Trauma e nostalgia


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Acho que desde muito novo ganhei um trauma com as viagens que ainda hoje mantenho e, até, acarinho... Primeiro foram as viagens de automóvel: as estradas eram horríveis, em paralelo, cheias de curvas, intermináveis, com o sol a bater... Eu enjoava sempre.

Depois passei à camioneta, de carreira ou Expresso, ambas detestáveis - as camionetas cheiravam mal, eram desconfortáveis e a cair de velhas, apesar de terem carrocerias novas... Invariavelmente passavam música para "entreter" os passageiros, coitados! A qualidade da música era abaixo de cão, quase sempre proveniente de uma cassete que o motorista possuía ou de outra que algum passageiro simpaticamente cedera. Ouvir Marco Paulo era estar num dia de sorte... Quando as camionetas eram Autopulmann - um luxo! - tínhamos direito a televisão e vídeo! Neste caso quase sempre nos brindavam com um excelente filme do Chuck Norris da fase épica "Desaparecido em combate"...

Quando estava na tropa tive a minha dose de comboio. E que dose! Por um quarto de bilhete em 2ª classe tive direito a penetrar intimamente no Portugal profundo: a partilhar os comboios da meia-noite com uma fauna heteróclita e estranha, a conhecer as maravilhas da via-estreita em dias de mercado, a desfrutar dos prazeres da Linha do Sado, a surpreender-me com o número estupidamente grande de pessoas que um Wc pode comportar no caso da carruagem estar cheia e a saber que as prateleiras para as bagagens por cima dos assentos proporcionam um sono reparador, na condição de nos prendermos a elas com o cinto por causa dos balanços... Estou certo que qualquer sociólogo teria delirado com isto!

Da primeira vez que viajei de avião andei tão nervoso que até o meu sistema digestivo se ressentiu seriamente (é preciso esclarecer que se tratou de uma viagem para o Funchal, antes da pista ter sido ampliada...). Mas depois de me habituar tornei-me um fã da TAP. Aquela companhia era exímia em espetar-nos secas de todos os tipos, desde greves repentinas, atrasos inexplicáveis, bagagens trocadas, tudo isto maravilhosamente temperado pela delicadeza do pessoal da empresa que passeava arrogantemente de um lado para o outro sem dar qualquer esclarecimento!

Quando finalmente comprei um carro pensei: acabou-se! Puro engano. Sim, porque devia ter comprado era uma camioneta de carga, tal é quantidade de "tarecos" que se levam atrás mesmo para uma pequena viagem! Quem tem filhos pequenos sabe bem ao que me refiro... Ao menos não enjoo.

Viajar é, hoje em dia, uma necessidade que se procura fazer o mais rapidamente possível. Gostava de viver no tempo em que viajar era um prazer, mesmo até um modo de vida, quando havia pessoas que passavam a vida a viajar - moravam em hoteis e tinham aquelas malas de porão enormes que alguém tinha o cuidado de "rechear" para elas. Nostalgia...


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