Uderzo-Goscinny


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Uma das duplas mais famosas da BD franco-belga, os autores de Astérix e Humpá-pá, dispensam apresentações. Porém, haverá alguns que os não conhecem e muitos, certamente, que os não conhecem bem. Com cerca de 40 anos, aqui fica uma descrição de cada um, pelas palavras do outro...

Uderzo:

Foi-me pedido que lhes descrevesse René Goscinny. Estou certo que isso não será motivo para pôr fim a uma bela amizade, que já dura há mais de dezasseis anos... Quando vi Goscinny pela primeira vez, ele era um homem de altura mediana, bastante magro, de cabelo castanho e encrespado. Actualmente Goscinny continua a ser um homem de altura mediana, continua a ter cabelo castanho e encrespado, mas está um pouco menos magro. Particularidades curiosas do seu rosto são duas covas que lhe surgem nas faces quando ele sorri. A minha filha, que tem onze anos, já me perguntou o que é preciso fazer para ter umas covinhas assim. Por este exemplo, podem avaliar as situações embaraçosas em que, por vezes, um amigo nos pode colocar.

A encantadora mulher de Goscinny pediu-me que eu escrevesse que o marido é belo e inteligente. Pois a verdade, minha amiga Gilberte é que inteligente é ele... Possui um tipo de inteligência intimamente ligada com a sua notável habilidade de extrair todo o humor possível das situações. Seja qual for a origem deste seu dom – os seus tempos de serviço militar, recordações de viagens ou simples acontecimentos quotidianos – Goscinny sabe contar uma história capaz de fazer os leitores rir a bom rir. Goscinny não pertence ao tipo desportivo. As suas experiências neste campo – breves e únicas – nada têm que contar. E ele não tem pejo em confessá-lo.

A verdade é que, para um desenhador, o cúmulo é ter de traçar um retrato... em prosa. Por isso resumirei tudo desta maneira: René Goscinny é um homem simples, um grande amigo e um grande artista.

Goscinny:

Na época em que nos conhecemos, Uderzo tinha um belo bigode, que não usa presentemente. É claro que, se quisesse, podia produzir um novo bigode, igual ou ainda melhor do que o anterior, pois ele tem muita experiência neste campo.

Nos tempos em que comíamos no local em que trabalhávamos, era sempre ele quem levava as melhores sanduíches: de camembert, carne de vitela e mortadela, e dava-me sempre as mais suculentas, geralmente as feitas com camembert e carne de vitela fria. Uderzo tinha, e continua a ter, um nariz que mexe quando ele está de bom humor, e devo dizer que ele está geralmente de bom humor. Aliás, quando não está satisfeito, também tem piada: farta-se de resmungar, o que o faz mexer as orelhas.

É um óptimo motorista e guia belos automóveis. Quando me deixa à porta de casa e, na presença da porteira, eu lhe digo: “Obrigado Albert, vem buscar-me amanhã á mesma hora”, as suas orelhas permanecem imóveis e faz-me um cumprimento amigável com a narina. Tem um magnífico fato, aos quadrados brancos e pretos, que, apesar de não ser da cor dos seus olhos, lhe fica muito bem. A razão deve estar no facto de que, quando ele está satisfeito, não se lhe verem os olhos, ou melhor, não ser preciso olhar para o nariz dele, o que é muito difícil.

Como é muito tímido, Uderzo nunca toca, mas eu sei que ele é um barra no acordeão. Se toca ou não viola, não sei. Nunca me disse nada a tal respeito... Ele é tão tímido! Tem uma mulher encantadora e uma filha adorável e, além disso, desenha. Queriam que, depois de tudo isto, Uderzo não fosse o meu melhor amigo?

(Publicado no Tintin nº 28 - 2º ano de 6/12/1969)


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