Arquitectura dos blogs

Numa recente navegação virtual reparei na quantidade incrivelmente grande de blogs sobre arquitectura. É um assunto pelo qual me interesso já há algum tempo e isso justificou a dita navegação e este texto que depois elaborei.
Certamente haverá muita coisa para debater, reflectir, explicar, sobre a Arquitectura, pensei – e pus-me a ler... Puro engano! Muito bem escritos, muito modernos, muito correctos, não passavam na sua maioria de exercícios de contemplação do umbigo feitos e mantidos por jovens arquitectos desempregados e iludidos.
Um deles comentava uma afirmação de Dom Duarte de Bragança sobre a igreja de Marco de Canaveses – que, como muita gente sabe, é da autoria de Siza Vieira – dizendo que parecia um quartel de bombeiros! Indignava-se o bloggeiro com a blasfémia de Sua Graciosa Majestade, que qualificava de “real ignorância”. Vale a pena ler o artigo e respectivos comentários porque o caso é bem demonstrativo do que penso sobre a matéria (também comentei).
E o que penso é isto: de facto os arquitectos vivem fechados para o seu mundo, com os seus desenhos abstractos e os seus tiques de desenho e de linguagem, pois que apenas de tiques se trata... Continuam a furtar-se ao debate para fora do âmbito exclusivo da disciplina. Se a arquitectura nos últimos anos tem ganho com a sua mediatização isso trouxe aos seus autores uma sobranceria indesejável. Consideram-se artistas – no mau sentido! – que não têm de se justificar perante ninguém que não eles próprios.
A Arquitectura não é uma arte. Tem demasiados compromissos com a Física, com a função ou com a Sociedade para que o possa ser de pleno direito... A única vez em que o foi ocorreu na Grécia Antiga porque os templos gregos não eram verdadeiramente arquitectura: eram escultura. Quase sem espaço habitável (porque não se destinavam a isso) eram colocados no cimo de um monte para melhor serem admirados. Vejam a fotografia do Pártenon, o arquétipo dos arquétipos...
E agora mais um pouco de história que nos ajudará a manter-nos humildes. A arquitectura dita “moderna”, “funcionalista” ou o que lhe quiserem chamar morreu, talvez cedo de mais, antes de se esgotarem as qualidades que tanto apregoava e que até eram interessantes. Pois o colapso da arquitectura moderna não foi seguramente funcional, apenas parcialmente técnico, mas essencialmente social e semântico. Um problema de linguagem, portanto...
Actualmente verifica-se o mesmo problema de linguagem. Os arquitectos não falam a mesma linguagem das “pessoas”, seja falada ou arquitectónica. Ou então falam-na com demagogia e prepotência. Não é fácil, sabemos, e a bagagem cultural dos portugueses não ajuda. Mas os “portugueses” também são os arquitectos! E é lamentável ver que estas características se acentuam na geração mais nova de arquitectos, que são cada vez em maior número... Será por isso que estão desempregados?
De qualquer modo poupem-nos aos vossos blogs narcisistas...
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13 comentários
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que há gente burra e tacanha, lá isso há.
laurio lourenço em 10 de agosto de 2004

No que diz respeito aos arquitectos, nota-se um grande esforço por se aproximarem das pessoas e das suas necessidades, uma prova disso é a própria Igreja do Marco de Canaveses... O que falta é muita sensibilidade por parte das pessoas para interagirem com os arquitectos, em vez de os criticarem. E se estão no desemprego é porque os ignorantes dos portugueses continuam a querer o "chalé" desenhado pelo engenhereiro/desenhador/técnico de arquitectura (seja lá o que isto for), com a grade dourada, o postigo verde em pvc e a porta com o batente rococó e não contentes com isso, o indispensável lago com peixes no relvado da frente e o ainda mais indispensável anexo nas traseiras, não sem depois esconderem isto com umas sebes de 2m de altura, porque português que se preze, gosta de espreitar, mas não de ser espreitado. Espécimes destes continuam a surgir... e porquê? Porque as mentes continuam muito tolhidas, pouco receptivas. Como muitos nem se dão ao trabalho de ter uma escolaridade decente e outros tantos gostam de ter cursos, mas só para ter dinheiro para gastar nos centros comerciais ao domingo à tarde, não é de admirar que não consigam entender o esforço dos arquitectos de proporcionar às pessoas bons espaços para viver, para passear, para estar... portanto, tudo o que tiver um conteúdo em que é preciso um dicionário torna-se de repente pretencioso e enfadonho. Atribuo isto à tendência nacional de desvalorização do que possa haver de bom e de aprazível. É pena.
terribly_me em 17 de setembro de 2004

1 - A Arquitectura é Arte.
2 - O desemprego dos arquitectos deve-se á quantidade exorbitante de arquitectos.´
3 - O modernismo é a única ideologia que os arquitectos conhecem. É mais fácil de compreender e de aprender e de usar. As restantes podem correr o risco de fazer mal porque não há ninguém que saiba ensiná-las. É por isso que os arquitectos em portugal têm uma lingugaem muito próxima do modernismo apesar de haver uma interpretação da arquitectura popular mas é uma interpretação moderna da arquitectura popular.
A Aranha Tecelã em 19 de setembro de 2004

Das coisas mais sensatas que li nos ultimos tempos. Obvio que a culpa também não é unica e exclusiva dos arquitectos... a propria população ainda tem aquele pensamento lindo de que o arquitecto so serve para fazer uns bonecos giros... mas como um arquitecto respondeu a isto: "a minha vida é a banda desenhada."
A realidade é esta... de um lado ha o grupo dos arquitectos,no meio um espaço sem nada e do outro ha a população, quem é que se tem de aproximar de quem? os arquitectos à população ou a população aos arquitectos?
ja agora lembrem-se que a população nem sabe para que serve um arquitecto...
GinSoakedBoy em 29 de setembro de 2004

Caro colega bloguista aconselho vivamente um livro..."saber ver a arquitectura" Bruni Zevi.
fwe em 29 de setembro de 2004

a arquitectura é demasiadamente comprometida com a fisica??? ja foi.veja as duas casas que Souto Moura desenhou em Ponte Lima, veja a pála do pavilhão de portugal.
E se ha ainda arquitectos no desemprego deve-se ao pato bravismo que permite a qualquer engenheiro de politecnico fazer o trabalho de 1 profissional que trabalha 6 anos na sua formação.
Como pode a culpa desta situação ser dos arquitectos se o cliente para construir a sua habitação apresenta a sua propria solução desenhada num guardanapo como tantas vezes ja vi? e a culpa disto é do arquitecto?a culpa das pessoas é do arquitecto? Morte ao 73/73
knucles em 27 de julho de 2005

à gente mt ignorante! se calhar, so pela propria controversia q aqui esta presente, prova por si so que a arquitectura é uma arte! n uma arte plastica! mas uma arte! é verdade q tem de obdecer a regras! e como cada um tem a sua letra, os arquitectos tb têm a sua forma de expressao! e quanto ao desemprego.. toda a gente anda desempregada!em todos os sectores! feliz de ti se nao estás...
Ana Marqus em 30 de abril de 2006

A arquitectura é uma arte e como tal nem todas as pessoas a conseguem compreender,tente instruir-se nesta e noutra artes antes de as comentar.Já agora caso não tenha lido os jornais nos ultimos tempos,o desemprego esta instalado em todos os sectores e não apenas na Arquitectura.tenho pena que por uma qualquer razão que desconheço,tenha personalizado os arquitectos como pessoas que olham só para o seu umbigo,a verdade e que nunca conheceu por sinal um verdadeiro arquitecto,tente conhecer as pessoas certas ou então não tome um pelo todo.
arquitecta em 30 de abril de 2006

nao quero parecer indelicada ou ignorante mas CREIO QUE A MELHOR FORMA DE COMPREENDER A ARTE, nao é criticando-a, é conhecendo-a. Eu, como conhecedora da area das artes compreendo perfeitamente a destinçao entre escultura e arquitectura....ja aguma vez teve historia da arte??...Entao meu caro bloger, instrua-se antes de citicar pois a sua critica pareceu-me dura e pouco conhecedora.
carla marques em 2 de maio de 2006

Devo de confessar que este texto me surpreendeu pela negativa.
Meu amigo o bom arquitecto não olha para o seu umbigo, aliás o bom arquitecto olha acima de tudo para os seus clientes, para que eles possam beneficiar de espaços que lhes proporcionem acima de tudo prazer.
O bom arquitecto preocupa-se com a orientação de um espaço, com a luz, com a temperatura, e muitos outros factores, (legislados ou não), para que o cliente goste de estar num espaço, para que não se sinta intensamente desconfortável, sem saber o porquê.
Isso é arquitectura, trabalhar para que os utentes dos espaços por nós criados se sintam bem em comunhão com o que os rodeia.
As pessoas começam hoje a aprender o que é a arquitectura e para que serve um arquitecto, quando mandam construir a sua casa e depois no final deparam-se com um celeiro ou uma caixa de fósforos com janelas, onde todos os espaços são identicos e muitas vezes desconfortáveis e mal destribuidos.
Estive 6 anos a estudar e posso dizer que fico triste por pessoas que aparentam ter alguma cultura possa escrever coisas destas...
Meu amigo como é a sua casa? foidesenhada por quem? Gosta de tudo nela é confortável???
E DIGO MAIS TENHO ORGULHO NAQUILO QUE FAÇO E FAÇO-O DE CORAÇÃO.
Obrigada.
Sónia Bento em 27 de abril de 2007

Para lhe responder a esta tamanha ignorância uso um texto publicado que creio que possa responder à sua critica infundada e de uma falta de pesquisa e conhecimento de causa...
Como construir a sua moradia sem ter que aturar um arquitecto
Textos de Rui Campos Matos (escrito para o Diário de Notícias da
Madeira, secção "Arquitectura e Território)
Quantas pessoas, quando chega o momento de construir a moradia com
que sempre sonharam, não passam pela aflição de perguntar a si
próprias: será que vou ter de aturar um arquitecto?
Neste pequeno artigo, tentarei explicar como construir uma nova casa,
sem se sujeitar às exigências de um desses profissionais. Para que o
empreendimento seja levado a cabo com êxito há que fazer três
importantes
escolhas: estilo, técnico e empreiteiro.
O estilo
Eis-nos perante a primeira decisão a tomar - o estilo da casa.
Felizmente não é difícil porque existem apenas dois: o tradicional
(também conhecido por rústico) e o moderno, que vem colhendo
cada vez mais adeptos entre os jovens.
O tradicional caracteriza-se pelo típico telhado de aba e canudo, a
janela de alumínio aos quadradinhos, a lareira de cantaria com a sua
chaminé e o imprescindível barbecu, testemunho dos inumeráveis
prazeres da vida rústica. Já o moderno é completamente diferente, tão
diferente que até as coisas mudam de nome. O telhado desaparece,
dando lugar à cobertura plana; a janela perde os quadradinhos e passa
a chamar-se vão; à chaminé, em tubo de aço inoxidavel, chama-se fuga;
e barbecu é um termo obsceno que deve ser evitado na presença das
senhoras.
Não existem, pois, quaisquer espécie de dúvidas quanto a questões de
estilo - ou se é tradicional ou se é moderno, as duas coisas ao mesmo
tempo é impossível.
O técnico
Escolhido o estilo, há que escolher o alfaiate, que aqui designaremos
pelo técnico. Trata-se de uma escolha muito fácil, porque o que não
falta são técnicos. Intitulem-se eles construtores civis diplomados,
agentes técnicos de engenharia, electricistas habilitados ou
desenhadores habilidosos, todos se regem pela mesma cartilha, a de
João de Deus:
o pinto pia, a pipa pinga… Não passaram cinco anos a estudar
arquitectura? Não estagiaram mais dois? Que importa isso?
Concentremo-nos apenas nas suas>virtudes:
1- Projecto elaborado em tempo recorde.
2- Preço: 999 €.
Mas como conseguem eles ser tão eficazes? É simples:
antes de encomendado, o projecto já está feito. Até parece milagre!
Mas não é, o que se passa é o
seguinte: o técnico tem duas pastas no computador, uma para projectos
em estilo tradicional, outra para os modernos. Escolhido o estilo
pelo cliente, é fácil, emenda daqui, remenda de acolá e, numa tarde,
o projecto está feito! Para quê complicar?
"Mas o rapaz parecia semi-analfabeto, disse que não podia assinar o
projecto, mas que havia outro técnico que podia…". Não é caso para
preocupações, trata-se de uma situação corrente em que um técnico
analfabeto paga a um técnico habilitado para que este, a troco de uns
trocos, assine de cruz. Está tudo incluído no pacote e, (ironia do
destino!), quantas vezes o técnico habilitado não é um arquitecto
daqueles que faltaram às aulas de religião e moral… Aprovado o
projecto, o técnico já não é preciso para nada. É dizer-lhe adeus que
ele até agradece, porque de obra não percebe nada nem quer perceber,
quem percebe disso é o empreiteiro – a nossa terceira e última
escolha.
O empreiteiro
O primeiro encontro entre cliente e empreiteiro costuma ser decisivo.
É nele que terá de se estabelecer, entre o primeiro e o segundo, uma
relação de confiança cega, em tudo semelhante à fé. A fé de quem
acredita que, com um projecto feito por um técnico, que não
especifica nada, que não pormenoriza nada e que não quantifica nada,
não vai ser enganado por um homem que passa o dia a fazer contas de
cabeça… Entre cinco pequenos empreiteiros, como escolher o indicado
para construir a moradia? Infelizmente, chegados a este ponto, não
posso recomendar senão fé, muita fé e confiança, porque tudo o resto
é irrelevante:
1- O valor do orçamento é irrelevante, foi feito com base no projecto
do tal técnico, é um número atirado para o ar, um número que, com os
imprevistos, há-de subir ainda umas quantas vezes.
2- O prazo estabelecido para concluir a obra vai depender do bom ou
mau tempo e, nesse capítulo, só Deus sabe.
3- As garantias dadas são as que estão na lei - cinco anos. Se a casa
apresentar defeitos, reclame; se a reclamação não for atendida,
recorra ao tribunal (também pode recorrer ao pai natal se achar que
demora menos tempo…) Em suma, não vale a pena perder tempo com
ninharias, o mais importante é ter fé.
Conclusão
Se, apesar de conscienciosamente feitas estas três escolhas, as
coisas não correrem lá muito bem, se a casa ficar pelo dobro do
preço, se no Verão se assar lá dentro e no Inverno se tiritar de
frio, se para abrir a porta do armário for preciso arrastar a mesa de
cabeceira, se o vizinho protestar com o barbecu, se a cobertura plana
meter água, não vale a pena desesperar, resta sempre a consolação de
não ter tido de aturar um arquitecto.
Flávio Bernardo em 29 de maio de 2007

ao passar os olhos por este blog pude ver que alguém afirmava que o desemprego entre os arquitectos se deve ao excesso destes profissionais!!!!
será?????
se há excesso emtão porque é que muitos projectos são feitos por desenhadores???
Existem outros profissionais a fazer o trabalho de um médico???? Então porque é que neste país qualquer um pode projectar uma casa????
bianca em 22 de janeiro de 2009

Foi dos comentários mais infelizes que já li nos últimos tempos. O senhor parece-me, antes de mais, ser totalmente retrógrado. Arquitectura não é Arte? Realmente deve pertencer ao grupo de pessoas que pensa que a arquitectura moderna se limita a utilizar caixotes. Não conhece, certamente, grandes arquitectos como Frank Lloyd Wright, Daniel Libeskind, Frank Gehry, Zaha Hadid, ou em Portugal Souto Moura ou Aires Mateus, entre tantos outros, todos eles escultores, à sua maneira, ARTISTAS que mudam a vida das pessoas, oferecendo os seus espaços às cidades. Arquitectura é, para além de arte, a arte mais abrangente que existe hoje em dia. Ela reune em si o cinema, a pintura, a escultura, a escrita e faz de qualquer bom estudante ou arquitecto uma pessoa culta e participativa que se ri ao ler comentarios como este, totalmente desprovidos de inteligencia.
Sir Arq em 10 de abril de 2009
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