Caro arquitecto:
Fiquei surpreendido ao saber que se dignou responder com um artigo ao meu artigo que falava do seu artigo em que comentava outro artigo meu sobre um artigo de arquitectura de outro blog. Ufff...
Não estava à espera e cumprimento-o pela forma como o fez. Vejo que conseguiu dominar a sua “paixão” e escrever de forma mais serena e objectiva. Talvez esteja a desenhar-se aqui um debate extra-disciplinar que, se continuado, poderá trazer alguma luz ao mundo e não só ao da arquitectura. Debatamos, pois.
Devo, no entanto, deixar aqui uma advertência prévia que se prende com – precisamente – a linguagem e a comunicação. Desculpe-me insistir nisso mas há realmente “um certo tipo de discurso”, determinados “tiques de linguagem” ou o recurso sistemático a “frases mais ou menos feitas” que tenho ouvido a mais do que muitos arquitectos e que não fazem muito sentido para quem está fora da disciplina.
Não falamos, na verdade, a mesma língua, é forçoso reconhecê-lo. Quando eu me referi ao texto “inadvertidamente hermético” era o seu, e não o do Siza (qual?) que é reconhecidamente pouco dado às letras... Em contrapartida eu, por exemplo, não percebi muito bem o que quer dizer com “a lição que tiro dos poemas que leio, e que visceralmente tento verter para a minha prática enquanto arquitecto é essa: nomear a coisa. O lugar. A casa. A rua. A cidade.” NÃO!!! PIEDADE! RENDO-ME! Mas por favor não me atire com mais frases assassinas como essa...
Mas vamos ao que interessa. Tenho visitado o seu blog – aliás já o fazia há algum tempo – e descobri aí algumas obras suas e textos seus sobre arquitectura. E vou pegar por aí.
Há um artigo seu denominado muy divertido! que tem interesse por duas coisas: a primeira é quando diz que “o compromisso do arquitecto, antes de ser consigo próprio, com a sua consciência, é-o com o mundo”; a segunda é quando fala do tipo do empreiteiro.
Relativamente à primeira não podia estar mais de acordo. É esse o entendimento que tenho dessa profissão, quase um serviço público, o que quer que isto signifique. (E é por isso que sustento também que a Arquitectura não deve ser considerada uma arte, no sentido mais canónico do termo. O meu argumento não é pobre. A arte é produzida por um artista. Ponto. Há alguns arquitectos-artistas. Sim, muito poucos. A arquitectura corrente, mesmo a de muito boa qualidade não é arte. Ponto outra vez.)
Relativamente à segunda ideia sobre o pato-bravo tenho de exprimir o meu desacordo. Os empreiteiros não são todos assim (também conheço alguns). Isso é um estereótipo que apenas se ajusta em alguns casos. Provavelmente tem tido mas é azar. Mas não se esqueça que a arquitectura é a obra final e não o projecto que está no papel.
Seguem então algumas questões para reflexão.
O empreiteiro também faz arquitectura. Será um artista? E as pessoas que habitam as casas que os arquitectos desenham também as modificam, deixam nelas a sua marca, também fazem arquitectura. Serão também artistas?
Acha que as suas obras para Angra do Heroísmo respondem ao tal compromisso para com o mundo de que fala? E acha que o “homem da rua” (da rua de Angra, bem entendido...) será capaz de se aperceber de tal compromisso?
Não acha que a arquitectura – a sua também – se centrou grandemente em questões formais, de imagem? E acha que ela deve ser investigação formal? A tal imagem é assim tão importante? (Olhe que o Siza, que parece admirar, fala muito na capacidade de “apagamento” da arquitectura).
Isto levar-nos-ia a outras questões, igualmente apaixonantes mas por hoje ficamos por aqui. Peço desculpa ao Humberto Eco pelo título e a si se fui muito inconveniente.
Passar bem.
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