arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

A HISTÓRIA DO CAVALEIRO BRASILEIRO...

O cavaleiro brasileiro era um homem elegante e gentil. Eu me lembro. Enquanto o narrador só faltou amaldiçoar o cavalo ele abaixou a cabeça chegando à dele próxima a do animal e disse qualquer coisa inaudível enquanto acariciava seu rosto para acalmá-lo. Eu não sei o que disse o nobre cavaleiro brasileiro. Talvez ele tenha dito “Me desculpe, querido!” Talvez ele tenha dito “Está tudo bem.”.


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Foi numa Olimpíada, já não me lembro qual. Minha memória é um labirinto. Eu poderia pesquisar agora no Google e escrever um depoimento mais rico e refinado, mas prefiro reconstituir aquele momento de memória, de maneira rudimentar e espontânea. A competição era na modalidade de hipismo. Eu estava sentado na sala sozinho assistindo. Era a final. Valia a medalha de ouro. Havia cinco cavalheiros na disputa: um americano, um russo, um alemão, um italiano e um brasileiro. A rigor, o hipismo basicamente se compõe de obstáculos que os cavalos devem saltar para completar sua trajetória no corpo de uma pista. Quem saltar os obstáculos com maior perfeição em menos tempo é o vencedor. Havia vários obstáculos ao longo do caminho que os cavaleiros deviam sobrepujar, mas o penúltimo era gigantesco, um desafio demoníaco, quase invencível.

Assim, eu vi, não me esqueço, o americano saltar todos os obstáculos com esmero até chegar ao penúltimo que tinha não sei quantos metros de largura, e ao saltar ele falhou, o cavalo derrubou o obstáculo. Com o russo deu-se o mesmo, igualmente com o alemão e o italiano. Eu me lembro do narrador dizer “Ninguém conseguiu completar a prova com perfeição. O penúltimo obstáculo é aparentemente insuperável. Mas se o brasileiro conseguir a façanha de saltá-lo sem derrubá-lo será medalha de ouro, pois nenhum outro conseguiu.”. Assim como os outros o brasileiro desenvolveu sua prova com precisão até chegar ao penúltimo obstáculo, se o cumprisse provavelmente seria medalha de ouro porque depois dele havia um obstáculo banal, só para enfeite que não representava risco nenhum, todos os cavalheiros o venceram facilmente, sem acidentes na prova dos saltos. É preciso ter talento para ser um grande cavaleiro além de muito dinheiro.

O difícil era o penúltimo, largo, insano, duríssimo de se saltar sem tocar em alguma barra. Eu me lembro que fiquei vidrado. Imagina quanta honra superar o americano, o russo, o alemão e o italiano sendo um brasileiro? Afinal, eles se acham tão superiores a nós! E eu vi o brasileiro desenvolver sua prova com supremacia e serenidade e marchar para saltar o penúltimo obstáculo. Em verdade, para minha surpresa, o brasileiro era o cavaleiro favorito. Assim disse o narrador: “O melhor cavaleiro com o melhor cavalo.”. Se alguém poderia transpor aquele obstáculo exorbitante e infernal seria ele, o cavaleiro brasileiro, altivo e desassombrado. Então, ele cavalgou... imperial, viril, intrépido e saltou (suspense!) com perfeição! Eu levantei do sofá e disse “É isso, garoto!” e o narrador gritou “O brasileiro conseguiu! Ele saltou o grande penúltimo obstáculo! Foi o único, será ouro para o Brasil na modalidade de hipismo. Só falta saltar o último obstáculo que é o mais fácil...”. Tudo que ele tinha que fazer era completar a prova para ser o medalha de ouro. Expectativa, suspense e torcida na pista. Emoção. O coração pulsando com tensão e apreensão. Sempre o coração que espera pelo melhor em vão?

Era só saltar o último obstáculo, inexpressivo. O brasileiro marchou para ele e quando foi saltar diante do último obstáculo que garantiria a medalha de ouro o melhor cavalo não saltou. Ele empacou diante do obstáculo banal para decepção universal. “O que? Não acredito!” Gritou o narrador, incrédulo e arrasado! Eu não disse nada. Mas meu coração congelou. Meu coração partiu. “Por que, o que aconteceu?” Perguntou o narrador. Eis a resposta: tudo tem um preço e o preço de saltar o penúltimo obstáculo, o pequeno milagre que o cavaleiro brasileiro conseguiu e que os outros cavaleiros não lograram êxito foi a custa de forçar para além do limite a capacidade de salto, o corpo e os músculos do cavalo. Ele saltou o penúltimo obstáculo com perfeição embora fosse quase impossível. Estava ali propositalmente para separar os homens dos deuses. Mas ao fazer isso ele se machucou muito. (O cavaleiro brasileiro exigiu demais do cavalo.) O animal destroncou uma perna e não teve força para saltar o derradeiro e decorativo obstáculo. Ele queria saltá-lo, é claro, mas ele não podia mais.

O cavaleiro brasileiro era um homem elegante e gentil. Eu me lembro. Enquanto o narrador só faltou amaldiçoar o cavalo ele abaixou a cabeça chegando à dele próxima a do animal e disse qualquer coisa inaudível enquanto acariciava seu rosto para acalmá-lo. Eu não sei o que disse o nobre cavaleiro brasileiro. Talvez ele tenha dito “Me desculpe, querido!” Talvez ele tenha dito “Está tudo bem.”. Eu não disse nada. Mas eu chorei. Porque aquilo era injusto. A medalha de ouro deveria ter pertencido a quem a merecia, o único que superou o penúltimo obstáculo, o cavaleiro brasileiro. Contudo, mesmo não tendo conseguido completar a prova, pois o cavalo se recusou a saltar o obstáculo, o brasileiro ficou na pontuação geral com a medalha de prata. Ao que parece o cavaleiro brasileiro não seguiu o conselho de Nicolau Maquiavel “Se seu melhor cavalo quebrar a perna abandone-o.” Algo me diz que eles se recuperaram e seguiram em frente. Afinal, provaram que eram o melhor cavaleiro e o melhor cavalo. Agora salte para a vitória.


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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