arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor. E “tornar-me senhor de mim mesmo” é o meu grande objetivo em busca de uma vida que vale a pena ser vivida.

CRÔNICA DE CARNAVAL

Segundo o Cortella a ética é a solução para a crise do Brasil e, por extensão, da nossa. Se isso for verdade basta colocar em prática seus fundamentos, ou seja, o respeito aos nossos direitos subjetivos e o respeito aos direitos alheios.


mulher maravilha.jpg Acima: mulher maravilha

Essa semana a mulher de um famoso cantor sertanejo o denunciou por violência doméstica. Reações passionais e extremas de ambos os lados alegavam tanto o coração partido com o cantor que é um “covarde espancador de mulheres” quanto afirmações de que “tudo não passa de uma calúnia de uma mulher rejeitada”. Por enquanto eu não sou juiz e não sou pago para julgar e não julgaria sem ouvir ambas as partes e ter acesso às provas dos autos. Se ele a agrediu grávida é um criminoso covarde e deve responder por isso. Se isso é uma calúnia de uma mulher rejeitada ou traída também é um crime de uma covarde. Quem não é respeitada ou simplesmente não está feliz em um relacionamento deve tomar a atitude digna e ética de encerrá-lo a fim de se preservar como tem direito. Suponhamos que a denúncia seja verdade e que ela não se exporia assim somente pelos holofotes da mídia. Ora, ela tomou uma atitude corajosa e denunciou um crime. Até quando as mulheres sofrerão em silencio? O que elas temem, serem livres, assumirem a responsabilidade pela sua própria vida em todos os sentidos? Até quando permitirão que esse "medo" continue lhes vitimando desnecessariamente?

O fato de você talvez pensar que jamais teria a coragem para fazer certas coisas ou prejudicar certas pessoas não significa que elas não irão fazer isso com você. Por exemplo, semana passada fomos escandalizados pela notícia de que dois homens adultos empalaram um menor num lava-jato introduzindo uma mangueira de ar em seu anus. Conseqüência: o adolescente perdeu parte do intestino e devido a complicações clínicas acabou vindo a óbito. Foi uma fatalidade ou um crime hediondo? É razoável considerar lesão grave seguida de morte ou foi de fato um típico dolo eventual?

Então, o leitor se pergunta “Por que, meu Deus, alguém faria uma coisa tão estúpida assim?” E antes que a defesa dos acusados possa se pronunciar o leitor, indignado, pode pensar que não aceitaria nem sequer ouvir uma explicação (embora todos tenham direito a uma ampla defesa.). E o leitor pensa: como um ser humano pode ser tão desgraçado a ponto de pensar que tem o direito de introduzir uma mangueira de ar no anus de outro “por brincadeira”, para rir? E conclui, revoltado “Eles não têm ética.” E eu sou obrigado a concordar com o leitor considerando o conceito filosófico-cristão de ética “Não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem com você.” Então, esse sentimento do “mal incompreensível”, se você pensar bem, chega a se tornar um orgulho para o cidadão de bem, quando você diz diante de um crime, uma crueldade ou uma injustiça “Isso é incompreensível para mim, além de ser inadmissível.” E não é para aquela pessoa que o cometeu? Será que eles não estão arrependidos? E o que fazemos com o arrependimento deles, se existe? Dá para ressuscitar o garoto e lhe devolver sua vida nua? Eu não duvido que os agressores do rapaz não quisessem matá-lo, mas por causa de uma ação extraordinariamente abusiva deles ele morreu. Lógico, é justo que respondam como se quisessem. A saber, o adolescente era homossexual. Isso dava ao seu patrão e colega de trabalho o direito de empalá-lo? E o que podemos fazer para nos defender da violação dos nossos direitos?

"Eu tenho tanta alegria, adiada,/ Abafada, quem dera gritar.../ Tô me guardando pra quando o carnaval chegar" Chico Buarque

Na nossa humilde opinião, primeiro você precisa se conhecer. Você é uma pessoa forte o suficiente para lutar contra o mal ou mal consegue sobreviver a ele? Se for forte lute e faça justiça. Se não for, fuja, afaste-se do mal. Você não tem escolha. É isso ou ser destruído por ele. E ninguém seria idiota a ponto de ser destruído podendo escapar. O adolescente não teve escolha. Foi rendido por um e empalado por outro. Se pudesse tenho certeza que ele teria fugido e se salvado. Quando você se habitua a suportar severos abusos físicos ou emocionais é porque alguma coisa de errado há com você, com sua auto-estima. Aí é preciso repensar toda a estrutura de si mesmo, da sua psique e da sua conduta para superar esse abismo autodestrutivo no qual você caiu coagido pelas circunstancias externas e internas. Aí é preciso procurar ajuda profissional para se libertar desse inferno imerecido. Do contrário, receio que o problema só irá piorar até se tornar insuperável. Segundo o Cortella é preciso ter “coerência ética”. Ou seja, não fazer aos outros o que não gostaríamos que fizessem conosco e não permitir que façam conosco o que não faríamos aos outros. O respeito deve ser recíproco e ubíquo. Uma relação sem respeito entre as partes (ou por uma delas) está fadada ao fracasso. Toda vez que um direito legítimo nosso é violado não é como se fôssemos empalados?

Segundo o Cortella a ética é a solução para a crise do Brasil e, por extensão, da nossa. Se isso for verdade basta colocar em prática seus fundamentos, ou seja, o respeito aos nossos direitos subjetivos e o respeito aos direitos alheios. Qual é o direito mais valioso do ser humano? Qualquer um mesmo não sendo da seara jurídica responderia de chofre “O direito à vida.” Ninguém pode ceifar sua vida. Não existe pena de morte no Brasil, exceto em tempo de guerra. Depois da vida a discussão sobre a hierarquia dos direitos humanos é controversa, mas seria justo dizer que os direitos à liberdade e à dignidade vêm logo em seguida e são inestimáveis. Assim, ninguém pode ofender a sua dignidade ou lhe obrigar a fazer o que não queira. Os empaladores violaram todos esses direitos do jovem e alegam terem feito isso sem a intenção de lhe causar algum dano. Como podem? Porque é isso que fazemos quando não respeitamos o direito dos outros: nós os empalamos. E por mais que aleguemos que não desejamos lhe causar dano a mangueira de ar (leia-se nosso desrespeito) destrói seus intestinos (leia-se seus direitos) e se desdobra em morte (leia-se a morte de sua liberdade, dignidade e felicidade.). É preciso pensar: será que eu não irei me arrepender de desrespeitar o direito dos outros? Será que minhas ações abusivas não irão lhes causar nenhum dano doloroso e irreversível? Será que eu gostaria que fizessem comigo o que eu estou fazendo contra quem violento?

O mal existe, é verdade. Mas uma coisa é certa: o bem também existe e você sempre pode escolhê-lo em detrimento do mal. Ética é escolha e “escolher é excluir”. Se você está feliz por que mudaria? Agora se não está feliz por que não mudaria? Contardo Calligaris tem uma frase imortal que merece atenção: “Nunca se traia.” O garoto empalado está morto e a morte é invencível. Mas para quem está vivo lembre-se do que dizia Sartre sobre determinismos “Não importa o que fizeram com você, mas o que fazes com o que fizeram com você.” A tal “dimensão trágica da vida” existe, ou seja, nossos problemas, às vezes, graves e terríveis, mas somos responsáveis pela sua superação. É preciso vontade e coragem para fazer a coisa certa. Seja sincero: essa é a vida que você gostaria de ter?

recomece sua vida.png "Um erro na vida não pode se transformar numa vida de erros." Padre Fábio de Melo

Certa vez, num país da Ásia, uma gangue tentou obrigar um adolescente que voltava da escola a matar uma pessoa inocente para diverti-los. Ou ele mataria ou morreria e o adolescente preferiu morrer a matar. Ele fez uma escolha difícil, mas fez. (Em verdade, para o direito mesmo se ele tivesse escolhido matar não poderia ser condenado por isso, uma vez que estaria protegido pelo instituto jurídico do estado de necessidade, que é uma excludente de ilicitude.) Os antigos filósofos gregos diziam que é melhor ser vítima de uma injustiça do que o seu autor. Naturalmente não podemos abrir mão dos nossos princípios e projetos por causa dos outros. Uma coisa é certa: nada muda se você não mudar. A questão é: você deseja mudar ou continuar como está? Como dizia o irônico Dane Crane “É melhor querer o que não se tem do que ter o que não se quer.”. O que você está perdendo não é infinitamente superior ao que tem acesso agora? O imprescindível é não abaixar a cabeça para os tiranos a deceparem como amam fazer. Numa palavra: nunca abra mão dos seus direitos ou ceda à chantagem de qualquer natureza. Como dizia Rui Barbosa “Quem renuncia aos seus direitos não merece tê-los.”

Segundo o brilhante filósofo americano Emerson “É preciso ser ético, justo e íntegro.” O que será de nós se aceitarmos a falta de ética? O que será de nós se não aprendermos a conviver com as diferenças? O que será de nós se não tomarmos uma atitude concreta e definitiva para proteger nossos direitos? Paciência tem limite. É preciso ser ético e é preciso exigir ética. Se as palavras acima soaram um alarme na sua consciência que urge por mudança: Calma. Você sempre pode voltar a ser você mesmo. Basta querer e agir para que isso aconteça. O caráter e a qualidade de vida podem regenerar como um órgão do corpo humano não mais submetido às causas que o faziam enfermo e debilitado. (Às vezes, você precisa se livrar dos empaladores. Às vezes, você é o empalador e precisa se livrar do seu próprio egoísmo cego e criminoso.) O jovem empalado não teve escolha. Que Deus o acolha e que a justiça seja feita aos seus algozes. Mas nós podemos escolher a liberdade, a coragem e a ética. Para chegarmos à paz primeiro é preciso fazer justiça. Esse é o caminho da transformação: amor pela justiça, coragem para fazer o que é certo e ação para resolver o problema com rapidez.

“Quem se comporta com integridade vive em segurança; quem segue o caminho torto acaba desmascarado. Quem faz vistas grossas causa pesares; quem repreende abertamente traz remédio. (...) Os sábios entesouram conhecimento, mas a boca do tolo é perigo iminente. (...) O insensato se diverte fazendo o mal. O inteligente se diverte com a sabedoria. (...) A esperança dos justos acaba em alegria, mas a esperança dos injustos termina em fracasso.” Bíblia, Provérbios, os caminhos da justiça, o justo e o injusto


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor. E “tornar-me senhor de mim mesmo” é o meu grande objetivo em busca de uma vida que vale a pena ser vivida..
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