Equívocos da Arquitectura Moderna I

Publicado em arquitectura por seven em 1 dez 2004

O “Estilo Bauhaus”

Este post é o primeiro de uma série – não sei de quantos... – sobre algumas ideias supostamente herdadas do Modernismo que são tidas quase como dogmas na actualidade e que merecem ser desmontadas. Uma delas é sobre o estilo ou, como os arquitectos costumam chamar-lhe, a linguagem dos edifícios.

Já anteriormente aqui falei da designação dada no Leste europeu à arquitectura funcionalista: estilo Bauhaus. É historicamente correcto atribuir-se a Gropius o pioneirismo no recurso a esta linguagem, pois foi um dos primeiros a utilizá-la. As experiências que neste sentido desenvolveu antes da 1ª Grande Guerra encontraram um corolário na casa-modelo Am Horn, produzida na Bauhaus em 1923: volumes geométricos, ausência de decoração, áreas envidraçadas generosas e minimalismo cromático a servir de imagem a um edifício que primava pela inovação tecnológica e pela funcionalidade.

casa_am_horn.jpg

Curiosamente, também na época este edifício foi “baptizado”: “caixa branca de bombons”, “fábrica de farelo”, “cubo caiado” ou “estação do Pólo Norte”. Num tom irónico apetece dizer que ou esta atitude é intemporal ou então nós (portugueses) temos 100 anos de atraso em relação à Alemanha...

Após esta estreia tão pouco auspiciosa poderia pensar-se que esta aventura morreria por aqui... Mas o que aconteceu foi precisamente o contrário: a (posteriormente apelidada) arquitectura Funcionalista tornou-se um caso de sucesso internacional ao ponto de se identificar com o próprio Modernismo. Este é um dos equívocos que ainda subsistem.

Algumas razões para o facto são (re)conhecidas e verdadeiras; outras menos; outras ainda nem por isso. Vamos por partes. O primeiro grupo de razões tem a ver com a qualidade intrínseca desta arquitectura. Era funcional, era rápida de construir, era económica, era facilmente reprodutível e era novidade! Chegaria isto para garantir o seu sucesso? Não, porque tinha muitos problemas climáticos, construtivos e até sociais, sobretudo no que toca aos aspectos urbanísticos.

E aqui entrou a propaganda, o segundo factor que explica o seu sucesso. Giedion, Le Corbusier (sobre este falarei em capítulo próprio) e outros modernistas convictos não se pouparam a esforços para demonstrar a validade da nova arquitectura em relação às outras e não apenas à “tradicional”: luz, espaço, etc. Mas não seriam estes argumentos idílicos que convenceriam o público em geral, à excepção de alguns mais esclarecidos. Não foram eles que se deixaram convencer...

A verdade menos conhecida é que então, tal como hoje, foi o capital (ou deveria escrever “das Kapital”?) a mola real desta arquitectura. Não me refiro, como é evidente às casas unifamiliares mas a projectos de grande escala. É preciso não esquecer que esta arquitectura em particular se adaptava muito bem às necessidades de reconstrução da Europa no período do pós-Guerra: pré-fabricação, produção em série, materiais industriais, tecnologia... É o próprio Le Corbusier que diz isto muito claramente: “Des canons? Non, merci. Des logis!

Podemos fazer uma referência comparativa à precedente arquitectura Art Nouveau que, apesar de deslumbrante aos olhos da época, teve uma vida tão efémera. Na verdade era uma arquitectura de base artesanal, alicerçada no desenho e no estilo individual quer do arquitecto quer do artesão e numa relação muito próxima dos dois. Era contra a indústria, uma ideia que vinha já de William Morris, e a indústria não lhe perdoou. Quando os arquitectos, como Peter Behrens e Walter Gropius, perceberam e se puseram ao lado dos industriais o resultado esteve à vista...

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