arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

UM LUGAR AO SOL

Assim caminha a humanidade na voragem do vício onde os brutos também amam. E o sublime amor pode ser fatal. Resta-nos uma última pergunta a ser feita na solidão dos sonhos: até que ponto você chegaria por um lugar ao sol?


nas minhas maos (1).jpg “A razão não é senão uma escrava da paixão.” Dostoievski

Dirigido por George Stevens e roteirizado por Harry Brown e Michael Wilson, A Place in the Sun 1951 ou “Um Lugar ao Sol”, título em português, é um filme ianque adaptado da obra Uma Tragédia America, de Theodore Dreiser. Um Lugar ao Sol é também um drama romântico jurídico, por assim dizer, vencedor entre outros do Globo de Ouro 1952 (EUA) na categoria de melhor filme – drama, e dos Oscar de melhor direção e melhor roteiro de 1952. Não pretendemos blasonar conhecimento técnico cinematográfico que não possuimos, todavia nossa sagrada opinião fazemos questão de compartilhar com nossos nobres leitores.

Um Lugar ao Sol exibe uma trama arrebatadora numa soberba fotografia em preto e branco e narra a história de George Eastman (Montgomery Clift), um ambicioso jovem que odeia seu passado de privações e está disposto a “vencer na vida” a qualquer preço. Oriundo de uma família de missionários “hippies” a qual ele despreza até a morte, George consegue um emprego na fábrica de confecção de trajes de banho femininos de seu tio milionário. Obcecado por um futuro melhor, ele julga que este trabalho servirá de degrau para sua escalada social. Apesar de ter sido alertado para não se envolver com nenhuma funcionária da fábrica, ele seduz Alice Tripp (a incrível atriz Shelley Winters) uma moça humilde e ingênua que trabalha na linha de montagem.

umlugar ao sol.jpg "Nada é bastante para quem considera pouco o suficiente." Confúcio

No meio do caminho tinha uma Cleópatra. Vivida por nada menos nada mais (até porque não poderia haver nada mais em parte alguma) que a absurdamente bela atriz Elizabeth Taylor na tenra juventude, Angela Vickers brilha e impera como a sofisticada personagem socialite por quem George se apaixona perdidamente e é correspondido graças ao seu charme de primo pobre com potencial para ascensão meteórica.

Em pouco tempo de trabalho George é promovido, finalmente eleva-se a sociedade aristocrática para qual fora invisível até então e decidi se afastar de Alice para se casar com Ângela. Porém é demasiadamente tarde para manipular o universo e se esquivar do destino. Quando vai terminar tudo com Alice ela anuncia “Temos um problema”. Alice estava grávida com G maiúsculo. Ela pressiona agressivamente George a se casar, obstinada a não perder seu grande amor “Estou cansada de esperar você. Você se casará comigo amanhã ou conto tudo aos jornais e logo depois me suicido.”. George afeta satisfazê-la, mas sabe que isso implicaria na renúncia de seus sonhos augustos e um desespero violento e sinistro o possui.

"Conte para a mamãe. Conte tudinho para a mamãe."

Quando houve no rádio o alerta para que se tenha cuidado ao nadar num lago da região onde vários casais tinham se afogado no verão, aquela notícia penetrou profundamente em sua alma atormentada despertando idéias terríveis. Então, George levou Alice para um inocente passeio de barco no lago perto do anoitecer. Entretanto desistiu do plano de assassiná-la e após uma discussão passional em que Alice o acusa de desejar sua morte, o barco acidentalmente vira nas águas gélidas do lago de estimação de Liz. O genial é que não mostra o que aconteceu depois. Amanhece e o filme salta para a parte em que George emerge solitariamente das águas lúgubres e foge pela floresta fechada. Após esse acontecimento cai nas garras da polícia e é entregue a Justiça para ser julgado pela morte de Alice. A ambigüidade reina durante o julgamento até a sentença. “Pobre, George!” É estranho, mas torcemos para que ele seja inocentado. Afinal, como saber o que aconteceu de fato? Para utilizar de um brocardo jurídico famoso “In dubio pro reo” que significa “Na dúvida decida-se em favor do réu.”

Sob o signo do ódio é talvez impossível compreender George, mas se afinarmos nossa visão empática poderemos ver através do abismo amoroso que ele parecia ser “um joguete do destino.”, elegante expressão shakespeariana da peça Romeu e Julieta. É preciso reconhecer que os deuses foram cruéis com o pobre George dando-lhe tudo primeiro para depois tirar-lhe até o que não tinha, o futuro. Afinal, ele foi condenado a morte na cadeira elétrica. O filme me parece ser uma mensagem monstruosa e preconceituosa para os americanos desafortunados: pau que nasce pobre se tentar a sorte grande morre eletrocutado. Talvez transcenda essa nossa interpretação dos fatos. Talvez seja uma trágica história de amor verdadeiro que o devir (movimento pelo qual as coisas se transformam) quem sabe por inveja fez tudo para decepar e decepou.

cadeira-eletrica.jpg Recado de George para sua mãe: “Mamãe, condenaram-me, George.”

Assim caminha a humanidade na voragem do vício onde os brutos também amam. E o sublime amor pode ser fatal. Resta-nos uma última pergunta a ser feita na solidão dos sonhos: até que ponto você chegaria por um lugar ao sol?

"Adeus, George." Angela


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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