arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

A DESPEDIDA QUE NÃO HOUVE

A culpa não foi minha. Era impossível não amá-la. Eu era um poeta e ela era uma musa meiga de Nabokov. O que será que aconteceu com ela, Jesus? Será que virou atriz da Globo? Será que está presa numa ilha?


giovanine.JPG Acima: Colégio Alberto Giovanini onde tive meu primeiro encantamento.

Essa semana, mais precisamente na terça-feira à noite, ouvi um trecho de uma crônica antiga de Rubem Braga que eu li quando era adolescente e estudava no Colégio Giovanini. A crônica chama-se “Despedida” e era, acredito eu, sobre um casal que se amava, mas se perdeu. O trecho que eu ouvi até hoje sangra no coração dos sem sorte: “Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.” A-d-e-u-s. Adeus?

Aquela “Despedida” era sobre alguém que perdeu a esperança no amor. Não é o meu caso, é claro. Todavia o trecho anterior ao supracitado dessa crônica é ainda mais triste: “Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.”

Se eu tivesse imaginação para interpretar o sensível cronista diria que o inverno é sobre os danos que a solidão pode causar, que é uma imagem desesperada da falta de amor. O que seria o titeriteiro inábil? O destino, talvez? O verão com certeza é o amor. Solar.

Então, naquele tempo eu amava a biblioteca do Colégio Giovanini. Foi lá que conheci Dostoiévski e me perdi. Pensei que ficaria perdido para sempre, mas o Direito me salvou de mim mesmo. E eu agradeço. Do nada me lembrei de outra crônica do brilhante Braga que li na mesma época e que não sei por que sempre me lança a uma noite fantasmagoricamente febril e melancólica que nunca acabou na minha alma. Essa crônica era sobre um nadador que morreu afogado e a namorada dele ficou triste, mas logo arrumou outro. É a vida. No final o escritor dizia “Estou cansado, complemente cansado, meu amor...” Também eu estou cansado da violação dos direitos humanos.

Não posso ler Rubem Braga agora que me tornei um advogado ou estou me tornando um advogado criminalista porque ser é se tornar também e há pessoas que levam muitos anos para se tornarem o que são ou para voltarem a ser o que eram antes de algum golpe sujo desfigurar sua identidade e essência. Não posso ler Rubem Braga porque fico sentimental e você sabe, as pessoas sentimentais são vulneráveis e ninguém contrata um advogado vulnerável. Afinal... Espera-se que um advogado seja um cão de guerra elegante, disposto a matar e morrer pelo seu cliente com “sangue nos olhos”. Sejamos.

Hoje sou um advogado. No futuro talvez um juiz. Outrora fui um poeta quando eu era adolescente, estudava no Colégio Giovanini e amava uma menina linda que namorava um cara chamado “Feim”. Foi a primeira mulher que eu amei. Como dizia Raul “Ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez.” A culpa não foi minha. Era impossível não amá-la. Eu era um poeta e ela era uma musa meiga de Nabokov. O que será que aconteceu com ela, Jesus? Será que virou atriz da Globo? Será que está presa numa ilha? O Natal está chegando. Peça coragem ao bom velhinho e despeça-se da dor.

“Tudo que nos separava subitamente falhou.” Rubem Braga


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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