
Quando, aqui há uns tempos, escrevi um artigo intitulado arquitectura dos blogs nunca pensei que iria fazer tanto alvoroço... A verdade é que muitos o leram e alguns o comentaram; fui acusado de ignorante, de engenheiro, de arquitecto (isso é um elogio ou insulto? eheheh); fui até acusado de querer polemizar – e, pasme-se – por influência da TVI! Sim, admito que possa ser polémico mas não o são todos os pontos de vista? Não, não procurei a polémica; apenas registei as minhas reflexões. Se polemizei foi involuntário.
Eu que sou tão recatado, de baixo perfil, e que até nem vejo televisão (e muito menos esse canal!). Sape gato! Cruzes canhoto! Abrenuncio caldeireiro! Bordas de alguidar!
Escrevo aqui como cidadão que utiliza arquitectura e parece que sou estigmatizado por isso... Então só os arquitectos é que podem falar sobre arquitectura? Estão a dar-me razão... É que não consigo perceber a indignação de algumas vozes que suponho serem de arquitectos, feitas donzelas de honra manchada! Porquê? Estou a entrar na vossa coutada? Estão no vosso direito de discordar. Contra-argumentem, rebatam-me mas não se quedem pelo insulto ou pelo desdém. Não aprenderam a conduzir um raciocínio de modo objectivo e racional sem entrar pela via pessoal? Ora...
Então eu volto a argumentar...
A questão central da polémica parece ser, é, definitivamente, o "estilo" – ou, em arquitectês (passe a expressão), a linguagem... Pois. Aqui é que ninguém se entende. Há de facto, neste país e neste momento, uma enorme incomunicabilidade entre a arquitectura e os seus utentes, que somos todos nós. Falam-se linguagens diferentes. De quem é a culpa? (é preciso sempre haver um culpado, não é?) Também aqui ninguém se entende mas não existe um culpado único e exclusivo.
Os culpados serão os utentes da arquitectura, as pessoas da rua, que têm gostos enviesados? Uma cultura pimba que prefere um edifício “neo-histórico” profusamente decorado com motivos vários e desvirtuados a uma arquitectura limpa, desprovida de ornamento e artística? Por exemplo o português-suave de que já se falou...
Serão culpados talvez. Culpados de ser isso que lhes foi ensinado, de serem essas as referências que trazem consigo e, portanto, de serem essas as coisas que têm significado para eles!
E os arquitectos que culpa acarretam? Repare-se que também os arquitectos são responsáveis por estes “ensinamentos” – quem faz o português-suave senão eles? – e não apenas o “sistema”... Os arquitectos, digo eu, têm culpa em se refugiarem no alto da sua ciência – não arte! – e não dialogarem.
Atesta-se que uma boa parte da produção arquitectónica corrente é feita por jovens profissionais que procuram e utilizam uma linguagem estereotipada, abstracta e inexpressiva. Uma arquitectura de caixotes, poderá dizer-se em termos um pouco pejorativos, que corresponde à aplicação acrítica da receita: “volumes/planos/linhas/minimalismo”. O que acham que pensa o povo disto? Já repararam nas alcunhas que dão a este tipo de edifícios? Mas esse facto não parece preocupá-los: desdenham, apelidam o dito povo de ignorante e continuam a debater entre si os seus projectos, conquanto saiam na revista...
Eu sei quem é o culpado: é o arq. Eduardo Souto de Moura... Ele é que começou tudo! A coisa agradou e toca a copiá-lo, infelizmente mal... Porque, como sempre, se copiou a imagem e não o conteúdo. Quem aprofundar a obra de Souto Moura verá que ele não procura a imagem, pelo menos directamente; aquela imagem nasce de opções construtivas (esta é uma explicação simplificada, é obvious!). Seria conveniente analisar a obra de Mies van der Rohe, a este propósito. Ele fê-lo.
Agora digam-me, arquitectos de que falei acima: têm real consciência do porquê da linguagem que adoptam para os vossos projectos? Os vossos modelos são escolhidos como? Seriam capazes de realizar um projecto noutro estilo que não aquele modernista ou modernaço que vos ensinaram nas Faculdades? E fa-lo-iam com qualidade arquitectónica intrínseca (formal, espacial, construtiva, etc.) dentro das regras que esse estilo impõe?
Bem, se o fizessem seria um excelente e profícuo exercício... O saudoso James Stirling soube fazê-lo melhor que ninguém ao longo de toda a sua prática profissional. Não se instalou num estilo de autor e teve sempre a lucidez de procurar uma linguagem adequada a cada situação.
Ainda uma última pergunta: porque insistem tanto na linguagem modernista quando ela é tão desadequada a este tempo e a este espaço? Acaso se lembram que um dos pilares do Modernismo – isto é História! – foi precisamente a demanda por um estilo adequado à sua época? E que o procuraram nas artes plásticas vanguardistas (cubismo, neoplasticismo, etc.) mas que são neste momento centenárias? E que aspiraram a educar o povo com a sua arte? E que se desiludiram com o “monstro” que criaram? E que lutaram contra uma linguagem académica e estereotipada como a que os arquitectos portugueses estão a utilizar neste momento?
Então, de quem é o próximo passo?
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