Quem vê caras...
"Quando eu era um jovem estudante de arquitectura, tive um professor que dizia que um projecto não pode ter cara, não pode ser parecido com nada. «Se um projecto parece um chapéu ou um barco, então é porque há qualquer problema: é preciso alterá-lo!» Eu, na altura, não compreendia a razão do pavor traumático que transparecia das suas palavras. Só mais tarde, já arquitecto, entendi...
Existe, segundo parece, uma vasta rede mundial com infiltrações no nosso país que se dedica exclusivamente a "baptizar" os projectos dos pobres arquitectos. Essa mafia tem em cada um dos anónimos transeuntes um poderoso agente conspirador. Os referidos paisanos passeiam pelas ruas com ar distraído, procurando com os seus olhares argutos vestígios de arquitectura! Mal um exemplar é descoberto, logo lhe é atribuído um código identificativo pleno de imaginação. Regra geral utilizam nomes oriundos do reino animal (classe dos moluscos, geralmente), vegetal, dos electrodomésticos de linha branca e acessórios de cozinha ou da frota albanesa de pesca longínqua (um colega bem conhecido da nossa praça tem por triste fado ser o autor de projectos aos quais foi dado um número prodigiosamente grande de nomes de barcos)...
Para um antropólogo estas "alcunhas" representam o espírito popular; para um arquitecto são o desespero. O leitor incrédulo dirá que exagero: vejamos então alguns dos baptismos. O "Tolan" – lembram-se dele? (edifício para um banco); o depósito de água (outro edifício para um banco); o martelo (depósito de água); a estufa fria (edifício universitário); o capuchinho vermelho (infantário); a garagem (vivenda unifamiliar); o ponto e a vírgula (conjunto de duas moradias); o couraçado (bloco residencial); o bucha e o estica (dois blocos residenciais); a lavandaria (edifício de escritórios pintado de branco); o comboio (edifício habitacional muito comprido e baixo)...
Outras nomenclaturas se conhecem da gíria, calão e outros dialectos castiços, que seria pouco próprio mencionar aqui. De facto, basta às vezes um pequeno e discreto pormenor para influenciar a mente sórdida do homem da rua – uma janela redonda, por exemplo (nome a preencher pelo leitor libidinoso). Vejam só esta: um arquitecto muito famoso fez um projecto de uma residência universitária com uma planta em forma de "V". Logo o baptizaram como "as pernas". Esta alcunha caiu muito mal, sobretudo entre as residentes femininas, pois a entrada no referido edifício fazia-se pelo meio das "pernas"...
Incrível mas verdadeiro, é com estes nomes ortodoxos que as pessoas se orientam no espaço urbano: «Vais à Câmara Municipal?» «Onde?» «Ao disco voador!» «Ah! Sim, vou». Ou então: «Pode dizer-me onde fica o Correio?» «Olhe, o senhor vai sempre em frente e vira à sua direita junto a uma casa que parece um chapéu de coco; depois anda quinhentos metros e vê um edifício sem janelas (chamam-lhe o ceguinho); vira à esquerda e encontra um prédio muito parecido com uma batedeira (chamam-lhe o moulinex): é aí!»
Certo dia descobri acidentalmente a alcunha de um projecto meu, uma moradia unifamiliar. Encontrava-me na obra juntamente com o proprietário e resolvemos experimentar o fogão de sala para ver se funcionava bem. Após acendermos o lume com jornais velhos e bocados de madeira, verificámos que a lareira tinha uma óptima tiragem: era visível no exterior uma coluna de fumo espesso saindo da chaminé. Congratuláva-mo-nos nós com este pequeno sucesso quando eis que batem à porta duas velhinhas: «O senhor desculpe», disse uma delas: «pode dizer-me a que horas sai o pão quentinho?» Consegui conter-me heroicamente e explicar às senhoras que aquilo era uma casa particular. Quem não gostou da graça foi o proprietário: parece que ainda hoje a casa é conhecida lá nas redondezas como "A Padaria"...
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