Requerimento ao Rei


Senhor, visto que aquela antiga fibra histórica da Honra é coisa velha, e que não vale um chavo, e a Justiça uma flor somente que a Retórica põe à janela, ao sol – como a burguesia um cravo;

Visto que aquele forte e antigo herói, o Brio, que andou na Grécia, em Roma, em Diu, Aljubarrota, é hoje um velho tonto, asmático, com frio, que traz um chapéu pífio e uma casaca rota;

Já que é ainda a Igreja, a exótica coruja, que odeia o recto sol, e só em trevas anda, e a Moral uma colcha, aparatosa e suja, que D. Instituição estende na varanda;

Já que da antiga Lei, a deusa cuja porta entravam a tremer as almas mais tigrinas, resta a pele hoje só duma pantera morta, onde se põe os pés mimosos das meninas;

Já que é "Amor do Bem", a cândida bonina, que o Estado põe ao peito, e que enternece os tolos, e a Economia ideal, chorosa cavatina, que a monarquia canta em noites que dá bolos;

Já que é a Ilustração o grande dó no peito, que a Ordem faz soltar duma garganta d'ouro, e o Progresso, o gentil, mimoso amor-perfeito, que a loura opinião bordou para o namoro;

Pois que chamam ao Génio um louco – que se mete a lutar contra os reis e mais os seus furores que não arrasta o estro em forma de tapete, nem faz da Inspiração um capacho de flores;

Visto que é inda hoje, o heróico Pensamento, o crânio que combusta a lava do trabalho, um doido, um pobretão, que na trapeira, ao vento, namora D. Ideia, e come açorda d'alho;

Visto que é hoje o Estudo um sórdido trapeiro, cuja lanterna desce aos antros onde há gritos, e a austera Probidade um reles pardieiro, desabitada há muito, e há muito com escritos;

Enfim, já que não tem o Roubo antipatias, e o ferro em brasa, o estigma, as infamantes notas, – é preciso extirpar, ó rei! as regalias do que furta milhões sobre o que furta botas.

É preciso extirpar o preconceito sério contra o gatuno audaz, jovem, mas sem bom senso, que não pôde trepar ainda a um ministério, e teve tempo só para furtar um lenço.

É forçoso arrancar o vil labéu do pobre ratoneiro em botão, gatuno inda em raiz, que nos subtrai do bolso um desprezível cobre, por não ter inda a jeito a burra do País.

E sendo iníquo, enfim, uns rirem na opulência, outros apodrecer num cárcere corrupto... eu ergo, ó rei! a voz ante a vossa clemência, e em nome da Equidade, em nome da Coerência, – requeiro a liberdade do Matuto.

Gomes Leal (1848-1921)


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