O que é a Arte?



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Quando no outro dia apresentei aqui três imagens de obras de arquitectura onde sobressaíam algumas estátuas sabia de antemão que o assunto não era pacífico. Na verdade, contraposta a dois exemplos “cultos” – a Villa Adriana em Tivoli e o Pavilhão Alemão na Exposição de Barcelona de 1929 (reconstruído) – era exibida uma construção anónima “decorada” com algumas estatuetas de produção ordinária. Embora pareça evidente o contraste entre os dois primeiros exemplos e o terceiro não estou certo das razões dessa evidência. Porque é que o último exemplo é diferente?

Para os filósofos da Grécia antiga, em particular Platão e Aristóteles, o conceito de Belo era sinónimo de Verdadeiro, Bom e Justo. Por isso a melhor escultura era a mais verdadeira, a mais semelhante; a mais bela pintura era aquela que mais se aproximava da Natureza. Somos ainda hoje dominados por esse conceito que se identifica muito com a noção de “perfeição técnica” ou de “grande dificuldade técnica” aliada à representação do mundo visível. É a ideia de Arte como imitação do Real.

Ora não é aqui que encontramos diferenças entre os três exemplos, pois todos são “realistas” e mesmo a execução do terceiro exemplo não é má. Também não julgo que possa existir diferenciação entre as intenções subjacentes às várias obras: o objectivo é ornamental. A mim (que não sou especialista – volto a dizê-lo) parece-me que a resposta deve ser encontrada não no plano estético mas no plano semântico, pois o exemplo esteticamente mais “pobre” surge como o único que possui uma efectiva preocupação simbólica.

Neste caso, estamos perante um claro desejo de afirmação de conteúdos de um ponto de vista social e cultural. As referências são, evidentemente, os ecos abastardados de uma arte classicista, imitadora do Real. Para quem utiliza estes recursos isto significa “embelezar” de acordo com o tal conceito de Belo. E este conceito é, ainda, dominante.

Situações como as que apresentei no terceiro exemplo são mais do que muitas por este país fora. Por isso, se vê ao longo de ambos os lados da IC1, ali por volta de Pombal, uma miríade de expositores de "equipamentos escultóricos” que rivalizam entre si na originalidade e no mau gosto. E se eles proliferam é porque há quem compre e não são tão poucos como isso a fazê-lo! Não me choca tanto o impacto visual que este tipo de "artesanato" provoca na nossa paisagem como o que isso representa do ponto de vista social e cultural: a nossa profunda imaturidade artística. Quase não há no nosso Ensino Básico educação para a Arte e, sobretudo, para os novos conceitos artísticos trazidos pela Modernidade. Mas, em contrapartida, aprende-se História...

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Co-fundador e ex-colaborador do obvious, actualmente retirado, foi responsável durante bastante tempo pela definição da linha editorial. Concebeu e coordenou a transição do blog para o formato de magazine.
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