arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

UMA METAMORFOSE MORAL

Alguém gostaria que seus ascendentes ou descendentes fossem difamados? Então, por que falar mal dos outros? Por que ser tão raso, egoísta e inseguro a ponto se deliciar com as falhas alheias?


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Não devemos falar mal dos outros simplesmente porque isso não é ético e como nos ensinou todos os grandes filósofos desde Aristóteles até Luc Ferry a vida que vale a pena ser vivida é a vida ética. Segundo uma pesquisa americana falar mal dos outros é uma forma de atrair a atenção para si e reforçar o elo com o interlocutor. É claro que vivemos numa sociedade capitalista, competitiva e corrupta, logo somos incentivados pelo meio a falar mal uns dos outros. Citando o autor do texto verdade mundial: “Não raras vezes, uma ‘língua solta’ vem acompanhada de uma mente tíbia, um raciocínio raso e um temperamento descontrolado.” Você conhece alguém que tenha exatamente todas essas características? Você as admira ou despreza? Então, na vida devemos ser aquilo que admiramos e está com quem admiramos e não com quem desprezamos. Não podemos compactuar com o que há de pior na humanidade: o preconceito e a hipocrisia. Devemos desenvolver o que há de melhor na humanidade: a bondade e a generosidade.

Eu me lembro de uma frase terrível do Ivan Martins, editor da revista Época, que dizia assim “Segundo minha experiência existem duas coisas que só pioram com o tempo: caráter e aparência.”. Eu não concordo complemente com essa sentença, embora reconheça que ela vale para a maioria. Graças a Deus existem as exceções e ouso dizer que sou uma delas. Eu nunca fui de falar mal dos outros em demasia, mas conheço e até amo pessoas (alguns familiares e amigos) que, infelizmente, têm a língua solta. O processo de perfectibilidade do ser humano na vida é contínuo e perpétuo e hoje, graças a Deus, eu sou um homem muito mais ético do que era até bem pouco tempo atrás, muito mais maduro, muito menos fechado, orgulhoso, egoísta, invejoso e muito mais empático, compreensivo e solidário. Eu já fui terrivelmente imaturo, já magoei quem amava, já falei mal dos outros para passar tempo como todos, mas hoje eu me policio politicamente, por assim dizer. É uma questão de ser fiel aos meus princípios e um deles é me tornar semelhante aquilo que admiro. Ou seja, ser ético, educado e empático, além de respeitar a subjetividade, a vontade e os direitos dos outros em sua totalidade. Lembrando: falar a verdade não é o mesmo que falar mal. Sem a verdade não há justiça.

Em verdade, o aumento da autoestima nos propicia uma visão mais elevada e humilde da vida, de nossa fragilidade, falibilidade e mortalidade. Por isso é significativo aprender a amar no sentido profundo e abrangente da palavra, o querer o bem sem olhar a quem. Eu adotei o método anti-hipocrisia do médico Flávio Gikovate que consiste em se interrogar se eu não cometeria o mesmo erro se estivesse na situação de quem critico. Mesmo que a resposta seja “não” resta a mim o direito do perdão. Outra coisa que aprendi com o tempo e da qual sentia vergonha. Principalmente quando se é homem se é ensinado a ser impiedoso desde a infância. E a vida não é assim. A vida é tentativa e erro, um labirinto no qual muitas vezes precisamos de ajuda para escapar. Por isso é primordial exercitar o auto-aperfeiçoamento que se fundamenta na prática da autocrítica e da auto-reflexão e também no cultivo da virtude da alteridade e da solidariedade.

Talvez uma boa idéia para ajudar a pensar numa mudança de comportamento fosse adotar o hábito de não fazer aos outros o que não gostaríamos que fizessem conosco, ou melhor, não fazer aos outros o que não gostaríamos que fizessem com quem mais amamos. Alguém gostaria que seus ascendentes ou descendentes fossem difamados? Então, por que falar mal dos outros? Por que ser tão raso, egoísta e inseguro a ponto se deliciar com as falhas alheias? Será que você não possui as suas bem com as pessoas que você ama? Ninguém é perfeito. Todos são constituídos de qualidades e defeitos, vícios e virtudes, erros e acertos. E cabe a nós mesmos buscar nossa excelência pessoal e tentar ser seres humanos cada vez mais humanos e quando não pudermos ajudar alguém devemos tentar não prejudicá-lo. E se não pudermos falar o bem devemos silenciar e ir cuidar da nossa vida, do nosso projeto de vida, da nossa família e desejar a todos saúde, sucesso e felicidade. Por que não? Isso não seria uma metamorfose moral magnífica? Cultive a sabedoria do silêncio e evite perdas e danos desnecessários.


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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