As onomatopeias #1


Ainda há muitos que vêem a BD com desdém, como uns bonequitos engraçados a que chamam "mickeys" ou "patinhas", por referência às histórias aos quadradinhos brasileiras com o mesmo nome. E, no entanto, já lá vão muitos anos que esta expressão artística atingiu a maioridade e conquistou características peculiares que explorou e desenvolveu. Um dos seus traços mais distintivos é a maneira como representa os sons recorrendo às onomatopeias.

Desde os clássicos americanos, como Batman, que estas palavrinhas muito sonoras polvilham os desenhos. É necessário dar-se a ilusão tão real quanto possível do som desejado. Para isso, o tamanho, a forma ou a disposição das palavras na vinheta são muito importantes, de tal modo que se tornam elementos de pleno direito do desenho.

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Na série Michel Vaillant que se desenrola quase sempre no mundo das competições automóveis, o seu autor especializou-se em ruídos de motores. Aqui as onomatopeias ocupam uma área muito importante dos enquadramentos e replicam como "ruído visual" o correspondente ruído ambiente. Além disso, funcionam também como elemento dinamizador do desenho. Repare-se como o "som" acompanha a linha diagonal da trajectória e vai diminuindo à medida que o carro se afasta.

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A onomatopeia pode tornar-se o elemento dominante da vinheta, "esmagando" o desenho propriamente dito. Pode também adquirir formas muito expressivas que fornecem ao desenho a informação que lhe falta ou que não é capaz transmitir, como é o caso desta vinheta de Gaston.

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A vinheta pode até ser só constituída por uma onomatopeia, como é brilhantemente demonstrado neste excerto de Cubitus, de Dupa. Realmente seria inútil descrever de outro modo a intensidade dramática do momento em que se quebra um precioso jarro chinês...

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Tentem imaginar esta cena de La pantomime, de Gotlib, sem as onomatopeias... A cena perdia metade da graça, evidentemente. De resto, este autor é exímio na criação de fonemas escritos sugestivos. Repare-se no pormenor dos acentos circunflexos.

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Deixei para o fim um exemplo de Astérix, de entre muitos outros em que a série é pródiga. Nesta cena os legionários romanos avançam da esquerda para a direita (no sentido da leitura, portanto) para algo que sucede além da vinheta. São as onomatopeias que resolvem e esclarecem a cena, sugerindo uma imagem virtual do que se está a passar e que o leitor antecipa com algum gosto. Goscinny e Uderzo dão aqui uma lição magistral do que é a narração em BD.

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