O 'Senhor dos Anéis' à portuguesa



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Tudo começou com o forjar dos Grandes Anéis Orçamentais. Três anéis de subsídios foram dados aos Elfos Empresários, seres produtivos e entre os vivos os mais sábios e empreendedores. Sete anéis de comparticipações aos Anões Autárquicos, exímios mineiros e artífices habitando nas câmaras municipais. E nove, nove anéis foram entregues à raça dos Homens Ministeriais, que, acima de tudo, anseia por poder.   Mas todos tinham sido enganados, pois um outro anel fora forjado. Nas fornalhas da Montanha Negra, Sauron, o Senhor das Trevas, forjou em segredo um Anel-Mestre capaz de dominar todos os outros, e no qual depositou todo o seu esbanjamento e desperdício, e o desejo de dominar todas as finanças. Nele estava escrito na língua de Mordor "Um Anel que a todos domine, um Anel que a todos encontre, um Anel que a todos prenda e que no despesismo todos retenha."   O Anel da Despesa fez-se propriedade da criatura Gollum, que o levou para os túneis inacessíveis das Repartições Nebulosas e lá o consumiu. Dizia-se que Gollum em tempos fora um Elfo Empresário, um Anão Autárquico ou um Homem Ministerial, mas agora, que caíra sob o poder do Anel, estava todo deformado. Passava os dias a olhar para o Anel e a dizer "Meu Precioso, meu Tesouro. É meu, o Precioso". O Anel proporcionou a Gollum uma vida anormalmente longa até à reforma, e durante décadas envenenou-lhe o espírito. E na escuridão da caverna, o Anel aguardou.   Então o Anel fugiu e fez sentir todo o seu poder de burocracia, desperdício e excesso de pessoal. Uma a uma, as Zonas Livres da Terra Média foram vencidas pelo poder do Anel e pelos seus raios de carga fiscal. O Anel da Despesa abafou a produtividade das empresas com impostos e regulamentação. Enterrou os Anões Autárquicos nas montanhas do endividamento. Os reinos da Terra Média, da Planície do sistema nacional de saúde à Floresta do sistema educativo, do Pântano do aparelho judicial aos Picos das forças de segurança, todos tremeram com o terrível encanto do Anel da Despesa.  

O feiticeiro Ganfinalmoura, o Cinzento, que estava encarregue de o vigiar, negou durante séculos que houvesse quaisquer problemas orçamentais. Um dia acordou, criou uma comissão, escreveu um relatório com 50 medidas contra o Anel, e cavalgou a toda a brida para ir falar com o chefe da sua Ordem, Saruterres, o Branco. Só que ambos foram atacados por um balrog, um demónio eleitoral do Tempo Antigo, e tombaram no abismo. Um foi para Espanha tratar de electricidades e o outro para a ONU.   O Anel caiu então em poder do ser mais improvável e inesperado, um hobbit do Shire, que sabia que o país estava de tanga. Frurão compreendeu que a única solução era deitar o Anel na fornalha da Montanha Negra, onde tinha sido forjado. Partiu na longa viagem, mas foi logo raptado pelos Nazguls, mortos-vivos da Comissão Europeia. O seu fiel companheiro Sam-tana, um hobbit que gostava de beber cerveja e cantar canções, pegou no Anel e jurou continuar o caminho. Só que, quando entrou na toca da aranha gigante Shelob, ela dissolveu- -lhe a imagem política, depois dissolveu-lhe alguns ministros e acabou por lhe dissolver o Parlamento.   Foi nessa altura que o feiticeiro, que todos julgavam morto, voltou a surgir das profundezas da Terra. Mas em vez de vir como Ganfinalmoura, o Cinzento, apareceu como Gandócrates, o Branco. Foi ele que criou a "Irmandade do Anel", uma aliança de elfos, anões, homens e hobbits para levar o Anel da Despesa até à destruição. Mas como no meio da confusão se tinha perdido o Anel e lhe disseram que era preciso fazer reformas, ele subiu a idade de reforma aos Orcs. A partir daí, a viagem teve de ser feita com Gollum a gritar ao lado "A minha preciosa reforma."   O Anel, para afirmar o seu poder, fez com que Gandócrates, o Branco, ficasse sob o poder das "Duas Torres", a Ota e o TGV, que haverão de perpetuar o despesismo por toda a Terceira Era. E agora, imaginem, o feiticeiro até anda a dizer que a única solução para o problema é "O Regresso do Rei"!

João César das Neves

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