arcano do aleph

“Alho e safiras na lama...” T.S. Eliot, Quatro quartetos, 1943

Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor.

O PODER DO AMOR

“É sobre não perder as pessoas que amamos.” Tolkien


tolkien.jpg

Tolkien começa com dois cavaleiros se enfrentando num sangrento campo de batalha. Na verdade, é uma representação artística da imaginação de Tolkien, febril e convalescendo num abrigo subterrâneo de um trincheira na França durante a 1° Guerra Mundial.

A primeira vez que eu vi o Senhor do Anéis fiquei encantado e fui catapultado para um universo inaudito, fascinante e bélico de pura fantasia, aventura e luta pela liberdade, a justiça, o amor, a amizade e a sobrevivência. Pois bem, “Tolkien” é o autor do Senhor dos Anéis e o filme homônimo que assisti hoje é sua cinebiografia, isto é, conta a história da vida do brilhante e romântico criador da Terra-média, de Frodo e Sam e de Gandalf.

Estou gostando, você diz, fale-me mais sobre esse tal Tolkien, querido. Seu desejo é uma ordem, querida. Tolkien foi um renomado linguista com especialidade em Inglês Antigo e Nórdico Antigo, sendo professor da Universidade de Oxford de 1925 até 1959. O filme supra narra sua trajetória desde a pré-adolescência, em que é obrigado a se mudar com a mãe do campo para a cidade grande, após a morte do seu pai, na África do Sul. Aos 12 anos Tolkien torna-se também órfão de mãe e se vê amparado pelo Padre jesuíta Francis Xavier Morgan que lhe aloja numa escola tradicional da Inglaterra onde Tolkien irá desenvolver sua inteligência excepcional e cultivar uma grande amizade com seus três inseparáveis amigos que queriam mudar o mundo com o poder da arte, “Os Quatro Imortais”.

Também foi lá que Tolkien conheceu e se apaixonou aos 16 anos por Edith Bratt. Contudo, por Tolkien ser estudante e dever se focar primordialmente nos estudos, o Padre Francis proibiu que os dois se encontrassem até o jovem atingir a maioridade e completar 21 anos. Subestimando o sentimento do jovem por Edith ele disse: “Se você ainda a amar até lá pode fazer o que quiser.”. Coagido pelas circunstâncias, Tolkien vai para a Universidade de Oxford (“Eu não tive escolha.”) e abandona Edith. A despedida dos dois no filme é dramática e partiu meu coração: “Não existe final feliz para pessoas como nós.”, disse Edith, revoltada com a separação dos dois, pois o amava e se sabia amada. Para sua sorte, Edith estava errada. Tolkien não consegue esquecê-la e 5 anos depois quando completa 21 anos e se torna maior de idade ele a procura. Nessa época eclode a 1° Guerra Mundial na Europa. Tolkien é convocado para a Guerra e Ingrid está noiva de outro. “Oh, vida, oh, céus”. Por que tão cruel?

Acima: trailer do filme Tolkien. Prepare os lenços, querida. Você vai precisar.

No porto antes de partir num navio rumo a terrível 1° Guerra Mundial os dois se encontram para passarem o passado a limpo e se despedirem novamente, talvez pela última vez. Eis o diálogo:

Tolkien: Eu cometi o maior erro da minha vida. Não houve um único dia, um momento em que eu não estivesse pensando em você. Você é o espírito mais impressionante que eu já conheci. Você tem coragem e desenvoltura, tem talento. É orgulhosa. Você é de enlouquecer. É encantadora e é perspicaz. E vibrante e completamente vivaz. Você merece toda a felicidade que encontrar... Não. Não merece. Você não merece felicidade. Não é o que eu... O que eu quero dizer é que você merece muito mais. Você merece Magia. (Leia-se "Magia" como amor verdadeiro e recíproco.) (...)

Edith: O navio é aquele ali?

Tolkien: É o Askanios

Edith: Parece algo saído de uma de suas histórias.

Tolkien: Sim, tenha pena dos cidadãos de Askanios...

Edith: Por que devemos ter pena?

Tolkien: Por sua terrível história, por sua vergonha, os arrependimentos...

Edith: ELES DEVIAM PERDOAR A SI MESMOS.

Tolkien: Não conseguem... Eu tenho que ir.

Edith: Foi muito bom.

Tolkien: Adeus, pequena.

(Ao dizer isso Tolkien lhe deposita delicadamente um beijo em sua face e vai embora em direção ao navio que o levará a guerra e talvez a morte, colocando seu quepe de soldado na cabeça. Edith o olha com amor e melancolia... Enquanto ambos caminham de costas um para o outro rumo aos seus destinos, Edith olha para trás e vê que Tolkien está correndo em sua direção, cada vez mais próximo... ele grita seu nome e após alcançá-la, abraçá-la e beijá-la na boca com amor intenso ele diz: )

Tolkien: Eu te amo.

Edith: Eu te amo.

Tolkien: Eu te amo tanto.

Edith: Eu sei.

Tolkien: Eu não consigo evitar isso...

Edith: Eu sei. Eu também não.

Tolkien: Eu tenho que ir.

Edith: Sobreviva... Volte para mim.

Tolkien: Sim...

Edith: Sobreviva e volte para mim.

(Eles se beijam pela última vez e Tolkien vai para a Guerra. Edith acena e sorri com o brilho da esperança recém-encontrada e invencível em seus olhinhos apaixonados.).

tolkien.jpg Acima: Tolkien e Edith. Um história de amor que nem os outros, nem o tempo nem a guerra conseguiu evitar. Como dizia o mestre Sigmund Freud "Como é forte uma criatura quando tem certeza de ser amada." Tolkien sobreviveu a guerra e voltou para os braços de sua amada onde permaneceu até a morte.

J. R. R. Tolkien lutou na Primeira Guerra Mundial em uma das batalhas mais intensas e agressivas desse período, conhecida como Batalha de Somme. Muitas das privações que Frodo e Sam passaram no caminho até Mordor refletem um pouco dos horrores que Tolkien viveu nos confrontos reais nas trincheiras. Vários de seus amigos morreram na época ao seu lado, o que fez com que essas tragédias inspirassem algumas das coisas que vemos em "O Senhor dos Anéis", "O Hobbit" e "O Silmarillion". Tolkien Sobreviveu como tinha prometido para Edith e voltou para ela. Maktub! (“Já estava escrito”).

Edith terminou um noivado que ocorreu durante a separação dos dois e se converteu ao catolicismo para que os dois pudessem se casar. Eles ficaram juntos até o final de suas vidas, tiveram quatro filhos, viveram uma vida virtuosa, amorosa e feliz. O túmulo de ambos é compartilhado, sendo que ele possui os nomes "Beren" e "Lúthien" gravados também – referência a uma das histórias românticas mais emocionantes e épicas já escritas por ele. Citada em O Senhor dos Anéis, a principal história contada em O Silmarillion narra o romance e a jornada épica de Beren, um homem mortal, e Lúthien, uma princesa élfica. O pai dela, um grande senhor élfico, opõe-se à união e, para permitir o casamento com Lúthien, impõe a Beren uma tarefa impossível de ser realizada. “Beren e Lúthien” era a história mais apreciada, a nível pessoal, por seu próprio autor, que relacionava o romance mágico entre os dois protagonistas à sua própria história de amor com a esposa, Edith Bratt.

Talvez esse seja o genuíno poder dos grandes escritores de literatura de imaginação: o poder de fazer sonhar, e fazendo sonhar, inspirar seus leitores a realizarem seus sonhos. Qual é o seu sonho? Essa é uma pergunta importante de se fazer a si mesmo. E com quem você quer realizá-lo? Esse é o poder do amor, o poder de ressurgir das cinzas como uma fênix, o poder de curar os males e erros do passado e o poder de nos ensinar que a injustiça deve ser combatida e o sofrimento, por pior que seja, pode ser superado se lutamos juntos, e que um final feliz está à espera dos que amam e têm coragem. Afinal, se o seu sonho é formar uma família feliz, isso só será possível ao lado de quem você ama de verdade. E se você for maior de idade saiba que tem o direito inalienável de fazer o que quiser. Defenda seus direitos, reduza seu sofrimento e viva a vida que você sempre sonhou com amor, respeito, dignidade e sabedoria. Recomendo, pois vale a pena. Enfim, é um filme lindo, adulto, intelectual e inspirador. Recomendo com amor. Helheimr! “Se não agora, quando?”

“Onde não falta vontade existe sempre um caminho.” J.R.R.Tolkein

P.S. Esqueci de dizer que Tolkien foi o melhor amigo de C.S.Lewis, autor de Crônicas de Narnia. Foi Lewis que o incentivou a publicar O Senhor dos Anéis.

“Coragem, querido coração.” C.S.Lewis

“Chorar ajuda por um tempo, mas depois é preciso parar de chorar e tomar uma decisão.” Ibidem


Thiago Castilho

Advogado e escritor, um homem de leis e letras. Acredito que a arte pode “ensinar a viver”. Ensinar a viver significa ensinar a lutar pelos seus direitos e a amar melhor a si e a toda humanidade. Adquirir o conhecimento e transformá-lo em sabedoria de vida no palimpsesto do pensamento. Eis meu ideal intelectual que busca realizar a experiência do autoconhecimento, não sei até se do absoluto e talvez do Sublime aplacando assim minha angústia existencial, sem soteriologia, porque ao contrário de Heidegger não acho que somos seres-para-a-morte, mas seres-para-a-vida e seres-para-o-amor..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/recortes// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Thiago Castilho