arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

LOUCO POR LOST

Talvez com o fim de Lost não precisemos mais recuar no passado ou avançar no futuro ou mesmo fugir para uma realidade alternativa. Redimidos, podemos nos encontrar e viver o presente, ver e sentir o que está acontecendo, ao vivo, aqui e agora.


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“O seriado é uma narrativa complexa sobre pessoas e suas diversas relações, que utiliza elementos místicos e enigmáticos como meio de conduzir estas pessoas a lugares e situações diversas para que descubram mais sobre seu próprio eu e a sua própria redenção.”

Eu vi, vivi, amei e perdi Lost. Entre enigmas absurdos que se tornam curas milagrosas, ursos polares, fumaça preta assassina, flashbacks e flashforwards e até flash-sideways, fantasmas do passado, visões do futuro, viagens no tempo, universos paralelos, mortos-vivos, laboratórios subterrâneos, a Iniciativa Dharma, o templo, vidas interativas, triângulos amorosos, teorias conspiratórias esquizofrênicas (manipulação alienígena, delírio coletivo, Caverna do Dragão pós-moderna, nuvem nanobótica) dos fãs agora órfãos, guerra entre fé e razão, bem e mal, amálgama entre física e filosofia, diegeses, Lost foi genial, fenomenal, dramático, intenso, extravagante, inaudito e viciante.

Eu também joguei golfe com Hurley, Michael e Jim e passeie com eles na Kombi caindo aos pedaços da Instituição DHARMA. Cultivei a horta com Sun. Toquei com o viciado Charlie na Drive Shaft. Velei a Ilha na Estação Cisne, Pérola, Orquídea e Hydra. Viajei no tempo com Desmond para ajudá-lo a encontrar sua “constante” Penelope Widmore. Afinal, sem o amor sempre estaremos perdidos? Ganhei na loteria com Hurley e vi um meteoro cair diante de nossos olhos oblíquos. Cuidei do bebê da Claire enquanto ela dormia. Fui raptado com o Walt pelos Outros. Vislumbrei entre Jacob e MIB a chegada do Black Rock na Ilha. Lamentei com o torturador iraquiano Sayid a morte estúpida de Nádia e como ele me tornei um assassino frio por ódio ao mal-banal.

Eu também cacei javalis selvagens com o Locke para alimentar os perdidos na ilha insana e perigosa. Dormi com eles nas cavernas ouvindo sussurros que derrubavam árvores. Visitei Locke numa comunidade de plantio de maconha. Depois observei com pesar seu rim ser roubado pelo seu próprio genitor a quem ele ainda mendigou vergonhosamente o seu amor “Por que você não me ama?”, e, por fim, ser empurrado da janela do 8° andar por seu pai-psicopata perdendo assim o movimento das pernas; Brinquei com os loucos junto de Hurley no instituto mental Santa Rosa. Encarei O Monstro com o ex-traficante Eko. Matei com Kate seu padrasto abusivo, desenterrei a Cápsula do Tempo com ela debaixo da árvore, assaltamos bancos e fizemos amor.

Eu observei escondido debaixo da cama com o menino Sawyer seu pai assassinar sua mãe adúltera e depois se suicidar. Enlouqueci de solidão com a misteriosa Rousseau. Curei a paraplegia de Sarah com o Jack. Fiquei digitando por anos um código para salvar o mundo com Desmond dentro da escotilha. Tentei suicídio com Jack na ponte, mas a Luz nos salvou. Detonei a bomba de hidrogênio com Juliet para salvar nossos amigos. Vi o Monstro massacrar os habitantes do templo. Ouvi os mortos como o Miles. Dei saltos no tempo com Faraday. Fugi da ilha num submarino para depois voltar porque “A Ilha queria que eu voltasse.”. Tomei decisões difíceis e confrontei erros do passado. Protegi com Jacob a Luz da Ilha. Matamos o monstro e morri com Jack.

Acima: a linda, doce e triste Life and death, tema de Lost

Talvez com o fim de Lost não precisemos mais recuar no passado ou avançar no futuro ou mesmo fugir para uma realidade alternativa. Redimidos, podemos nos encontrar e viver o presente, ver e sentir o que está acontecendo, ao vivo, aqui e agora. Não estamos mais perdidos e não precisamos mais fugir. Nossa sede de ficção científica sobrenatural foi estancada. Obrigado por tudo, Lost. Descanse em paz. Sempre te amarei.

Dez frases marcantes de Lost

1. Não me diga o que eu não posso fazer. 2. É perigoso perder a esperança. 3. “What happend, happened” (O que aconteceu, aconteceu) 4. Quando você é bom em alguma coisa tem sempre alguém tentando derrubá-lo. 5. Eu te vejo em outra vida, irmão. 6. Tudo acontece por uma razão. 7. Não confunda coincidência com destino. 8. Você tem que fazer sua própria sorte. 9. Nós temos que voltar! 10. Foi um sacrifício que a Ilha exigiu.


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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