Bibliofilia


Alguém me sabe dizer alguma coisa deste livro fabuloso? Apenas conheço uma edição que tem anos...

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Posso dizer-vos que é das coisas mais geniais que tenho lido: as relações empresariais vistas da perspectiva do patronato com uma ironia e uma inteligência fora do comum. É escrito por um sociólogo, Carlo Majello, e o passar dos anos não lhe retirou pertinência. Muito pelo contrário.

Deixo-vos aqui um excerto do primeiro capítulo:

"A TÉCNICA DO ACOLHIMENTO ou: De que maneira repelir o recém-admitido que supunha ter encontrado uma família

A admissão de um novo empregado implica sempre problemas de comunicação. O recém chegado deve compreender imediatamente onde se encontra, e deve ser instruído. Deve aprender as normas de comportamento que a escola não ensina (oh, o benéfico ponteiro dos mestres de outros tempos, demasiadamente amolecido pelos modernos testes sobre educação cívica!). Normas que nem sequer os pais ensinam, ataviados como estão com suspensórios coloridos, em vez dos rijos cinturões de antigamente.

O novo empregado não sabe nada de nada. É preciso formá-lo, dando-lhe desde logo a sensação de que a empresa não é a pândega que ele supunha. Aqui trabalha-se, esfalfa-se a gente! Como dizer-lho? Simples. Eis algumas das principais regras de acolhimento, para uso e consumo dos Dirigentes:

1. O recém-admitido deve ser conduzido para um compartimento onde mesas e cadeiras estejam já ocupadas. É justo que ele procure desesperadamente um lugar para se sentar. Cada conquista exige tempo e canseira. Isto deve durar algumas semanas.

2. Durante os primeiros seis dias, todas as manhãs, a horas diferentes, é preciso dar-lhe a saber que o Chefe o mandará chamar, para o conhecer. Tal ideia criará nele um benéfico suspense e a necessária sensação de dependência absoluta em relação ao seu Superior.

3. Entretanto, ter-se-á o cuidado de informar directamente o recém-admitido de que não havia qualquer necessidade dos seus serviços, mas que no entanto será utilizado como moço de recados, ou talvez como geómetra. Pode ser ainda que seja agregado aos serviços de estatística, consoante se tratar de um homem formado em leis, de um professor primário ou de um intérprete de línguas.

4. Finalmente será convocado para as dez. A espera na antecâmara durará até às doze. Na altura própria, um contínuo comunicar-lhe-á que a entrevista ficou marcada para as quinze. Às dezoito o empregado introduzi-lo-á no escritório do Chefe.

5. Mal o vê, o Chefe tem logo o cuidado de o ignorar. Continua a escrever, olhando de quando em quando para a janela. Pega no telefone e, quer se trate de um interlocutor verdadeiro ou imaginado, censura-o, mostrando-se sinceramente malcriado e fitando o recém-admitido.

6. Passados cerca de vinte minutos, o Chefe finge então lembrar-se dele, dizendo-lhe: «Ah, é então o novo empregado?», com o ar de quem quer dizer: «Ah, já chegaste? Pois vais ver o que é bom!» A seguir, o Chefe abre a gaveta, tira a caixa dos cigarros suíços e acende um. Tudo muito devagar, e com uma expressão pensativa. Depois, como quem emenda uma distracção, pergunta subitamente: «Você fuma?». Se o outro responde timidamente que sim, quase feliz por mostrar uma conivência no vício, continua a interrogá-lo e, a certa altura, ordena: «Bem, fale-me de si!»

7. Pega imediatamente no telefone e diz à secretária que lhe traga o dossier sobre as exportações para o México, ou - quem sabe? - sobre os rolamentos de esferas. Qualquer dossier serve, desde que não tenha a menor relação com o empregado - ao qual houve o cuidado de não oferecer sequer uma cadeira, quanto mais um cigarro!

8. Convidando o empregado, novamente, a falar de si, o Chefe espera apenas que ele abra a boca, e interrompe logo: «Jovem, eu tenho trinta anos de experiência! Anos duros! Difíceis! De sacrifícios! ...» Com um gesto breve, aponta-lhe os seus próprios cabelos brancos, ou grisalhos. No entretanto chega a secretária.

9. O Chefe deve falar com a secretária durante tanto tempo quanto for possível e, se houver oportunidade, deve ameaçar os ministros, os chefes de gabinete, dirigentes, colegas, subordinados. Deve dar a entender que, a ele, «ninguém lhe faz o ninho atrás da orelha». As ameaças deverão, especialmente, ser dirigidas aos poderosos.

10. O Chefe levanta-se da cadeira de braços e caminha de um lado para o outro, com as mãos atrás, obrigando o recém-admitido a girar sobre os calcanhares, para estar sempre voltado para ele.

11. Deve evitar, de todas as maneiras, que o empregado abra a boca. Mentiria se dissesse que o trabalho lhe agrada, ou afligiria o Chefe com histórias patéticas sobre a família pobre. Ou, pior ainda, confiaria as suas ambições de progredir.

12. Então o Chefe volta à sua secretária e remexe papéis, apontamentos ou agendas. Agita-se de maneira a demonstrar que tem realmente muito que fazer. Enquanto o empregado recua na direcção da porta, deve lançar-lhe um: «Olhe por si!» Uma frase destas subentende uma porção de coisas. É um aviso, mas também uma promessa. É uma exortação, mas não deixa de ser uma ameaça. Pode até significar, oportunamente: «Não julgues que, lá por te ter concedido hoje uma audiência, tenha a menor intenção de te deixar pôr aqui os pés, de futuro!»

Estas normas de procedimento confirmam imediatamente, ao recém-admitido, que tudo o que ouviu dizer a respeito do Chefe é a sacrossanta verdade.

Não há dúvida de que fez mal em vir para ali, mas como cidadão livre pode, em qualquer momento, pedir um passaporte para a Venezuela, ou para a Costa do Marfim."


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