Formas com significado
Hoje apetece-me continuar a viajar no tempo... Irei parar no Alto Império Romano outra vez. Acho que ainda não disse tudo o que queria dizer sobre isto. Na verdade, está ainda demasiado enraizada a noção de que a arte romana e em especial a arquitectura é uma cópia abastardada da arte grega, esta sim um paradigma da pureza e da estética clássica. Algumas teorias mais recentes, que perfilho, têm vindo a rebater progressivamente estas ideias.
Um dos grandes – o principal? – responsáveis pela perenidade desse conceito foi... Vitruvius. Sim, ele mesmo, e a sua obra De Architectura, geradora de um dos maiores equívocos históricos e artísticos de sempre. Foi esta obra, redescoberta no século XV, que alimentou toda a arquitectura clássica desde o Renascimento até ao século XIX. Espantoso! E, no entanto, tal documento não espelha nem ao de leve o que foi a arquitectura romana. Porquê? Porque foi escrita no século I, durante o Império de Octávio Augusto, e, portanto, não podia conhecer as magníficas criações arquitectónicas dos Flávios ou dos Antoninos, tidas hoje como as maiores que os Romanos produziram. Quem leu De Architectura pensou que a arquitectura romana eram as Ordens quando no fundo era tão só... o Espaço!
E eis-nos chegados ao ponto que me interessa. Os romanos revestiam as estruturas dos seus edifícios de tijolo e betão com ordens arquitectónicas, uma espécie de escultura arquitectural, porque as achavam rudes. Mas seria só por isso? Eu penso que não. A principal razão porque o faziam era por se tratarem de formas com significado (sim, significado, um conceito que tão pouco é omisso na famosa tríade vitruviana: firmitas, utilitas, venustas)...
Esta questão do significado sempre esteve presente na História da Arquitectura e da arte em geral. Todavia, parece estar esquecida por muitos arquitectos que actualmente produzem uma arquitectura asséptica, abstracta e fria que, como tenho defendido neste blog, é completamente injustificada neste tempo e espaço. Não sei se têm consciência da razão porque o fazem mas sempre que isso aconteceu na História os arquitectos foram por isso penalizados. Um exemplo? No século XIX a arquitectura Neoclássica era uma fórmula esgotada utilizada pelos artistas formados nas academias que se recusavam, todavia, a reconhecê-lo e a procurar um novo vocabulário consentâneo com a época. Resultado: a denominada Arquitectura do Ferro – pura engenharia! – triunfou sobre aquela...
Encontramos um corolário destas teorias se recuarmos um pouco mais na nossa máquina do tempo até ao Antigo e Médio Império do Egipto. Ali podemos ver formas estranhíssimas (as pirâmides são uma excepção demasiado geométrica) perpetuadas na pedra, material todavia pouco adequado àqueles arrebiques: cavetos, arestas redondas, diversos ornamentos cilíndricos, etc. São reminiscências formais de uma arquitectura arcaica feita com base em tijolos de lama, madeira e esteiras de junco, os materiais de construção locais.
A explicação é muito prosaica. Trata-se de um problema de iconografia. A relação entre o material e a forma não era uma preocupação dos antigos arquitectos egípcios. Também a pesquisa da forma arquitectónica não era um fim em si: era a expressão de um conteúdo – um significado! E deste modo, encontra justificação a manutenção de formas próprias da madeira ou do tijolo num material perene como a pedra sem a adequação à sua especificidade – a petrificação pura e simples. No Modernismo isto seria uma heresia!
Resta acrescentar que este princípio foi regra no Mundo Antigo e teve continuação na Idade Clássica. Qual pensam que foi a origem das Ordens gregas? Mas isso ficará para outra viagem no tempo...
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