arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

A FÊNIX

“_Você é feliz?
_Sim.
(...)
_Eu menti quando disse que era feliz. Não somos felizes. Somos prisioneiras. Somos estupradas.” O conto da Aia


"E abençoados sejam aqueles que sofrem pela causa da justiça." O conto a Aia

Eu estava pesquisando sobre criminologia (A criminologia é o conjunto de conhecimentos a respeito do crime, da criminalidade e suas causas, da vítima, do controle social do ato criminoso, bem como da personalidade do criminoso e da maneira de ressocializá-lo. Etimologicamente o termo deriva do latim crimino ("crime") e do grego logos ("tratado" ou "estudo"), seria, portanto, o "estudo do crime") quando encontrei por acaso um vídeo recente desses três titãs (Karnal, Cortella e Pondé, vide abaixo.) sobre esse tema fascinante, posto que flutuante: a felicidade. Salvo engano, já escrevi uma crônica sobre um colóquio entre Karnal e Clóvis com foco semelhante, intitulado “Felicidade ou morte” na Obvious ¹.

A experiência nos ensinou que os extremos não funcionam no Direito bem como na vida. Aliás, segundo Kant é mais importante ser digno da felicidade do que propriamente feliz. Eu costumava achar esse pensamento muito elevado no passado. Contudo, hoje percebo que ele pode resultar numa resignação autodestrutiva.

Enfim, confesso um crime talvez imperdoável, cochilei no meio do bate-papo dos três tenores, mas despertei no final. Tomei um café e guardei algumas lições dos mestres, uma inclusive polêmica e que precisa ser investigada, qual seja, de que a misericórdia (a experiência do perdão) é essencial para a felicidade. Vindo do Pondé isso é realmente surpreendente. Ele também disse que só considera possível a felicidade dentro de uma conduta de autenticidade e coragem. Karnal introduziu a “independência” como fator-chave para a felicidade. Afinal, “minha felicidade não pode depender dos outros.”.

Conclusão: a felicidade está visceralmente ligada a noção de emancipação pessoal. (“Nolite Te Bastardes Carborundorum”) ². Vide a perturbadora série O conto da Aia, onde num futuro distópico a humanidade se tornou quase completamente estéril e com a desculpa de perpetuar a espécie um grupo de radicais religiosos tomam o poder político nos EUA, fecham o congresso, depõem o presidente e cassam todos os direitos civis e políticos das mulheres, que retornam a Idade Média e são obrigadas a se tornarem máquinas de reprodução para desconhecidos poderosos (aquelas poucas que ainda têm o poder de engravidar) ou no máximo, donas de casas servis que não podem sequer ler um livro. É impressionante a devastação que a perda da liberdade causa na vida das pessoas.

Coincidentemente estou lendo um livro do Luc Ferry lançando esse ano intitulado “7 maneiras de ser feliz” Subtítulo: como viver de forma plena. (Então, o Pondé não acredita em plenitude. Pensa que é uma utopia pueril. Para ele sempre seremos “insuficientes”.). Em suma, para o filósofo francês as sete maneiras de ser feliz são: Amar, admirar, emancipar-se, ampliar os horizontes, aprender, criar e agir. Não é fácil ser feliz. Não é verdade? Talvez em outra vida nasçamos bonobos (espécie de macacos que fazem sexo o tempo todo). Segundo o Karnal eles são mais felizes. Para o Cortella é uma “falsa felicidade”, pois eles são movidos por instintos biológicos e não pela deliberação racional. “Como ser feliz na servidão?” perguntaria Ferry. Em verdade, para mim além de tudo que foi supracitado é necessário uma “célula de sorte” para ser feliz. E há sempre a imortal esperança de que no futuro... quem sabe... talvez... por que não?

A mensagem final do Karnal é redentora. Vale a pena assistir e assimilar. Recomendo.

“Se não quero ir para as montanhas, se quero ir para a praia, por que continuar a dirigir o carro pela estrada que vai para as montanhas?” Rubem Alves

“Rompam com o discurso da servidão voluntária de Étienne de La Boétie. Produzam a vida a partir da sua concepção.” Karnal

Notas

1. Felicidade ou morte

2. (“Nolite Te Bastardes Carborundorum”). “Não deixe que os bastardos reduzam você a cinzas.” O conto da Aia


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
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