“History will teach us nothing” I

Publicado em arquitectura por seven em 6 out 2004

Artistas e arquitectos

artist.jpg A História repete-se. Lá dizia Marx: “a primeira vez como tragédia, a segunda como comédia”. Não queria fazer deste artigo uma lição de História – quem sou eu para o fazer? Se lhe dou o título de um tema do Sting é porque assenta que nem uma luva ao que pretendo transmitir. Não aprendemos nada, de facto...

Tenho visitado um Fórum de Arquitectura onde, sem que eu tenha feito alguma coisa para tal, os meus artigos sobre este tema têm sido comentados. As opiniões divergem muito, o que é natural. E embora algumas (poucas) tenham algo que se lhes diga lastimo as outras se quedem exclusivamente pela dúvida sistemática sobre quem sou eu – arquitecto, designer, engenheiro, professor universitário, eu sei lá! O que é que isso interessa? Vamos parar com isso, por favor... – e não pelo valor do que afirmo; outras ainda embrulham-se em lucubrações despropositadas que não acrescentam nada à matéria em causa e são reveladoras de uma real capacidade argumentativa.

Houve uma que me chamou a atenção: “qual a fronteira entre a arquitectura e a engenharia? e a partir de que momento deixamos de chamar arquitectura para chamar escultura?” Quem o escreve é um presumível estudante de arquitectura. É só para polemizar e deitar poeira para o os olhos ou não o sabe de verdade? – “real ignorância” nas suas palavras. O melhor é olhar para a História.

Existe uma clara separação em relação à Escultura, uma vez que esta não é obrigada a ser funcional. Não é uma arte, igual às denominadas artes liberais, pelo menos. O conceito é clássico. Embora algumas teorias modernistas – as que estiveram na génese da Bauhaus, por exemplo – defendessem que a arquitectura era a Arte Maior foram inconsequentes (o Modernismo, lembremo-nos, não foi o único movimento a ter expressão na arquitectura; foi o mais divulgado, isso sim, graças a acções propagandísticas sagazmente levadas a cabo, entre outros, por Le Corbusier e Siegfried Giedon, o seu historiógrafo oficial).

Mas há obras de arquitectura que podem ser arte – e são-no efectivamente – quando são feitas por artistas... Todas as obras de arte são feitas por artistas. Quem são eles?

São pessoas, inseridas numa Sociedade, que através do seu desempenho criativo – uma acção estética deliberada e continuada – têm uma intervenção relevante naquela Sociedade. E, para o serem, devem ter o respectivo reconhecimento público (por isso não há artistas em início de carreira – o conceito é retrospectivo). Neste quadro, haverá certamente arquitectos-artistas mas ser arquitecto per se não é condição suficiente para se ser artista.

E, por esta razão, não é correcto apontar indiscriminadamente a “arquitectura” – designação genérica – como arte, um bloco onde cabem quer as obras de artistas consagrados (não quero referir nomes se não a polémica ainda aumenta!) quer as obras e os projectos de jovens arquitectos. A bem do rigor!

Outra razão porque a arte-arquitectura deve possuir um estatuto diferente é pelo facto de ser uma realização colectiva. No projecto e na obra intervêm uma miríade de personagens para além do arquitecto, desde os engenheiros aos construtores, passando pelos utentes! E a sua intervenção é não apenas uma fatalidade (na óptica de alguns arquitectos) como desejável, se se quiser que a obra tenha algum significado social, como deve, para ser arte. Serão todos também artistas por arrasto?

Voltarei a este assunto brevemente.

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