A cor e a arquitectura II

Publicado em arquitectura por seven em 19 nov 2004 | 2 comentários

Os primeiros tempos da arquitectura moderna foram marcados por um cromatismo purista e minimalista derivado da estética neoplasticista; a reacção crítica do segundo pós-guerra trouxe de volta a exuberância pictórica, por vezes desregrada, do Post-Modern... Definitivamente, a arquitectura do século XX teve uma relação difícil com a cor. E no passado, como foi?

Por razões que não sei identificar muito bem mas que julgo ter a ver com a falta de rigor dos primeiros historiadores, tornou-se comum associar à arquitectura do passado – igrejas, monumentos e outros edifícios históricos – uma imagem assexuada em termos cromáticos, uma arquitectura de pedra ou tijolo completamente despida de cor.

É certo que é difícil julgar a cor do passado: a cor é também um fenómeno social e cultural e era forçosamente vista com outro olhar – e com outra luz também!... Mas não se tenha a ingenuidade de pensar nos antigos a preto e branco. Atente-se neste exemplo: as esculturas neoclássicas que floresceram pela Europa no século XIX eram brancas, com um polimento sem mácula, pois assim imitavam as originais, trazidas à luz pela Arqueologia; mas o tempo tinha apagado toda a tinta que as recobria; sabe-se hoje que as estátuas clássicas eram pintadas de tal modo que replicavam fielmente figuras humanas... E o mesmo se pode dizer dos templos gregos, que hoje ainda admiramos na nudez da sua pedra: eram profusamente coloridos!

A arquitectura do passado tinha, pois, uma relação muito forte com a cor, não só na valorização estética que daí lhe advinha como também no reforço do seu conteúdo simbólico. Investigações sérias têm revelado restos de pigmentos diversos em edifícios antigos e documentos que relatam processos mais ou menos sofisticados de obter tintas, o que parece provar que os nossos avôs não viviam num mundo a preto e branco.

Este maçador preâmbulo serve para introduzir uma experiência muito interessante e pedagógica lavada a cabo há cerca de 4 ou 5 anos na catedral de Amiens. Os portais foram fotografados de pontos de vista precisos e coloridos por processos digitais. Estas novas imagens, depois de impressas em filme, foram projectadas rigorosamente do mesmos locais onde tinham sido captadas, de modo a obter-se uma sobreposição perfeita.

amiens_2.jpg

Houve algumas dificuldades sérias. A primeira tem um carácter histórico: repor a cromia original com base na análise dos pigmentos, na iconografia medieval e outros documentos fiáveis; a segunda de carácter técnico: a cor da luz não corresponde à cor do pigmento e há que contar igualmente com a cor da própria superfície de projecção (a pedra). Se calhar esta interpretação acabou por ser mais artística que científica...

amiens_1.jpg

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2 comentários

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Genial seu blog, passei uns bons 15 minutos lendo, Voltarei mais vezes...Ah, e obrigada pela visita ao Ego.

Cris Alcântara em 20 de novembro de 2004

Visitei esta página, pois estou em busca de iconografias medievais, para elaboração de um trabalho acdêmico que retrate a a criança naquele contexto histórico.

Olvando de Oliveira Branco em 13 de agosto de 2008

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