remorso e, muitas vezes, revelam-se agressivos e violentos. Em maior ou menor nível de gravidade e com formas diferentes de manifestarem os seus atos transgressores, os psicopatas são verdadeiros "predadores sociais", em cujas veias e artérias corre um sangue gélido.”

Quando a psiquiatra diz “em maior ou menor nível de gravidade” é porque os psicopatas são classificados por níveis: leve, moderado e severo. Os psicopatas leves e moderados também denominados psicopatas comunitários são aqueles que não matam, mas deixam um rastro de corações vilipendiados, cofres raspados e destruição por onde passam. São os bajuladores, os mitômanos, os estelionatários, os políticos corruptos, os contrabandistas, as pessoas que maltratam crianças e animais, que se envolvem no tráfico de drogas, em brigas no transito, maridos que espancam suas companheiras, líderes religiosos esquálidos, parentes que interveem tragicamente na vida de seus familiares causado-lhes dores devastadoras e perdas irreparáveis e profissionais desleais. Eles exploram a boa fé, as fraquezas e carências de pessoas íntegras e ingênuas e as seduzem para aplicar pequenos e grandes golpes financeiros, conseguir sexo fácil, drenar a conta bancária e emocional do parceiro, roubar o salário mínimo de idosos aposentados, extorquirem dinheiro, imporem sua vontade etc. Os psicopatas graves são os assassinos em série (serial killers), os que cometem crimes hediondos e exterminam com requintes de crueldade, são os pedófilos, os violadores, os antropófagos, os necrófilos, os seqüestradores covardes, os defenestradores de crianças, as parricidas loiras, os incendiários de índios, os empaladores, os terroristas-bomba, etc. Embora algumas pessoas se recusem a acreditar (inclusive indivíduos cultos e com razoável capacidade intelectual) o mal existe. É hodierno. A psicopatia é o mal materializado no agente do psicopata. De fato é muito complicado, principalmente quando se tem um vinculo afetivo unilateral com um desses vampiros insaciáveis, compreender as intricadas idiossincrasias de sua natureza selvagem e aceitar que são uma causa perdida talvez para sempre.

coraçao13.jpg “Sabe, eu sou o clássico caso do menino pobre que fica rico. Daí a forte reação das pessoas ao “Seduza” (Nesse filme Tom Cruise interpreta um psicopata comunitário que orienta num programa de televisão os homens a se darem bem com as mulheres, seu lema e base de sua filosofia sexual é “Seduza e Destrua”) Porque no fim do dia “Seduza” não é só sobre conquistar e trepar e colocar o pênis na vagina. É sobre descobri quem você pode ser neste mundo. Defini-lo, controlá-lo. E dizer: “Vou levar o que é meu.” E se lhe fazem uma chupeta...Qual o problema? Por que não?” Do psicodélico Magnólia

Os psicopatas são indivíduos que podem ser encontrados em qualquer raça, cultura, sociedade, credo, sexualidade, ou nível financeiro. Estão infiltrados em todos os meios sociais e profissionais. Em geral não se parecem com a imagem inconsciente e cinematográfica que nutrimos deles, a de um ser fechado, sinistro e sanguinário como o Jason do Sexta-feira 13. Ao contrário desse mito coletivo, eles costumam ser charmosos, eloqüentes, proativos, divertidos, carismáticos. Os psicopatas nascem psicopatas, sabem que são psicopatas, sabem que estão infringindo regras sociais e normas jurídicas, tem livre-arbítrio para escolher esse caminho ou não e não desejam mudar seu jeito de ser e viver no mundo, pois julgam-se auto-suficientes, onipotentes e irresistíveis e se orgulham de si mesmos por terem uma inteligência em regra acima da média, habilidade para ludibriar, cativar e intimidar suas inocentes presas.

Incapazes de um procedimento laboral, solidário ou altruístico eles se importam tão somente em satisfazer seus interesses e suas necessidades de prazer, poder, status e dominação. Descrevem suas vidas como uma hagiografia sofrida em que interpretam sempre o papel de heróis imolados. Utilizam o discurso da pena para atrair seus hospedeiros e o discurso da culpa para manipulá-los ao máximo. Esses canalhas desalmados e desapaixonados tentam demonstrar conhecimento em diversas áreas como filosofia, arte, literatura, sociologia, poesia, medicina, psiquiatria, psicologia, administração, legislação e usam e abusam dos termos técnicos, passando credibilidade aos menos avisados. Quando desmascarados não demonstram nenhum sinal de preocupação ou constrangimento. Quando submetidos a algum tipo de psicoterapia, é mais provável que se utilizem das informações obtidas nas sessões para aprimorar seu jogo de manipulação e sedução. Psicopatas incorporam os jargões aprendidos e aperfeiçoam sua capacidade de ludibriar e talar.

lobo-em-pele-e-cordeiro.jpg “Você me completa.” Coringa para Batman

Estudos revelam que há três fatores de riscos para o desenvolvimento da psicopatia: a predisposição genética, ambiente hostil e possíveis lesões cerebrais no desenvolvimento do indivíduo. Até os 18 anos a nomenclatura ortodoxa para a psicopatia é “transtorno de conduta”, isto porque o menor não pode ser diagnosticado como Psicopata, uma vez que legalmente não pode ser considerado plenamente responsável por seus atos. A psicopatia não tem cura e é inatacável em adultos, mas se as crianças com tendência a ela forem educadas desde a infância com um rígido código de conduta podem ter seus efeitos modulados a níveis toleráveis. Assim, segundo Ana Beatriz é mais sensato falarmos em ajuda e tratamento para as vítimas dos psicopatas do que para eles mesmos. Quando constituem famílias (cônjuges e filhos) os psicopatas não o fazem por sentimentos amorosos, mas sim como um instrumento necessário para construir uma boa imagem perante a sociedade. Egocêntricos, megalomaníacos, filauciosos, frios e sádicos, não sentem medo nem empatia nem culpa nem têm caráter. Como poderiam ser humanos?

Segundo a Associação Americana de Psicopatia (APA, sigla em inglês), 3% dos homens e 1% das mulheres são psicopatas. Isto é, são portadores do chamado Transtorno de Personalidade Antissocial (TAPS), palavra da bíblia dos psiquiatras, o Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais da APA. A população mundial atual totaliza 6,5 bilhões de pessoas. Isso que dizer que existem mais de 250 milhões de psicopatas espalhados pela grande ilha azul da Via Láctea.

psicopata-sintomas-caracteristicas-14_0.jpg “Amo muito” desde que você faça o que quero, irmãzinha querida.

A morfologia do cérebro do psicopata é diferente da de um cérebro normal ou com outros transtornos. Num estudo com ressonância magnética de altíssima precisão, os neurologistas brasileiros Jorge Moll e Ricardo de Oliveira Souza da Unidade de Neurociência Cognitiva e Comportamental da Rede Labs-D’Or, do Rio de Janeiro, após submeter 15 pessoas diagnosticadas como “Psicopatas comunitários” a diversas imagens e sons, alternando entre cenas horripilantes com direito a corpos estendidos no chão com veias jugulares perfuradas jorrando sangue, olhos dilacerados e tripas expostas, e imagens neutras ou doces como as de uma corrida de cavalos no Jockey Club, um crepúsculo no Arpoador ou a de um casal de namorados se beijando romanticamente, concluíram que no cérebro do psicopata há poucas atividades nas estruturas ligadas as emoções morais e primárias (aquela que compartilhamos com os animais como o medo e a raiva.) e um aumento nas atividades dos circuitos cognitivos (responsáveis pelos julgamentos morais). Ou seja, o conteúdo das imagens lhes foi indiferente e não apresentaram sequer variação de seus batimentos cardíacos durante as cenas pesadas. Destarte, os psicopatas comunitários assim como os violentos, parecem funcionar com muita razão e pouca emoção. Quando um psicopata ouve o vocábulo compaixão ele o racionaliza literalmente, mas não consegue apreciar seu conteúdo emotivo. Ao ouvir a palavra bondade ele sente o mesmo que ouvisse “caixa”. Todo ser humano possui no cérebro uma região chamada de sistema líbico que seria a central das nossas emoções. O psicopata nasce com essa central desativada. Paradoxalmente, se os psicopatas não sentem emoções são viciados em adrenalina e perigo. Para evitar o tédio eles partem para drogas, aventuras e crimes como disputas de rachas, assaltos, golpes, estelionato, estupros, lutas corporais e assassinatos.

augusto.png “Oh, tão prazeroso consolar uma mulher triste.” Augusto, em Ligações Perigosas. É evidente pela maneira como seduzem e destroem as pessoas que Augusto e Isabel são psicopatas comunitários

NÚMEROS PSICOPÁTICOS

75% dos psicopatas são do sexo masculino. 50% usam drogas ilícitas 70% são dependentes de álcool (21 vezes mais do que a população em geral) 70% deles reincidem no crime após cumprir a pena 25% dos maridos que espancam suas esposas são psicopatas O psicopata comente 4 vezes mais crimes violentos que o criminoso comum. 20% da população carcerária é psicopata e esses 20% são responsáveis por mais da metade dos crimes violentos entre presidiários Psicopatas cometem 44% de homicídios de policiais nos EUA A probabilidade de o psicopata matar estranhos é 7 vezes maior que entre outros criminosos 50% dos psicopatas reduzem sua atividade após os 40 anos. 86% dos serial killers são psicopatas e os outros 9% tem traços antissociais, insucifientes para o diagnóstico de psicopatia. 75% dos serial killers registrados estão nos EUA 1 para cada 20.000 psicopatas são serial killers

“Se eu pudesse mandaria fuzilar todos vocês.” Pink Floyd


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor. E “tornar-me senhor de mim mesmo” é o meu grande objetivo em busca de uma vida que vale a pena ser vivida..
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