Portugal


Um post de JPP no Abrupto intitulado Princípios básicos para se perceber Portugal levou-me a escrever o que penso sobre este país que por acaso é o meu. É certo que muita tinta já correu sobre isto e provavelmente não irei acrescentar nada mas apetece-me dizê-lo, quase como um desabafo, correndo o risco de ser simplista.

Talvez o principal problema deste país seja que ninguém gosta de trabalhar. Consequentemente não trabalha. O trabalho é uma chatice e sempre que possível foge-se dele: faz-se que se trabalha no emprego, inventam-se “pontes” (coisa que considero indecente), metem-se baixas a torto e a direito e prefere-se estar desempregado a auferir o Fundo de Desemprego do que a trabalhar. Quem não trabalha nem sempre é visto como um malandro mas sim como um espertalhão e até como um exemplo a seguir! A nossa cultura pura e simplesmente não valoriza o trabalho. Estou enganado?

Podia julgar-se que somos ricos por assim pensar e agir. Mas não somos e, apesar de não sermos verdadeiramente pobres, temos e tivemos sempre hábitos de ricos. E actualmente esses hábitos são vida social agitada (bares, cinemas, jantar fora...), objectos de consumo conotados com status (carros, telemóveis, roupa...), lazer (festas, viagens...) entre outros. Em contrapartida lá em casa não se compra um livro ou uma revista decente ou se lê sequer um jornal que não seja desportivo... Por dentro pão bolorento, por fora cordas de viola, diz o ditado.

As nossas ambições ficam-se por aqui; noutras épocas seriam proporcionais ao respectivo contexto. Choca-me ver aqueles que apenas usam a sua riqueza para adquirir bens materiais - carros, casas, etc. No fundo não produzem nada, apenas consomem. E esta "cultura", como todas aliás, reproduz-se num círculo vicioso. Desde a escola que os cidadãos deste país são educados no consumo acrítico (até das próprias "matérias" que lá se ensinam) e na cultura da mediocridade (leia-se "estar na média").

Dediquemo-nos a um pequeno exercício de comparação. Os países a que chamamos eufemisticamente “ricos” – e que são sempre “eles”, os “outros” – têm enraizada uma cultura de trabalho e foi sobre ela que fundaram a sua prosperidade. A riqueza “deles” está nos seus recursos humanos. Veja-se: os americanos trabalham que se fartam; os alemães não sabem fazer outra coisa; os japoneses nasceram para aquilo; os chineses pagam para trabalhar... E não me venham com a treta de que a riqueza “deles” se deve aos seus recursos naturais se não o Brasil ou a Venezuela seriam potências mundiais!

Como por coincidência os casos de sucesso da economia portuguesa ocorrem não em situações de descobertas geniais, grandes inovações ou esperteza saloia mas sim naquelas onde se trabalha e se produz a sério... Competitividade é apenas isso: trabalho. E atrás do trabalho vem a riqueza; atrás desta a cultura; e atrás dela...


version 2/s/recortes// //seven