Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de magoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das aguas.
Bóiam como folhas mortas
A tona de aguas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remedio,
Vestígio do que nao foi,
Leve magoa, breve tédio,
Não sei se para, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
Fernando Pessoa (4-8-1930)
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